Quanto vale a música tradicional?

por Rodrigo Caçapa.

Qualquer reflexão ou diálogo a respeito da música tradicional do Nordeste brasileiro esbarra imediatamente no problema da própria denominação do objeto. Música de tradição oral, música tradicional, música de rua, música de terreiro, música regional, música de raiz, música folclórica, ou cultura popular. Nenhum desses termos é capaz de abarcar a imensa diversidade estética desse universo, nem dar conta das particularidades históricas e da complexidade dos contextos culturais nos quais essas músicas são cultivadas.

Seja qual for o termo utilizado, a intenção primeira dessa classificação é opor essa música àquela relacionada diretamente à indústria fonográfica e aos meios de comunicação de massa (a tal da música popular), e ao universo da chamada música erudita (ou música “culta”), ligada à tradição ocidental, à educação formal e ao mundo acadêmico. Ao mesmo tempo, procura associar essas expressões musicais às camadas sociais mais desfavorecidas, formadas em sua maioria por negros, índios, mulatos, caboclos e seus descendentes.

Mesmo que consideremos natural a relativa ineficiência desses termos e aceitemos seu uso, não podemos esquecer que esses podem ser empregados com intenções muito diversas, seja para justificar e manter o histórico abismo social, econômico e cultural do país, seja para tentar compreender as suas particularidades e, a partir daí, questionar a imposição de limites rígidos entre essas expressões musicais e, consequentemente, entres os indivíduos e grupos sociais que as produzem.

Se essas denominações fizeram muito sentido durante parte do século passado – particularmente no momento em que a indústria fonográfica e o rádio estavam nascendo ou engatinhando, e no qual a música erudita brasileira ainda não tinha incorporado tantos elementos da música de tradição oral, como viria a ocorrer a partir dos anos 1920, na obra de compositores nacionalistas como Villa-Lobos – hoje, em pleno 2014, a realidade nos obriga a repensar seus significados e desdobramentos.

“Imaginar que o universo da música tradicional existe como algo alheio ou à margem do mercado cultural é um equívoco.”

Imaginar que o universo da música tradicional existe como algo alheio ou à margem do mercado cultural é um equívoco. É evidente que grande parte dos artistas tradicionais não produz a partir da motivação do lucro, do sucesso e da fama. Os impulsos certamente são outros, muito mais próximos das funções primordiais da música: a celebração coletiva, a expressão pessoal, a diversão, a identidade cultural, a religiosidade, ou apenas a necessidade visceral de cantar, tocar e dançar. Ainda assim, todas as formas de música tradicional estão inseridas num determinado nicho do mercado cultural (seja o mais elementar ou o mais complexo), um ambiente que possibilitou a sua criação, difusão e sobrevivência. Ademais, algumas dessas formas musicais foram além, mantendo pontos de contato com segmentos de mercado diferentes daqueles onde surgiram originalmente.

O que ocorre é que os ambientes nos quais a música tradicional comumente se estabelece funcionam de modo diverso dos modelos de mercado associados aos meios de comunicação de massa e à indústria fonográfica. Naqueles ambientes também existem as relações de troca, as relações entre artistas profissionais (e também entre amadores e aprendizes), existem os custos para realizar uma apresentação e a necessidade de divulgar essa realização, a necessidade de um espaço, existem os construtores de instrumentos, alguém para organizar tudo, existe a especialização e também o conhecimento abrangente, além do indivíduo ou o grupo de pessoas que contribui pra cobrir os custos. As necessidades básicas não são tão diferentes das que se observa no mercado de música popular, mas as soluções para essas necessidades é que costumam serem outras. Se isso não é um mercado de bens simbólicos (um mercado informal, é verdade) o que mais seria?

É verdade que a dinâmica social e econômica de alguns desses ambientes onde a música tradicional se estabeleceu têm se transformado rapidamente ao ponto de dificultar ou inviabilizar a sobrevivência dessa forma de expressão. Ainda assim, o maior problema talvez não seja a configuração desses segmentos de mercado onde a música tradicional acontece historicamente, mas as relações entre os músicos tradicionais e os ambientes da música popular e erudita, da comunicação de massas e da gestão pública, é que costumam ser muito mais conflituosas e desfavoráveis aos primeiros.

Este é o ponto: o valor de mercado que um artista ou sua obra alcança perante um determinado segmento da sociedade está diretamente associado ao valor simbólico que esse mesmo segmento social lhe atribui. Em seu ambiente original, a relação entre música tradicional e mercado é relativamente equilibrada: uma comunidade interessada em produzir e fruir da sua música tradicional mobiliza seus próprios recursos e negocia suas relações de trabalho, no limite de suas capacidades, e de acordo com a importância (muitas vezes, central) que essa forma de expressão ocupa no seu cotidiano.

“Qual o valor simbólico que a música tradicional do Nordeste representa para grande parte da população de classe média e para a elite econômica das grandes cidades da região e do país?”

Qual o valor simbólico que a música tradicional do Nordeste representa para grande parte da população de classe média e para a elite econômica das grandes cidades da região e do país? E para a imensa maioria da classe política, dos gestores públicos e dos grandes veículos de comunicação? Essa música representa verdadeiramente algo mais do que uma relação superficial com uma estética considerada ingênua e primitiva, e com a qual se entra em contato apenas uma vez ao ano, por força do hábito? Vale mais do que um mero ingrediente dos antigos ideais nacionalistas? Tem outra função além de servir às peças publicitárias para turistas verem?

Em tempos de interferência autoritária do poder público em manifestações tradicionais seculares, vale perguntar: o desequilíbrio entre o valor simbólico oficialmente atribuído à música tradicional e o seu real valor de mercado não poderia ser compreendido como um reflexo do tratamento historicamente dispensado pelo segmento mais abastado da sociedade brasileira aos estratos sociais mais desfavorecidos?

Arte de capa: Daaniel Araújo – “Cavalo marinho”, 42x77cm, Óleo sobre compensado.

 Publicado originalmente na 2ª edição da revista Outros Críticos.

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Caçapa Por:

Compositor, arranjador, produtor musical e violeiro nascido no Recife (PE) em 1975, e radicado em São Paulo (SP) desde janeiro de 2014. Cursou Licenciatura em Música na Universidade Federal de Pernambuco, entre 1997 e 2001. Durante a gradução (incompleta), participou da fundação do Núcleo de Etnomusicologia da UFPE e da Associação Respeita Januário – Pesquisa e valorização dos cantos e músicas tradicionais do Nordeste. Escreveu artigos para as revistas Sounds and Colours Magazine (Inglaterra), Outros Críticos (PE), +Soma (SP), e para o lançamento do disco “Thiago França”, do Passo Torto e Ná Ozzetti. Atualmente desenvolve o projeto "O Coco-Rojão e as Violas Eletrodinâmicas: Pesquisa e Criação" aprovado no edital Rumos Itaú Cultural 2015-2016.

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