“Poesia como furadeira”: outras narrativas sobre arte e política

A última edição da revista Outros Críticos trouxe na seção “opinião” diferentes vozes sobre o tema-mote “A arte é a última esperança”; com ele buscamos refletir sobre as relações entre arte e política, criação, poéticas, trabalho coletivo, cooperação, ativismo, entre outras relações que podem transformar o espaço e as pessoas através do lugar que a arte ocupa na sociedade. Diante do momento político, social e cultural que vivemos atualmente, vale perguntar, refletir, sobre o lugar da arte, dos artistas, dos agentes culturais, dos educadores, da sociedade como um todo, como movimento de mudança diante dos golpes macro e micropolíticos que nos cercam nesse tempo. A arte é a última esperança? Como a arte caminha diante desse tempo?

Paulo Marcondes Ferreira Soares – Professor do Dep. de Sociologia/PPGS-UFPE

Ter a arte como a última esperança de nosso tempo, fundamentado num pragmatismo de consumo, impõe-nos reconhecer sua capaz da ressignificar convenções em novos processos do fazer artístico. Isto não garante à arte o salvo conduto em face de sua institucionalização como bem fetichizado. O desafio encontra-se na radicalização de sua capacidade de experimentar, de produzir incertezas numa era acomodatícia; produzir seu factum artístico, não-idêntico (Adorno), se a arte não se reduz a conduto de conteúdo político – forma redutora do uso da arte. Só mediado pela linguagem, o cotidiano é fonte de expressão estética. Arte e política implica que processos nela envolvidos resultam de seu diálogo com as transformações do meio. Com as novas tecnologias, a arte passou a operar em sistemas de rede, com a incorporação de novas mídias, maior poder de acessibilidade a produtos estético-artísticos e de sua produção-circulação. Particularmente, uma espécie de ativismo político e estético se cruza, dando forma a novas modalidades de ação, com modelos alternativos de experiências coletivas e subjetivas face aos modos instituídos. Tal cruzamento se manifesta na forma de arte pública, de coletivos; com a utilização de mídia radical ou tática, e procedimentos ético-estéticos de contraposição à arte e mídia comerciais, sem abrir mão, por excelência, das possibilidades inventivas de expressão das linguagens artísticas. Nisso reside a nota de esperança.

Priscilla Buhr – fotógrafa

Viver em uma sociedade em que precisamos ser salvos não é fácil. O Brasil vive um momento especialmente estranho: uma democracia abalada, uma presidenta afastada por uma manobra sobretudo machista, um pensamento reacionário ganhando força, uma violência institucionalizada. Aí nesse caos eu resolvo ter um filho. E feminista que sou ganho de presente o desafio de ser mãe de menino em um país que insiste em colocar as mulheres no lugar de belas, recatadas e do lar, enquanto os homens no parlamento votam contra os nossos abortos. Mas o que isso tem a ver com arte? Tudo. Uma das minhas principais questões é como ensinar o meu filho, homem, a não ser machista hoje, em um tempo em que uma mulher é estuprada por 30 homens, mas a culpa é dela. Uma das poucas certezas que tenho é que terei a arte, principalmente a música, como grandes aliadas na educação feminista do meu filho. Se o que nos impõe é o silenciamento e a submissão, temos encontrado na música gritos importantes para o empoderamento das mulheres. Nomes como Elza Soares, Lívia Cruz, Karol Conká, Karina Buhr, Mc Carol e Clarisse Falcão têm mostrado que a figura feminina vai muito além da Amélia; a mulher desse fim de mundo é forte, não se cala e não permite mais a violência. Fica de lado a diva figurativa, entra em cena a guerreira selvática. Mulheres estão, literalmente, salvando suas vidas através da arte. É guerrilha diária contra a cultura de estupro, contra salários menores, contra violência obstétrica e eu acabaria os caracteres desse texto com essa lista, mas a perspectiva de criar um homem em um cenário em que se pode, todo dia, em doses homeopáticas, através da música ensinar a respeitar as mulheres é esperançoso, apesar de tudo. Temos sim salvação.

Philippe Wollney – poeta, produtor cultural e pai de Nina.

“Lutar com palavras é a luta mais vã” – Carlos Drummond

Falando de poesia, digo em um poema que “a palavra pedra não quebra vidraça” e que um “tigre de papel / é um texto em dia de protesto”. Aí vem um poeta e também amigo Fred Caju e rebate que “o discurso não vence / o canhão, mas convence/ quem aperta o botão”. Não encaro nossas visões como antagônicas, mas estão em níveis de ações diferentes. Sinto que existe uma ação, uma responsabilidade urgente que um poema em si, não dá conta, não justifica. A luta da arte abarca outro território, o território do simbólico. Mesmo quando a atividade artística tem cunho de intervenção, performance, arte coletiva ou outras estratégias, é no simbólico que a ação se faz. Como questiona Augusto Boal em sua A Estética do Oprimido: “Como a violência pode se manifestar sem que seja exercitada? Pelo espetáculo, pela estética. Como se revela e pode ser combatida? Pela estética e pelo espetáculo, que se extrapola onde se torna real e nela se completa”. É o confronto na dimensão do imaginário, o confronto sobre a formação da subjetividade, na linha sutil dos referenciais de identidade. Se, o Brasil em 2013, foi “o ano em que pensamos perigosamente”, me questiono como os artistas irão encarar as vozes das ruas, como irão encarar os estudantes secundaristas que estão ocupando as escolas, como pensar a arte de seu tempo. Porque em determinados contextos, “lutar com palavras é a luta mais vã”.

Nathalia Queiroz – Artista visual e ilustradora

Atalhos não necessariamente conduzem vias mais rápidas. Eles estão mais, a meu ver, como caminho ainda não tão conhecido que poucos ousam tomar. Escolher percorrê-lo traz sempre um risco e um benefício ao menos. Para quem pensa em imediatismos talvez seja a rapidez tal benefício – e o risco, o atropelo. Há, pois, quem busca justo o tempo diluído da paisagem, o inesperado, a aventura. Aflora em si um olhar subjetivo permeado no corpo que caminha com todos os sentidos de um corpo vibrante. Ao criar atalhos, suponho ser preciso um pouco além de coragem na iniciativa, força para abrir espaços, delicadeza ao esgueirar-se e agilidade para os riscos. Há também, e talvez seja esse o ponto, de pulsar em si uma potência imaginativa de visualizações múltiplas entrelaçadas à trilha, névoas de sonhos que alimentam a alma vivaz fazendo valer todo o risco. Sonhos que não estão no futuro previsto ao fim da trilha – como busca o imediatista – mas sim no ante-passo, um ante após outro, como um refrescar-se inesgotável. Em tempos de duras vias normativas cerceadas de invenção, desviantes de ímpeto insubordinável percorrem vias outras, incertas, que para alguns configuram ameaças contra a cartilha de certezas. Certamente os fiéis que a seguem tentarão domesticar os insubordináveis assim como transformar em método o que a eles cabe como estilo. Certamente também não será medido poder ou violência contra quem atue de forma desviante. Assim tem sido dada a subtração da potência do imprevisível no decorrer de toda a história da humanidade. Mas a busca “artista” é pura potência que empurra a caminhada insaciável, capaz de atravessar até mesmo a morte do corpo físico que anda.

Roberta Martinelli – Jornalista e radialista. Apresenta o programa Cultura Livre, da TV Cultura.

Arte é importante, porra! A arte pode mudar uma vida? Arte tem poder transformador? Em tempos de conservadorismo e um mundo cada vez mais esquisito a arte é a última esperança? Existe esperança? Esperança é uma paixão triste, segundo Spinoza. Paixão triste é o que nos faz permanecer estáticos, sem avanços, sem mudanças. Então Arte não vai ser a nossa última esperança e sim a última arma num mundo cheio de ódio. Contra o ódio que está cada vez mais forte, temos a arte. Tem maneira mais eficaz e bonita de lutar contra esse sentimento que está dominando tudo? Arte deveria ser ensinada em escolas, todas. Martinho da Vila outro dia me falou: “acredita que antigamente artista era sinônimo de vagabundo? Se a menina namorasse um cara que tocava violão, todo mundo na família ficava preocupado. Não era bom namorar vagabundo”. E eu disse: “sabia que tem gente que acha que artista é vagabundo ainda hoje, em 2016?” E ele: “ahhhh isso é tão ultrapassado que nem cabe na minha cabeça”. Não cabe em nenhuma cabeça. Acredite! Mas no ódio ainda cabe, porque ódio não pensa, não sente. Contra ele, arte.

Marcelo Coutinho – artista e professor de Artes Visuais na UFPE/UFPB

30 Notas da Invasão: Arte como Alethéia e Política como Doxa.

  1. “Verdade” para os gregos era A-lethéia. (o prefixo “a”, indica uma negação. “Léthe” significa esquecimento). Gosto de traduzir Alethéia ação de “desesquecer”.
  2. Na Grécia Antiga o poeta, o adivinho e o rei de justiça (o sábio), eram aqueles que privilegiadamente não esquecem. E suas palavras, suas falas, inspiradas pelos deuses, tinham o poder de levar alethéia, desesquecimento, aos homens.
  3. Seria de se pensar delicadamente sobre este desesquecimento. Sobre esta clareira aberta pela palavra ou pela imagem…
  4. Este “desesquecimento”, esta alethéia, seria a recuperação da presença de algo que sempre se soube. Mas que estava ocultado.
  5. Inspirada, entusiasmada, efeito de pathos, a fala do poeta é avessa à fala consensual, que firma a ordem política da cidade.
  6. E será exatamente por isso Platão irá aconselhar a expulsão do poeta da cidade.
  7. A pólis, cidade grega, e sua demo-kratia (demo-kratia, “povo-domínio”, “povo-poder”) será montada como sendo fruto de outra fala: a Fala dos Guerreiros.
  8. Os guerreiros tinham dois direitos na assembleia: a isegoría e a isonomía. Isegoria é o direito de fala e opinião. Isonomia, igualdade entre os demais guerreiros diante da lei.
  9. Desta fala isonômica entre guerreiros nascerá a polis e fundar-se-á a fala politikos.
  10. Esta fala consensual não será desesquecimento. Não se ligará a alethéia.
  11. A fala política se ligará à dóxa.
  12. Dóxa significa conformar-se a uma norma estabelecida pelo grupo. Escolher, deliberar e decidir diante de uma situação segundo as regras ou normas de um grupo.
  13. É na assembleia dos guerreiros que surge, além da fala filosófica, a fala jurídica: a Lei.
  14. Expulsos da pólis a poesia e o poeta, a Arte surge, portanto, como sendo ontologicamente bárbara.
  15. Arte é força bárbara que sitia a cidade.
  16. Teratológica, ela produzirá antídotos para o esquecimento.
  17. E será este destilar o seu ativismo.
  18. Este ativismo não é do tipo de levantar bandeiras, nem produzir discursos claros demais.
  19. Clareza, luz e razão são coisas de cidadãos e não de bárbaros.
  20. Este ativismo não pode ser panfletário, repleto de palavras de ordem e de comandos.
  21. Tais imagens também são frutos de dóxa. Mesmo que seja uma dóxa minoritária.
  22. As sociedades e suas culturas são, portanto, em si mesmas, estruturas de repetição e esquecimento.
  23. Será dentro do “mercado persa” de repetitivas trocas simbólicas que deambularão indivíduos e se constituirão os códigos de convívio social.
  24. Arte é o açoite aos códigos compartilhados que, por se repetirem, se confundem com a verdade.
  25. Arte é um ato de virar mesas, de atirar todas as moedas ao chão, de acusar o comércio sujo dos vendilhões e de expulsá-los do templo.
  26. Neste sentido a Arte é a promoção do desacordo social.
  27. Mesmo quando o desacordo é delicado e promove não mais que um luxuoso erro gramatical.
  28. Arte é “lavar as vista pro mundo”.[1]

[1] A bela frase é a maneira de descrever o ato de banhar o rosto pela manhã criada pelo Sr. Bugo, agricultor analfabeto, nascido na região de Santa Rosa, área rural da cidade de São Lourenço da Mata.

Arte: Mariana de Matos

Publicado originalmente na ed. 12 da revista Outros Críticos.

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Desde 2008 atuam desenvolvendo projetos de crítica cultural na internet e em Pernambuco. Produziram livros e publicações, como a revista Outros Críticos, além de coletâneas musicais e debates, como os do festival Outros Críticos Convidam.

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