Pequeníssimo manual para sobreviventes artistas sem obras

CAMINHAR*

A arte seria garantia de sanidade? Desculpe-me, madame Bourgeois, não estou certa disso. A vida, e a espécie humana herdeira de emanações interestelares, precede a arte. Pois, se a arte é via para bem-estar e alívio imediato, é também indício da existência limitada em que nos metemos.

Parece simpática, e lógica, a ideia de que toda prática artística tenha como ponto de partida uma intenção existencial. Nesse sentido, a arte antes de produzir objetos carregados (signos), é uma forma de experiência que requer um contínuo exercício de si.

Na história da cultura ocidental, há uma série de práticas ascéticas, individuais e coletivas, realizadas com o objetivo de constituir esteticamente a vida cotidiana. Desde o antigo mundo grego, um exemplo de ferramenta criativa individual é o skechtbook. Essa caderneta de uso pessoal mantém em comum com a antiga hypomnemata funcionar como um repositório de citações, reflexões e anotações sobre coisas lidas, ouvidas ou pensadas, não com a finalidade confessional de um diário, mas com o objetivo da construção prática de si pela escrita. Um treinamento de si, que Foucault nos aponta como modo de subjetivação centrado na ideia de um si que deveria ser criado como “obra de arte”: uma ética que é uma “estética da existência”.

Outro processo ainda mais direto e representativo de um modo de existência autônoma é o caminhar. O andar só contempla simultaneamente um ato cognitivo e criativo quando se dá livre de atividades mais funcionais, sobretudo aquelas que pretendem atender uma demanda do moderno campo da arte. Numa pedalada de bicicleta, por exemplo, ao se cessar o movimento se tomba. Com um impulso semelhante, deambular criativamente preza mais pelo encadeamento de um fluxo contínuo do que pela realização de rotas entre espacialidades. O caminhar como instrumento estético encontra seu valor, pois, no movimento contínuo do devir e na errância do desvio.

Por fim, caminhar parece ser uma estratégia sine qua non a um artista sem obras. Ao lançar seu corpo no espaço, o andarilho pode se deparar com muitas condições adversas. Ele entra num jogo bem mais complexo do que aquele assegurado no contexto espaço-cultural onde transita o artista com obras. Como observou Careri em suas investidas caminhantes na América do Sul, caminhar nesta zona implica encarar muitos medos, especialmente do Outro, inimigo potencial.

Esse universo de enfrentamentos diários abriga diversas “invenções cotidianas”; artifícios bricoladores acertadamente registrados por Certeau. Criações engenhosas que operam como desvios da norma do instituído, dando esperanças de que, nos interstícios dos códigos impostos, toda uma série de táticas subterrâneas possa dar vida às ações anônimas capazes de desmontar as verdades de discursos morais, políticos e tecnocráticos criando situações espaciais outras, que relutam contra o conformismo.

Caminhar é interessante por se tratar de uma prática política e estética, que presume um desejo ético antes de um estético. Mais uma vez, estética da existência e encontro do que nela escapa.

A seguir: JUNTAR. E depois: DEXISTIR

* Texto dividido em três pequenas partes/verbetes ficcionalmente intitulado de “manual”. Pretensioso como qualquer guia, este ambiciona fazer parte de uma estética das listas elencando apenas três situações sobre a arte como reinvenção de mundo e de modos de viver – a vida de artista, nesse caso, sem obras. O desejo idílico, obsessivo ou fracassado, por uma práxis criativa que ao se deparar com uma acumulação confusa de fenômenos mal definidos, propõe a ordenação de uma lista.

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Artista visual e pesquisadora. Doutoranda no curso de Design da Universidade Federal de Pernambuco, integrando o grupo de pesquisa i! Laboratório de Inteligência Artística (CNPq). Coordena o grupo de desenho e performance Risco! Em 2017, lançará o aplicativo de geolocalização Guia Comum do Centro do Recife, livro homônimo idealizado e produzido em 2015.

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