PAPERBAG #2 com Epaminondas Bartolomeu

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Paperbag é uma série de entrevistas que omite a real identidade dos entrevistados para que o leitor se atenha – em primeira instância – ao conteúdo das respostas sem associá-las diretamente a alguma pessoa ou contexto, com isso cada entrevistado é convidado a escolher seu próprio codinome e algumas palavras são suprimidas. Todo mês entrevistaremos uma personalidade pública de relativa relevância e atuação na cadeia produtiva musical local e nacional.

 

Há quantos anos você tem produção efetiva na música? Está satisfeito com o que construiu até aqui? Por quê?

O que é produção efetiva? Se tem a ver com dinheiro, desde os 17 anos… Se for a ver com meu envolvimento sério, desde que comecei, aos 13. Não estou satisfeito, se estivesse tinha parado… Mas me orgulho do que fiz, sabendo que o melhor está por vir.

O que você estava fazendo aos 13?

Desde que comecei no violão nessa idade, arriscava compor música instrumental, uma vez mostrei uma música para um professor do conservatório, ele disse que não tinha entendido nada, mas meus colegas adoraram… Então, eu preferi ouvir meus colegas e fui insistindo nesse tempo todo. Sou cabuloso.

Você falou que se tivesse satisfeito teria parado. Isso vai acontecer algum dia?

Não sou tão otimista…

Até porque tu é cabuloso…

Pois é… Insaciável (risos)

Quando ficou orgulhoso pela primeira vez de um trabalho que havia feito? Quando percebeu que era mesmo de qualidade?

Pô, na verdade, desde essa música que mostrei ao professor e ele não entendeu nada! Eu sempre estive fazendo o máximo que eu podia, em cada época tudo foi sincero e supria minhas necessidades. Reconhecimento de fora é outra coisa.

Com o [nome da ex-banda do músico] rolou um reconhecimento de fora bem explícito, né? Foi uma época boa pra tu?

É vero (verdade)… Como sempre, foi uma época de altos e baixos. Vivenciei essa coisa de banda, com todos os tapetes vermelhos desenrolados, mas sempre soube – no fundo – que ia seguir outro caminho.

Então, já dentro do processo, via que não era muito pra tu aquilo ali… Quer explicar melhor?

Sim… era muito divertido, eu precisei passar por isso para me encontrar. Quando comecei, minha única perspectiva era tocar numa banda, não conhecia outros caminhos. Depois fui vendo que não era exatamente aquela rotina que me satisfazia, embora tenha, sem dúvida, como todos estão cansados de saber, vários fatores favoráveis: poder de voz, interesse por sua opinião, diversão… A bajulação já acho contra, porque te põe em uma redoma.

Mas analisando friamente hoje em dia, a tua saída foi bem pensada e sem arrependimento algum.

Foi muito pensada e difícil, demorou anos maturando até acontecer.

Você não se identifica mais musicalmente com nenhum dos que ficaram na banda? Ou nunca se identificou?                       

Não é isso… Gosto do som da minha ex-banda! E na época, como disse, tudo pra mim foi sincero. Até pelo que vejo do que estão fazendo hoje, minha saída não os deslegitimaria. Música tem diferentes funções com espaço pra todo mundo. Eu fui atrás do que mais me movia.                   

O que mais te move?                       

Muito difícil essa pergunta, vou tentar responder… (pausa)… Não é necessariamente algo consciente, mas refletir sobre isso pode trazer à tona alguns posicionamentos. Uma coisa que sempre me atraiu em música é a questão da criação e da interação em conjunto através da improvisação em grupo, já experimentei, como muitos, uma “iluminação”… É uma coisa espiritual, tudo que faço em música é em busca desse estado. Não é algo incomum; na verdade, acho que todos os músicos vivenciam isso, a música tende a isso, mas há certos formatos que, para algumas pessoas, propiciam isso com mais frequência. Estou interessado na cerimônia musical como um todo, compositores-intérpretes, ouvintes, ambiente…

É difícil alcançar isso no formato que tu se propõe?

Então, os formatos de banda que venho experimentando desde a saída da minha ex-banda, que tem um formato mais clássico e difundido, foram pensados nesse sentido: a improvisação, não-linearidades, mantras, a investigação de fenômenos psicoacústicos, deveriam favorecer o tal do estado alterado de consciência, e isso  pode ser alcançado de várias maneiras, e pra cada um é diferente, esses são os meios que funcionam pra mim. Outras pessoas podem ter a mesma experiência  ouvindo um rock.                       

Podemos dizer que essa tua busca é mais iconoclasta?                  

Em certo sentido, talvez… Mas não sairia cortando cabeças (risos), mas claro que diverge das estéticas predominantes. Claro que vem com uma outra  proposta.                      

Tu tem uma personalidade anti-hegemônica.

Agrada-me essa definição, não sei se acertou no que sou, mas certamente no que eu gostaria de ser. Tenho buscado uma estética que responda ao status quo numa vibe meio “galera, deu merda, bora repensar”.                       

Aproveitando o ensejo, como anda a música produzida na sua cidade?                       

Pois é, eu ia comentar isso. Vejo com preocupação a apropriação das estéticas supostamente revolucionárias pelo establishment. Quer dizer, estamos nos tornando ursinhos carinhosos? A cooptação das bandas por multinacionais, pelo Estado. Isso, a meu ver, destrói seu poder de fogo, há uma perversidade aí. Quem está definindo os rumos da cultura, afinal? Os artistas ou quem detém os meios de divulgação? Pode ter certeza que eles não deixarão passar nada com real potencial revolucionário. A cena (da cidade onde o músico vive) tem se tornado cada vez mais inofensiva.                       

“Eu acho que o melhor combate é se procurar entrar na fortaleza a conquistar, não é você dar tiro de fora, é procurar uma brecha e começar a influir dentro.” (Marques Rebelo). Você concorda? A oposição pode ser feita no seio das instituições?                      

Contanto que se esteja realmente infiltrado pra desestabilizar, né? Muitas coisas podem ser feitas, outras só com rupturas mais profundas.                      

No caso, ele se referiu a estar realmente infiltrado…                       

Eu concordo. Todos jogamos mais ou menos infiltrados, a única alternativa a isso é o cinismo.

Existem os mestres do cinismo, né?                       

Diógenes morava num barril e saía com uma lanterna de dia procurando um homem honesto. Quando o establishment se ofereceu a ele, quando Alexandre perguntou o que ele queria, ele disse: “Saia da frente do meu sol” (Referência a Diógenes de Sinope).                       

Todo avanço artístico é feito primeiro para a elite?                       

Não. Nem elite econômica, nem intelectual, nem nada na verdade. Nem existem “avanços”, existem transformações, a arte de uma época não é melhor que a de outra época, essas transformações respondem às forças históricas, ao zeitgeist. São complexas, vindas de todas as direções.

Mas existem produtos que a massa não está preparada para consumir.                      

Há uma concentração de poder que empurra certas tendências gerais, e isso pode confundir, é questão de hábito, as mídias não estão comprometidas em habituar as massas com estéticas revolucionárias, pelo contrário, elas sabem do perigo disso. A música é muito mais perigosa do que hoje aparenta. Querem transformá-la em mero entretenimento, mas ela é isso e muito mais. Na Antiguidade, ela era assunto de Estado. Platão preocupava-se mais com a música do que com muitos outros assuntos.

É impossível atingir as massas se a grande mídia não quiser?    

A internet já melhorou isso, embora também sua arquitetura atual dificulte o indivíduo a atingir as massas. O Facebook limita isso a todo custo. A humanidade precisa desprivatizar a internet, os bancos de dados devem ser internacionais, precisamos de uma rede de relacionamentos em código aberto. Tem um monte de coisa a falar sobre isso, mas, em resumo, a internet do jeito que é hoje, além de ser o maior banco de espionagem do mundo, funciona a 1% de sua capacidade.

Você também se decepcionou com os rumos que internet tomou?

Ainda acho que isso possa mudar, mas vai ser cyberwars.

Tenho observado que você parece incomodado com o excesso de câmeras nos vigiando diariamente. Você está ficando paranoico?

(risos) Cara, nossa sociedade é paranoica, esquizofrênica. A sensação de perseguição, de estar sendo observado, a privação da privacidade é uma das características mais marcantes da nossa época. Muito bem observada essa questão, esse tema me interessa bastante, porque é uma sacanagem, na verdade. É o que chamo da indústria da violência, em vez de resolver as causas da violência, eles atacam os efeitos e não há nada mais fascista que a classe média assustada, ela aceita tudo: reduzir maioridade penal, instalar câmeras, alarmes… Estamos assistindo à instalação do big brother, e tudo com a conivência da população. Isso tem consequências profundíssimas. Imagine uma ditadura que se valha desse aparato.                       

As pessoas estão cada vez mais perdendo a humanidade em busca de um bom registro com suas câmeras móveis?

É por aí… Na verdade, os habitantes das cidades grandes se odeiam. A arquitetura das cidades promove o conflito, acabou aquilo de pedir uma xícara de açúcar ao vizinho, porque esse vizinho é o FDP que vai te desrespeitar de algum modo, com som alto etc. Acho que essas câmeras móveis são um processo irreversível, ao menos em nosso tempo, mas elas são muito diferentes das câmeras fixas que filmam o dia inteiro uma rua, e o conjunto delas filma o dia inteiro a cidade inteira. É o conjunto delas que realizou o big brother, hoje você sai de casa, vira a esquina, tudo filmado, é possível rastrear todos os seus movimentos. Google Earth pra essa galera é em tempo real. Ou seja, não é que eu esteja ficando paranoico, a sociedade está paranoica. Eu até que estou me virando bem.                      

Além da sua atuação como músico, você tem atuado em questões relacionadas ao melhoramento da relação do homem com o espaço urbano.

Os problemas começam a entrar dentro da sua casa, do seu quarto, ou você se posiciona ou é engolido, e a qualidade de vida em (cidade do entrevistado) se degradou muito em poucos anos, com o desenvolvimentismo. Eu senti que já não podia me dedicar exclusivamente à música, outras ações paralelas seriam necessárias ou eu mesmo sofreria demais no futuro, a questão da (causa social que o músico está envolvido), por exemplo, é uma causa pouquíssimo discutida, senti que se eu não levantasse essa bandeira, talvez ela não fosse levantada tão cedo, e como a luta é longa, melhor começar o quanto antes. Como músico, entendi que essa era uma luta com a qual eu poderia contribuir bem. A primeira coisa que fiz foi repensar minha estética musical, em como eu poderia estar contribuindo negativamente para o problema.

Tu sempre me pareceu uma pessoa idealista e que leva essa condição a sério. Um dia você acha que vai cansar disso tudo?                       

Às vezes eu já faço isso meio cansado, dá uma canseira ver a quantidade de problemas, as almas sebosas trabalhando contra… Talvez um dia passe o bastão, mas por enquanto não tenho escolha. Temos que nos superar.                       

De repente, quando chegar a hora de passar o bastão, ele estará mais leve.                      

Pois é… ou mais pesado, dependendo do que fazemos hoje. É preciso semear.

por Rodrigo Édipo.

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Nascido e criado em Olinda (PE), fez mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), membro do INCITI - Pesquisa e Inovação para as Cidades (UFPE), voluntário no movimento love.fútbol, fundador da Mi-Independente, colaborador no Outros Críticos e coletivo B U T U K A.

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