Outras palavras, Outras questões

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Audio Rebel, no Rio de Janeiro.

por Bernardo Oliveira.

A utilização constante e acrítica da expressão “cena” em língua portuguesa, corresponde, na minha opinião, à situação precária do jornalismo cultural brasileiro e, particularmente, da crítica musical. Certamente, já devo ter utilizado essa expressão algumas vezes, tal como nos acostumamos a usar expressões consolidadas por um vocabulário de séculos passados (“obra-prima”), expressões contextuais mais recentes (“heavy metal”, “indie”) ou até mesmo expressões muito recentes que se consolidam não a partir de sua eficácia, mas justamente em função do que elas possuem de mais superficial e evasivo (como “hipster”, por exemplo).

Evidentemente, cabe a cada autor escolher o vocabulário com o qual vai trabalhar. Lembro de certas experimentações que procurei realizar, não sem uma dificuldade abissal, na tentativa de escrever sem aplicar rótulos ou expressões consagradas. Sim, a tarefa é árdua, mas penso que é chegado o momento em que nós que nos arriscamos a escrever sobre o turbilhão sonoro contemporâneo — isto é, que tentamos fixar na pedra o fluxo incessante da produção atual — deveríamos nos arriscar a repensar nosso vocabulário. Não em busca de maior “densidade discursiva” (o que é isso?), mas porque a experiência sonora contemporânea não se permite interpretar ou decodificar com ferramentas antigas. É preciso criar novas ferramentas, e essa necessidade é cada vez mais perceptível e urgente.

Tomemos a expressão “indie”. Existe toda uma literatura a respeito, todo um estudo a partir do desdobramento do conceito de “independência” no mercado anglo-saxão, que justificaria sua utilização. No entanto, diante do que vemos e ouvimos hoje — o turbilhão da independência depositada sobre uma diversidade absurda de selos e bandas que reivindicam esse rótulo — deveríamos nos abster de usá-la, pois simplesmente já não significa nada que não precise ser exposto e problematizado. O mesmo ocorre com esta noção estranha: “cena”.

Termos como “underground” e “alternativo” foram criados como dispositivo de diferenciação, sobretudo em relação à música comercial, ao “mainstream”. Contudo, se tornaram, elas mesmas, expressões “mainstream”. Da mesma forma, acho curioso quando os jornalistas das grandes corporações de comunicação chamam qualquer movimentação como “cena”, em particular a que vem acontecendo no Rio de Janeiro, mais particularmente na zona sul carioca. Me soa preguiçoso. Substitui-se a pesquisa, a frequência nos locais onde “a cena” se encontra, o conhecimento in loco das práticas, usos, diferenças (subjetividades) e dificuldades por uma expressão vazia que pretende sacrificar o que há de vivo com o objetivo essencialmente comercial de “comunicar”.

Ora, qual o sentido de uma expressão que pretende, ao invés de diferenciar, igualar as muitas “cenas”. No caso do Rio de Janeiro: qual o sentido de usar o termo “cena” para o contexto carioca? Vale notar que esta “cena” não se encontra inserida em nenhuma cadeia econômica virtuosa, não conta com uma regularidade de artigos e entrevistas nos grandes veículos (a não ser a famigerada matéria com “os novos”, anual e geralmente mal escrita), não possui lançamentos físicos, selos que sustentem esses lançamentos, nem apoio institucional.

Não que não haja uma articulação mínima entre artistas como Chinese Cookie Poets, Cadu Tenório e seus muitos projetos (Sobre a Máquina, VICTIM!, Ceticências), DEDO, Dorgas, Bemônio, Negro Léo, J-P Caron, Epicentro do Bloquinho etc. Mas são artistas muito diferentes uns dos outros. Cada um deles exige que o jornalista/crítico se debruce e procure entender onde eles querem chegar, seus interesses, particularidades. Mas a utilização abusiva de palavras redutoras como “cena”, interdita a compreensão adequada do fenômeno e amontoa todos eles de forma bastante descuidada em rótulos equívocos como “experimental” ou “underground”.

Não importa o que é uma “cena”, pois se trata de uma expressão redutora. Valeria substituí-la por uma experiência autêntica, tanto na escrita quanto na vida. Para outras questões convém buscar outras palavras.

Publicado originalmente em janeiro de 2014, na 1ª edição da revista Outros Críticos.

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Professor de filosofia da Faculdade de Educação/UFRJ, crítico musical e pesquisador.

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