Os decibéis da nossa dor

No centro do quadro, largado em cima de um sofá velho empurrado num canto de uma sala escura com paredes mal acabadas, Juninho lê em voz alta uma carta escrita por ele: “caro Cezinha filho da puta, você tá ligado que você é um cara muito importante pra nós e eu também quero te dizer que você é um cara que não merecia tá aí nesse inferno”. Esta dedicatória enviesada, para além de ser a introdução da carta que abre A Vizinhança Do Tigre (2014), funciona como um prólogo para o belo filme dirigido por Affonso Uchoa. Somos apresentados, logo na cena de abertura, à gênese do que será retratado no longa, com sua paisagem e seus personagens abandonados, condenados ao eterno dilema traduzido por Lévi-Strauss em sua fatídica sentença sobre o Brasil: “aqui tudo parece construção e já é ruína”. O inferno citado na carta, continua do lado de fora das grades da penitenciária onde se encontra preso o seu destinatário. De resto, um cenário bastante conhecido em nossa produção audiovisual, sobretudo em tempos recentes, mas aqui, mirado de dentro, sem a distância da lente antropológica dos observadores contemporâneos do cotidiano das periferias. Claustrofóbico, o quadro fechado e fixo – que se repetirá muitas vezes ao longo do filme, para além do incômodo, nos revela a profunda intimidade de Affonso com o universo retratado em seu filme. Seus planos arrastados, longe de serem apenas uma opção estética, exibem familiaridade e respeito com as lentas e dispersas ações de seus protagonistas. É preciso tempo e paciência para acompanhar o ritmo truncado com que Juninho lê a carta, que se por um lado, expõe sua dificuldade de leitura e sua pouca alfabetização, por outro, destaca uma linguagem nada convencional, construída por gírias e códigos que transitam entre a ternura e a brutalidade cotidianas, embaralhando os limites entre o bem e o mal: “e de ruim aqui no bairro só os noia roubando na alta pra quebrar na pedra, no mais tá tudo normal, agora é só lutar por dias melhores pra todos nós. Aí, segura a onda, valeu irmão? Tamo junto nessa caminhada, eu não vou esquecer de você, tô aguardando no salmo: paz, justiça e liberdade, é nós”.

Desde a direção de Affonso, que não se define entre o documentário e a ficção, tudo em A Vizinhança Do Tigre parece em transição. Não apenas sua paisagem em ruínas, mas também seus personagens e sua indecisão entre permanecerem na infância ou entrarem de vez na vida adulta. Essa impermanência e uma imensa precariedade que contamina tudo e todos, só são superadas pela força de seus protagonistas, sobretudo nos momentos em que se deixam conduzir pela música. A rotina vazia de seus dias, dividida entre o consumo de drogas e uma falsa procura pelo que fazer, se altera com a presença da música. Em uma passagem, Neguinho e Maurício – outros dois personagens do filme, enquanto remexem panelas de comida, batem cabeça ao som da banda Silverchair, que preenche toda cozinha num volume altíssimo, acelerando o andamento viscoso da tarefa cotidiana. Tolera-se assim, a obrigação de preparar o almoço para os irmãos menores.

O assunto música, mesmo sem som, provoca uma fissão na ação dos personagens. Como na cena em que deitado sobre um colchão, Neguinho aponta para Maurício, que está na janela do lado de fora do seu quarto, um cabide de roupas transformado numa pistola 12 milímetros por sua imaginação e com o qual ele irá explodir não só a cabeça de Maurício, mas de quem mais passar por sua frente, seja um policial ou até mesmo um parente seu. O mal estar causado por essa fala de Neguinho, ampliado pelo modo escrachado com que a diz – afinal é uma brincadeira, é transferido para o pedido feito a ele por Maurício, para que procure uma camisa do Kiss supostamente esquecida em sua casa. Como Neguinho não a encontra, a violência anterior de sua fala fantasiosa, dá lugar a um desabafo real e violento. Neguinho subverte a natureza amorosa da palavra em inglês que nomeia a banda da qual ele procura a camisa, repetindo-a com raiva, descarregando em Maurício toda sua frustração: “Tem roupa nenhuma do Kiss aqui não! Kiss? Kiss? Cê tá vendo algum Kiss aqui, ô desgraça?!”.

Discussões sem sentido como esta são travadas ao longo do filme, adjetivos nada lisonjeiros são usados para nomear seus desafetos, como doença, anta, idiota, gorila, mucama, demônio, aids, arrombado, pra citar alguns. Por mais absurdo que possa parecer, é nesse modo torto de tratamento que reconhecemos a intensa proximidade deles, a brodagem compartilhada por todos. Uma espécie de afeto às avessas transparece nesses embates, como na cena em que Juninho escancara a insignificância de Neguinho na cara dele: “ô Neguinho, eu nunca vi seu nome nem na caixinha de fósforo, seu nome nunca veio nem na conta de luz, eu nunca vi, nem no saquinho de chup-chup eu nunca vi, Neguinho, nunca!”. Insignificância que também atinge Juninho, que divide com Neguinho uma existência à margem da vida, sem identidade, sem nome na conta de luz, traduzida na alcunha mais frequente com que os personagens tratam uns aos outros durante o filme, um genérico e anônimo Zé. Nesse contexto, música também vira arma de combate. A leitura travada da cena inicial do filme dá lugar a uma fluidez de raciocínio e a um flow habilidoso de rimas improvisadas, criadas para menosprezar o oponente em paródias criadas por eles, como uma em que Juninho e Neguinho transformam o funk consciente de Mc Yuri BH, em um funk proibidão. “Me chamou pra cantar na festa, o bom exemplo é que o crime não presta, foi Deus usando mais um homem, mano eu vou te falar: eu descobri que eu nasci pra cantar, foi Deus, foi Deus, foi Deus que esse dom nos concedeu”, versos redentores como estes, transformam-se nesta provocação carregada de uma sexualidade misógina e violenta: “me chamou, gozei na sua testa, um bom exemplo que a irmã do Neguinho não presta, e o Junhinho deu o rabo até pro Beira-Mar, eu descobri e agora eu vou falar: se fudeu, se fudeu, pro Beira-Mar você deu”.

Mas não só como fundo musical para a miséria em que vivem, vai servir a música. Ela serve também para iluminar o cotidiano opaco desses meninos. Em uma das sequências mais belas do filme, Maurício e Neguinho estão sentados lado a lado em mais um cenário que parece de destruição e enquanto ouvem uma outra canção do Silverchair, cantam juntos sua letra em inglês e se revezam entre air guitars e air drums, como se estivessem em um palco. Mesmo quando essa apresentação improvisada descamba para a discussão – sempre há uma discussão, a sintonia entre os dois permanece. Soterrados sob uma massa sonora ruidosa, os impropérios ditos um ao outro suingam de um modo improvável, transformando em breque, as pausas do arranjo de influência grunge da banda australiana. Mas é na conclusão da cena, que a destreza exibida por eles em seus instrumentos imaginários, alcança um outro patamar. Mauricio e Neguinho – sobretudo este, se revelam hábeis dançarinos em uma Batalha do Passinho travada por ambos. Seus corpos franzinos se agigantam ao som da música de Mc Vakão, “Passinho Dos Menores Da Favela”. A dança surgida nas favelas cariocas, ecoa de modo vigoroso no Bairro Nacional da cidade mineira de Contagem, onde é ambientado o filme, conectando as duas periferias de localidades tão distintas.

“Seu telefone tem música? Não? Então seu telefone não vale nada!”. Como se vê, não lhes faltam desejos consumistas, mas abandonados pelo Estado e ignorados pelo mercado, não lhes restam outra alternativa a não ser construírem sua própria economia, tão acidentada quanto suas ruas e moradias. Ironicamente, é este mesmo abandono que os livra de um achatamento cultural a que estão submetidos aqueles com acesso aos bens de consumo. A padronização tão desejada pela indústria, não sobrevive à tamanha carência de recursos. Assim como nos movimentos exuberantes do Passinho, em que misturados aos passos de funk é possível notar a influência do frevo, do samba e do break, toda a música a que tiverem acesso, com maior ou menor interesse, será consumida por eles. A lista é extensa e variada. Além dos ritmos citados até aqui, ao longo do filme ouvimos ainda rock, rap, gospel, folk e até trash metal. Essa recepção generosa e sem preconceitos, também um reflexo da enorme carência vivida por eles, poderia soar subserviente, como se não tivessem escolha, como se não estivessem em posição de recusar nada. Nada mais equivocado do que este julgamento. Essa liberdade musical, essa audição não domesticada, nasce de uma consciência coletiva compartilhada através da música, que além de tornar possível a convivência com a miséria e violência cotidianas, serve também como autoafirmação ante a precariedade de suas vidas.

A Vizinhança do Tigre – Trailer Oficial from Katásia Filmes on Vimeo.

A Vizinhança Do Tigre me fez lembrar do curta metragem Nelson Cavaquinho, obra-prima dirigida por Leon Hirszman e lançada em 1969. Impressiona a semelhança das paisagens em ruínas dos dois filmes. No filme de Hirszman, vemos as mesmas ruas acidentadas, sem urbanização e sem saneamento, as mesmas construções sem reboco entulhadas de sofás e colchões destruídos, com seus moradores parados nas janelas, vendo a vida passar. Na versão atualizada desse cenário de miséria, diferente da de Nelson, foram incluídos eletrodomésticos, mas suas tevês, máquinas de lavar e geladeiras de baixa qualidade, constantemente quebradas, se acumulam pelos cômodos de seus barracos como objetos de decoração desajeitados. Com uma distância de 45 anos entre eles, a repetição da miséria nos dois filmes, amplia em nós a sensação de um projeto falido, expõe o nosso fracasso enquanto nação. Em seu brilhante ensaio sobre Nelson Cavaquinho, Nuno Ramos identifica assim a presença desse mesmo fracasso em sua obra:

“Ele é nosso contato imediato com aquilo que deu profundamente errado em nós, sem remissão a nenhum outro: internacionalização, desejo, cosmopolitismo. Consegue sublimar nosso fracasso sem aludir à “vida que podia ter sido e que não foi”. Talvez deva muito de sua sobriedade e solidez formal à ausência desse elemento compósito, o desejo e a recusa do moderno, que caracteriza quase tudo o que fizemos. Em Nelson, a vida é o que é e, num certo sentido, aquilo que sempre foi. Por isso, não carrega ansiedade nem projeto. Parece tão desejável quanto a morte.”

Se Nelson Cavaquinho, com a força de sua extraordinária música, atravessou sua vida duríssima, aceitando a vida como ela é, os meninos do Bairro Nacional enfrentam seu tigre de um outro jeito, mais incisivo, abusado, como os versos de “Bactéria FC”, música do grupo de rap Facção Central, cantados com autoridade por Juninho e Neguinho no filme: “não adianta blindar carro, pôr vigia na porta, seu pior inimigo ataca via onda sonora, os decibéis da nossa dor vão estourar seus tímpanos”. A falta de documentos, de trabalho, de educação, de tudo, parece antes, um ato de desobediência civil. Imaginam-se livres em seu abandono. Livres para enfrentar quem os abandona.

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Cantor e compositor, tem em sua discografia sete discos solos lançados: "Calado" (2004), "Cão" (2006), "No Chão Sem O Chão" (2009), "Um Labirinto Em Cada Pé" (2011), "Barulho Feio" (2014), "Por Elas Sem Elas" (2015), "Rei Vadio_ As Canções de Nelson Cavaquinho" (2016). Com o grupo Passo Torto, do qual faz parte junto a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, lançou três discos: "Passo Torto" (2011), "Passo Elétrico" (2013), estes dois álbuns premiados no Prêmio da Música Brasileira e "Thiago França" (2015), este último uma parceria entre o grupo e a cantora Ná Ozzetti. Romulo também lançou um disco em parceria com o cantor e compositor César Lacerda, intitulado "O Meu Nome É Qualquer Um" (2016). Atuante na cena musical independente, é um de seus principais interlocutores, tendo publicado textos críticos sobre a música brasileira em diversos veículos da imprensa, realizado documentários, trilhas sonoras, curadorias musicais, além de produzir e dirigir discos e shows de outros artistas como Elza Soares, Rodrigo Campos, Juliana Pedigão, Pipo Pegoraro e Cacá Machado. Além das já citadas Elza Soares, Ná Ozzetti e Juliana Perdigão, suas composições já foram gravadas por diversas cantoras como Juçara Marçal, Nina Becker, Jussara Silveira, entre outras.

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