om #2 canções de fogo, resistência e cura

todo lo que le ocurre a la tierra le ocurrirá a los hijos de la tierra; si los hombres escupen en el suelo, se escupen a sí mismos. la tierra no pertenece al hombre, es el hombre el que pertenece a la tierra. todo va enlazado, el hombre no tejió la trama de la vida; él es solo un hilo de esa trama indio noah sealth

e o que é a espiritualidade? (…) ao invés de assumir a ignorância, preenchi os espaços  com mais uma resposta mítica. aquele comportamento de querer saber demais, sempre parecer que temos posse de alguma coisa, mesmo que nada exista, mesmo que nunca tenha nos pertencido, mesmo que tenhamos que ocupar arbitrariamente. isso pode mudar, comcertezatalvez no dia em que a luz da arrogância ofuscar a magia do silêncio, dos mistérios e das dúvidas até nos cegar todos os sentidos. e se sobrevivermos ao fim, vai ser irresistivelmente muito bom, como dançar de pés no chão ao alvorecer. pra isso acontecer, é preciso apenas guardar segredo e nada mais.

sentir é mais que saber e.marinho

deitado na rede, o pajé nos recebeu com um sorriso enrugado de ponta a ponta. estava ali, professor, alunas e alunos, todos em roda, olho no olho, como sempre há de ser. uma sala de aula extramuros, no meio do mato e de linguagem fácil, leve e compreensível. lá podem ser aprendidos exercícios práticos de humildade, empatia e respeito. os espaços de fala são distribuídos e as dúvidas sanadas com simplicidade, humoramor e simpatia. a não-violência é a força que vai salvar a humanidade.

nossa resistência e nossa história são mantidas pela espiritualidade encontro de pajés

tensões pré-cerimônia dissipadas no espaço-tempo. naquele instante nada estava à venda, pois de fato nada se podia comprar. estávamos apenas compartilhando valores, excelentes valores de um povo ameaçado por uma guerra declarada apoiada por um estado violento que tem por obrigação protegê-lo. tantas ofensivas, tanto sangue vermelho derramado e silenciado. desocupações e ocupações. martírios. culturas violentadas historicamente por caravelas brasilienígenas que acabam de lançar o mais recente modelo disponível para download. jagunços do exército dos três poderes, exploradores e privatizadores de tudo, inclusive de vidas.

rosa andrade ocagane era muito provavelmente a última mulher que sabia falar resígaro, um idioma falado em tempos pelos indígenas da amazônia. foi assassinada aos 67 anos (…) foi encontrada “sem cabeça nem coração”, segundo frida vega, sobrinha.

segundo o jornal espanhol el país, a cada 14 dias, desaparece um idioma

céu estrelado e sem nuvens, clima úmido e ameno no agreste pernambucano (…)

[a música] nasce no xamanismo para elevar a consciência, para levar a mente para o divino. há quem chame por divino, há quem chame de outra maneira (…) a música transmite vivências. se o instrutor dessa música viveu algo muito elevado, muito profundo, a música transmite isso muito melhor que as palavras c. naranjo

(…)

o pajé sentado na cadeira formava uma penumbra enfumaçada, possibilitando uma silhueta cinematográfica. nos dá as boas vindas e anuncia o início da cerimônia. éramos por volta de 40, entre crianças, jovens e adultos esparramados em colchonetes e lençóis. fomos convocados a beber o chá: “primeiro os homens, depois as mulheres”. olho para uma menina que se encontra ao meu lado, para a minha surpresa ela não esboça reação. aceno que não é a minha primeira vez, mas sim a primeira vez naquele ritual. fila indiana. a quantidade não é muita, apenas meio copo. espero a força da borracheira chegar. mas dessa vez veio leve, com mais sutileza. dá-se início ao voo xamânico da vez.

já estávamos todos de pé, em roda, braços entrelaçados, cantando e dançando em círculo. os cânticos eram puxados pelo xamã e repetidos em uníssono por nós, numa espécie de jogral. ainda em dança circular, tínhamos que seguir a coreografia dos mais experientes, que entre sorrisos e gargalhadas, se preocupavam em nos ensinar cada passo. o clima era muito agradável e juntos nos sentíamos muito mais fortes. os cânticos eram desconhecidos por mim, os textos, em sua maioria, não-pertencentes a um brasileiro alienígena como eu, que só sei lidar com o português e, no máximo, assumo um relacionamento frouxo com o inglês. difícil imergir na mesma sincronia. é muito arriscado querer ser o outro.

baetê, baetê, baetê, baetê
mia nui tauram
hoi,hoi,hoi, hoinandenam

ambareza hunu ini
hunu ana, baetê baetera, baetê
hoi, hoi, hoi, hoi, hoi

baetê, baetê, baetê, baetê
assim meus caboclos cantam
o amor e o bem querer

eu vou chamar os meus caboclos
pra cantar baetê, baetêra, baetê
hãn, hãn, hãn, hãn, hãn, hãn
hãn, hãn, hãn, hãn, hãn, hãn oh eee

baetê, baetê, baetê, baetê
luz que brilha no caminho
brilha em mim, brilha em você

uu vou chamar os meus caboclos
pra cantar baetê, baetêra, baetê
Hey, Hey, Hey, Hey, Hey, Hey
Hey, Hey, Hey, Hey, Hey, Hey, Hey oh
eeee

me encontro ajoelhado de frente pra ele como manda o figurino da cerimônia. o pajé olha nos meus olhos e dá um sorriso meio incompreensível, como se tentando uma comunicação mais leve, tirando uma onda. não entendi bem e retribuo com um sorriso mesmo assim. o aplicador se aproxima, meu coração acelera para além do normal. o sopro ancestral do rapé adentrou com força minhas vias nasais e lançou minha cabeça pra trás. num estalar de dedos, vi estrelas, galáxias, virei poeira cósmica. desliguei.

é de grande interesse poder mapear todos os principais elementos do corpo humano nas estrelas da nossa via láctea  jennifer johnson

leave the extraterrestrians in peace @nemoid321

a via láctea é denominada por “caminho dos pássaros” nas línguas turco-tártaras, que também lhe é conferida a passagem “que une o terrestre e o divino utilizado pelos pássaros em seu caminhar (sic) entre dois mundos” fonterrada

retomo a consciência ainda ajoelhado, tremendo e suando muito, tento levantar e percebo que não consigo. sento no chão e vomito muito. assim começa o processo de limpeza que deve ter durado por volta de uma hora. para quem crê, assim como a ayahuasca, o rapé é um aliado espiritual que tem como função ajudar as pessoas a compreenderem os ensinamentos da floresta. penso que o exercício de respeito à natureza e o desapego aos vícios antropocêntricos deveriam ser lições sugeridas em nossas escolas. eu começaria por aí.

salve meu pai oxóssi
salve meu pai oxalá
salve a força do rapé
que agora eu vou chamar

vem rapé, trazer a cura
sabedoria e o dom de amar

salve as forças da floresta
hoje a mata está em festa
e os caboclos vem de lá
vem trazendo as suas ervas
vem trazendo as suas rezas
pra na força do rapé nos ajudar

vem rapé, trazer a cura

(…)

o enjoo continuava, a força da raiz foi inesperada, permaneço a vomitar e penso que estava mesmo merecendo. um txai dança em minha volta e me encobre com uma fumaça espessa que parecia exalar de uma espécie de incenso, como se fazendo uma reza. apenas escuto os passos e a dança, não consigo abrir os olhos, nem quero. neste momento crio diversas imagens de indígenas de várias idades jogando futebol naquele espaço, meninas e meninos batendo bola em times misturados. escuto muito próximo do meu ouvido um sussurro:

“tá bom txai”

eis que melhoro num rompante. já não sinto mal estar. revigorado e aliviado, volto ao colchonete, me cubro e durmo o sono mais tranquilo.

(…)

fui acordado com um leve rufar de tambor, usado propositalmente para despertar os que permaneciam dormindo. estavam cantando e dançando, literalmente uma festa. a vibração era de renovação. cheguei junto, sentei ao lado da fogueira e ouvi canções de fogo, resistência e cura até o amanhecer…

Foto: Bruna Roazzi

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Nascido e criado em Olinda (PE), fez mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), membro do INCITI - Pesquisa e Inovação para as Cidades (UFPE), voluntário no movimento love.fútbol, fundador da Mi-Independente, colaborador no Outros Críticos e coletivo B U T U K A.

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