om #3 victor aya, o som e a consagração da natureza

estava estudando as culturas aborígenes e fiz o meu primeiro didjeridu com um amigo, aqui em casa mesmo. daí fui me interessando pelas histórias das culturas em relação aos instrumentos musicais e fui colecionando contos e mitologias que sempre remetem a uma coisa superior, mágica, ou a criação de alguma coisa. eu sinto que a música tem esse lado de transcendência, pois além de forma de expressão, é principalmente uma maneira diferente de você se comunicar consigo mesmo.

(…) não é o som que cura, ele permite que a pessoa se abra e se descubra. é como se fosse um mediador, um veículo em que você senta e vai guiando a si próprio. eu guio a experiência sonora, mas é a pessoa que comanda a experiência interior (…) é ela que vai lembrar do avô, do pai, quando eu introduzo um som de água, por exemplo.

o universo é uma construção singular na qual o todo determina cada uma das partes (…) se tentarmos analisar algo fora desse sistema, estaremos a analisar qualquer coisa ininteligível, uma vez que ser inteligível é ser exibido como parte do sistema. o nome deste sistema singular é deus ou natureza. não há, por isso, qualquer bem distinto da totalidade das coisas b. espinoza

quando eu fui morar em uma comunidade ecológica em guabiraba (recife), chamada bicho do mato, me identifiquei muito com a visão de mundo deles. me convidaram pra passar um tempo lá, cuidando de umas plantas, daí fui ficando e passei um ano. nesse lugar tinha muita gente de fora do país, era um intercâmbio cultural muito grande, pessoas que vinham para conhecer o espaço, as técnicas e fazer cursos. o pessoal tinha um lado espiritual-natural muito forte, o que me identifico bastante, pois faço parte da sociedade panteísta ayahuasca que crê na capacidade de consagração da natureza como uma coisa divina, ver a espiritualidade no que existe de natural.

_entrevistado
batismo victor dos anjos leão
nome victor aya
data de nascimento sete de agosto de mil novecentos e oitenta e cinco
local de nascimento hospital santa joana rua joaquim nabuco duzentos graças recife pernambuco
local de residência estrada de aldeia quilometro doze e meio número um um nove sete um
música agroecologia permacultura intuição espiritualidade

o alimento principal daquela agricultura molda também como aquela cultura vai lidar com a natureza, daí comecei a estudar as tradições de cultivo e passei a entrar em contato com os instrumentos musicais de cada contexto, porque eu me interessava tanto pela forma de cultivo como também pela musicalidade dos locais. foram a partir de vivências no bicho do mato que tive contato com músicos de várias partes do mundo, e o que mais me inspirou foi a etnia pré-incaica quéchua por conta da ayahuasca. a sociedade panteísta tem grande afinidade com a cultura andina e essa foi uma vertente que me impulsionou bastante, principalmente a partir das flautas. daí comecei a me interessar por flautas do mundo todo, mas principalmente as nativas americanas, que são geralmente pentatônicas, menores, e normalmente têm escalas mais intuitivas. comecei a me ver colecionando instrumentos, seja flauta, tambor, apito…

se você vai com uma proposta mais intuitiva fazendo uso dos instrumentos que tenho, por exemplo o didjeridu, um tambor de meditação ou uma flauta nativa, a música induz você a criar na hora. tem momento que eu perco porque não gravo, e não consigo fazer de novo. eu posso até tentar buscar aquela melodia, mas eu sinto que não é a mesma coisa, é outra situação. a flauta responde muito bem aos sentimentos (…) eu gosto dessa proposta intuitiva porque eu percebo que é um processo ativo e passivo ao mesmo tempo, estou produzindo e consumindo de forma simultânea.

[17/3 12:12] o.s.: la vai minha resposta, vinda do íntimo. ta curtinha mas é autêntica: “as vibrações sonoras ecoaram pelo corpo e nos colocou em sintonia vibratória com o cosmos…”

a intuição é um estado de atenção plena, mas de bastante sutileza. é uma sincronização de você com a sincronicidade, é um alinhamento com o momento presente, que é esse momento que estamos agora (…) e não é mais aquele que eu falei que era agora, é esse de agora e é o único que existe no universo. e nesse instante várias informações sutis são passadas do ambiente que se não estiver atento você perde. é um alinhamento da racionalidade com a emoção e o momento presente. a mente vai ao passado e ao futuro, as emoções podem ir junto com a mente, mas o corpo só existe aqui no presente.

(…)

estudando esses instrumentos musicais comecei a induzir meditações em retiros da sociedade panteísta da qual faço parte. daí o grupo de amigos desse círculo mais íntimo começou a sugerir que eu fizesse esse trabalho em outros lugares, com pessoas que não bebem a ayahuasca. decidi fazer e foi um sucesso, recebi feedbacks interessantes, que era muito o que meus amigos já relatavam a partir das experiências, mas eu achava que muito era por conta da ingestão do chá, mas não era (…) teve gente que se contorcia de dor, morria de rir, lembrava da infância, tinham também várias visões, rios, indígenas (…) eu sabia que era uma experiência bem forte, mas não tinha noção da dimensão dela sem a ayahuasca. depois eu entendi que o estado meditativo é quem induz a isso, e é o que faço antes de começar a tocar os instrumentos, conduzo a pessoa a perceber os sons do ambiente e o próprio corpo.

http://www.panhuasca.org.br

tem alguns instrumentos musicais que ressoam em partes específicas do corpo, por exemplo, o som viaja no ar a 340 m por segundo, na água a 2.000 m por segundo, já no osso é a 6.000 m por segundo. se você tocar um instrumento colado na pessoa, vai tremer o osso porque no sólido quanto mais próximo das moléculas o som propaga mais rápido, a depender da proporção de líquido de cada órgão. descobrir em qual frequência cada órgão ressoa é que é interessante (…) por exemplo, a pessoa está com um problema intestinal e eu sei que se colocar um instrumento naquela região vai ser emitida uma frequência para o fígado ressoar. existem relatos de pessoas que passaram por doenças como essa e melhoraram as suas condições.

comecei a bater na borda das tigelas, uma após outra, ao mesmo tempo em que entoava os mantras monossilábicos (…) eu podia sentir que ele estava um tanto apreensivo, fato perfeitamente compreensível, visto que para ele essa experiência era algo inédito (…) o efeito calmante do som, ao reverberar através e em torno dele, era visível na sua fisionomia, que deixou de expressar ansiedade e passou a transmitir a sensação de tranquilidade e aceitação. eu também podia ver sua energia se transformando quando ele começou a se recuperar do terrível pesadelo que havia consumido seus dias e noites dr. mitchell gaynor

é ecológico, natural, mas que não deixa de ser espiritual (…) espiritualidade pra mim é entrar em contato consigo mesmo e com a natureza em harmonia, isso para mim é a forma mais profunda. não significa falar com ancestrais, rezar (…) não estou julgando outras visões, mas eu consigo ver que não precisamos disso para termos um acesso a uma espiritualidade genuína e verdadeira sem ninguém lhe dizer nada sobre. é muito difícil ouvir uma criança falar de espírito e incorporação se os pais não tiverem falado sobre isso, mas ao se deparar com uma flor, a criança diz: “que linda, mamãe!”. e segura a flor que viu pela primeira vez e fica em uma atenção plena, inteira. sentimento, pensamento e corpo. como dizem que sócrates ficava duas horas olhando uma flor. a criança entende e ninguém consegue explicar direito, aquilo é espiritualidade em alto grau e é por conta disso que dizem: “isso é deus!”. na minha opinião esse sentimento é deus.

(…) e que me deu uma sensação de um relaxamento muito profundo e que também me possibilitou sentir a sensação de inteireza, eu me senti como se tivesse recolhendo pedacinhos de mim e que me fizeram muito bem… além de tudo, achei sua condução incrível, com relação a essa possibilidade de a gente ter essa escuta maior, relaxar e poder nesse silêncio interior através do som, a gente poder escutar não só os sons que estão na nossa volta, os sons da natureza, mas também os nossos próprios sons interiores.

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2017/03/22/interna_internacional,856422/unicef-uma-em-cada-4-criancas-vivera-com-escassez-de-agua-em-2040.shtml

estamos em um problema cultural grave. as grandes civilizações são formadas por três pilares: o econômico, o político, e o religioso/metafísico (não falo de espiritualidade). a parte metafísica é a que estrutura tudo e esse é o problema mais crítico, pois é o pilar que está manipulando um mundo cada vez mais pobre (…) pobre de tudo: pensamento, cultura, tolerância, recurso, preservação, respeito. é a religião que estrutura a cultura, que é quem define os moldes de operar a moral, no caso a política. o ser humano vai começar a perceber que o mundo é finito, que o planeta não está à serviço do ser humano, é tudo uma questão de harmonia. as religiões dizem que os animais, as águas, as plantas e as montanhas são feitas por deus ao ser humano, então eles servem para a humanidade usar, depredar. a falta de identificação de si mesmo como uma coisa honrada é também a religião que traz quando afirma: “você não é do mundo, você está aqui no mundo de castigo por conta de um pecado original”, com punição você não fica muito bem, né? “mas siga essa regrinha aqui que você vai voltar ao mundo sagrado, se merecer no dia do juízo final”.

a criança não entende aquilo, ela só repete, mas não compreende. se você fala que existe uma coisa que ela não vê, um deus superior que não se apresenta, um papai do céu invisível, mas que tem força pra controlar sua vida e morte, decidir tudo por você (…) e a criança ainda ter que criar uma relação de sentimento e de emoções com esse ser? (…) porque ela até pode criar afeto com uma faca, com um celular, mas com uma coisa que ela não vê? desse jeito você quebra a criança, ela entra em um colapso interno, vai ficar fugindo e acabará com o id, ego e o superego tripartido, despedaçado. é quase que uma esquizofrenia global. o problema é grande, muitas pessoas que não estão pensando por si mesmas, não têm respeito pelo próprio corpo, pelo próprio sentimento, que se acham desmerecidas e sem valor nenhum, pois quem tem valor é aquele “escolhido” (…) é ou não é uma esquizofrenia? “esquizo” significa quebrado, a mente da criança sai do ar. quando você tira um peixe da água e o coloca na gravidade zero, ele fica completamente desenraizado, não entende nada. e não sei se tem uma solução fácil, é um processo de quatro mil anos sendo construído, propagado, disseminado como um vírus (…) mas não vai levar o mesmo tempo pra se desfazer, não.

me trouxe um silêncio interior pra escutar tudo e se entregar, estar presente ali, sentindo sem querer raciocinar demais, isso eu acho muito válido na questão da espiritualidade, a gente aprender a não pensar demais pra poder receber as intuições, os sentimentos (…) receber as vontades que nosso coração está sentindo (…) também senti muito forte o chamado da terra através daqueles instrumentos ancestrais, tribais (…) senti o som da terra chamando pra estar perto dela.

a dualidade é uma invenção metafísica, o bem e o mal. o lado do mal sempre diz que é o bem, o lado do bem também. é o nós contra eles. o que é muito prejudicial (…) é diferente a polaridade, que é uma coisa complementar, a dualidade você faz uma ruptura, entre o que é você e o que não é você. entre o que é o seu corpo e o mundo espiritual, entre o físico e o espiritual. para mim não tem, é uma coisa só, tá junto. essa dualidade toda que é criada entre o partido vermelho e o partido amarelo, cada um tem sua bandeira, é proposital. e no final sempre tem uma guerra, isso está acontecendo no brasil. eles dividem o país em dois, bota um pra brigar com o outro e depois chega com um salvador, seja no lado a ou lado b. aí no caso agora tá faltando um salvador, mas já já ele aparece, pode esperar. na religião tem jesus, alá (…) na política é a mesma coisa, tá tudo planejado.

o esplendor da mata vai renascer
e o ar de novo vai ser natural
vai florir
cada grande cidade o mato vai cobrir
das ruínas um novo povo vai surgir
e vai cantar afinal
as pragas e as ervas daninhas
as armas e os homens de mal
vão desaparecer nas cinzas de um carnaval paulo césar pinheiro + joão nogueira

o pessoal está começando a ver que se depender de política e religião, não vai encher o bolso. vivemos uma economia falsária em que o dinheiro é de papel, dinheiro não se come, tem que botar a mão na terra pra você ver do que é feito. a gente não tem uma saída prática, cada um tem que fazer sua parte, na medida do possível. no meu ponto de vista a igreja é dentro de casa, no máximo amigos e familiares, um fórum muito íntimo, na praça pública é lugar de biblioteca e escola de filosofia, pra ensinar as pessoas a pensarem. infelizmente tá completamente ao contrário (…) e aí eu vejo o som e as músicas como uma ferramenta para conseguir trazer as pessoas a esse centro de si. quando você tem uma música libertária, ela te traz para o eixo, lhe faz preservar a vida, a natureza e os valores.

Foto de Capa: Victor Aya/Divulgação

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Nascido e criado em Olinda (PE), fez mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), membro do INCITI - Pesquisa e Inovação para as Cidades (UFPE), voluntário no movimento love.fútbol, fundador da Mi-Independente, colaborador no Outros Críticos e coletivo B U T U K A.

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