Óbvio transtornado

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O disco é produzido e conta com todas as músicas assinadas por Felipe Zenícola, Eduardo Manso, Thomas Harres e Negro Leo, com letras de Negro Leo e colaboração dos músicos Marcos Campello, Paulo Dantas sax alto, Arthur Lacerda e Alexander Zhemchuznikov. Gravado por Renato Godoy, Thomas Harres e Felipe Zenícola nos Estúdio Marini, Estúdio Massa, Audio Rebel e Rumori e arte da capa e final por Lucas Pires. Foto: Joaquim Castro

“Como procurar fendas numa sociedade que se tornou um programa de computador? Como desprogramar essa máquina?”, se pergunta Leonardo Gonçalves, o Negro Leo, em entrevista ao Canal Curta! Sobre seu novo disco, Niños Heroes. A Terra parece lenta demais para o computador. Enquanto a ebulição do “mistifório das velocidades sexuais” e das “velocidades rápidas cheias de nexos policiais” proliferam fenômenos e seres híbridos, que embaralham os polos de natureza e cultura e cronologias, a modernidade persiste em seu trabalho de purificação e categorização.

Negro Leo transtorna: traz a visão fragmentária, a confusão das imagens brutas desse tempo intempestivo do glifosato (herbicida tóxico usado pela multinacional Monsanto) e do krokodil (opiácio derivado da desomorfina, um sedativo 10 vezes mais forte que a morfina). É a política, economia, ciência, arte, religião, tecnologia, ecologia e ficção enquanto tudo, nada e meio.

Niños Heroes é o quinto álbum de Negro Leo, lançado em setembro deste ano pelo selo Quintavant/QTV. Acompanhado por Felipe Zenícola (do Chinese Cookie Poets no baixo), Eduardo Manso (do Bemônio na guitarra) e Thomas Harres (da Abayomy Afrobeat Orquestra na bateria), o tecladista, cantor e compositor articula sua linguagem com abordagens delirantes e nuances de nonsense e absurdo. Em 45 minutos, apresentam-se 22 faixas, saturadas e estouradas ao extremo, raramente passando dos três minutos (a maioria está mesmo abaixo dos dois minutos), lideradas pela voz rasgada de Leo gritando seus versos verborrágicos. São os estilhaços da grande explosão sensível-política-apocalíptica, ou, ainda, “um passeio pela terra pós-colapso dos sentidos”, nas palavras de Fred Coelho no texto de apresentação do disco.

Suas letras são explícita e claramente políticas (temas como fome, guerra, desajustados), mas também dentro de uma concepção política ressignificada e descontínua, longe de partidarismos e estruturalismos ideológicos ou mesmo proposições. “Soluções… Não há soluções! Mas os problemas precisam ser colocados”, afirma. O que está em jogo é uma recombinação de todas as temporalidades, que irrompe com violência despedaçada englobando “Bebês Fantasmas das Guerras Dormindo”, “Memória do Google”, “o teatro psicológico do noticiário policial”, “Valas Abjetas das Conformidades”, conveniências e conivências televisivas, “Satélites Ociosos”, “Turismo Sexual no Mandela”, cotações de commodities. Mais um Final de Semana da História. O disco pinta um enorme “mercado de expectativas”, como diz a faixa-título, no qual Deus e todos nós tomamos parte, querendo ou não, afinal também habitamos e inventamos o Mundo. E, em conjunto, falhamos: “A Grécia falhou com os desajustados/ O presidente falhou com os desajustados/ O governador falhou com os desajustados/ O prefeito falhou com os desajustados/ A religião falhou com os desajustados/ A filantropia falhou com os desajustados”.

O som, também ele, é desmembrado. As músicas são erguidas a partir da desconstrução (não confundir com destruição, mas sim uma desmontagem, decomposição, nos termos de Derrida) da máquina pop global. Após uma sessão de improviso em estúdio, os músicos levaram as gravações para casa e recortaram trechos para colocar melodia e letra. O resultado é uma quimera de rocks espaciais, sambas tortos, free jazz, noises e punk rock contorcidos nos labirintos furiosos de guitarras, baixos, pedais de distorção, sintetizadores, efeitos eletrônicos, teclados e berros de saxofone (estes por conta de Alexander Zhemchuznikov e Paulo Dantas). Um reflexo rachado de nós mesmos em que não nos reconhecemos. Cacofonia e saturação como constituintes da era da “simultaneidade técnica”, para usar o termo de Leo em sua resposta aos adornismos de Vladimir Safatle no texto “O fim da música”, publicado na Folha de S. Paulo.

Negro Leo, como poucos artistas, consegue captar e sentir esse zeitgeist de liquidez e incertezas. “na vala abjeta das conformidades” parece uma premonição do crime ambiental-tragédia anunciada da Samarco e Vale em Mariana, Minas Gerais: “O combustível cosmético-comestível-mixagem genética/ expectativa de vida/ de gente/ no Brasil/ é uma chance de calouro// Mirações bestiais, fins de eras/ intenet, afasia,/ mayday total da viagem/ Noite e dia. E a loucura raivosa de “oooh! baby” completa: “estado de natureza/ matar ou morrer/ a comida! acabou a comida!”.

Niños Heroes é o óbvio transtornado, desorientado, revirado às avessas em confusão, acaso, abstrações, aleatório, desordem, falhas. O nosso coração é uma cloaca. Assim passa a glória do mundo, sic transit gloria mundi.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #10 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Estudante de jornalismo, integrante do grupo de pesquisa LAMA (UFPE).

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