O que pode o corpo – Parte I

De tempos em tempos um antigo questionamento nos assombra (como os sons da casa à noite quando estamos sozinhos): de que forma podemos compreender o nosso tempo presente, com que ferramentas conceituais, que instrumentos podemos lançar mão para dar conta da complexidade de fenômenos que somados, costurados, entretecidos e sobrepostos compõem o que percebemos como nossa realidade?

Com essa intenção em mente, o exercício que proponho ao leitor nesse texto (dividido em duas partes) é livremente baseado no método de estudo do tempo histórico, descrito pelo pensador alemão Reinhart Koselleck, e convido a tentar aplicá-lo à algumas questões que foram tratadas com maior ou menor sucesso, pela filosofia.

Em seu livro Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos, Koselleck nos propõe entendermos a construção do objeto de pesquisa da história pela coordenação variável de nosso espaço de experiência (passado) com um horizonte de expectativa (futuro). É justamente “entre  a experiência e a expectativa, que constitui-se algo como um “tempo histórico”. [1] O objetivo do presente texto é tratar do plano de experiência sobre um conceito fundante do pensamento ocidental, a dicotomia corpo-mente.

Começo: o pensamento platônico-cristão

Olhando para nossa experiência passada percebemos que a história do pensamento ocidental é pontuada por uma profusão de dicotomias. Talvez uma das mais marcantes seja a que diz respeito da relação entre mundo das ideias (eidos) e mundo dos sentidos. Nessa teoria de Platão, as ideias são substâncias (entendendo por substância algo individual, irredutível, único, que se determina a si mesmo e se basta ontologicamente a si mesmo), não materiais, eternas e imutáveis, sendo assim o grau maior de realidade — em contraponto ao que vemos no mundo material, que é mutável, que nos chega através dos sentidos. É no eidos que se tem o conhecimento verdadeiro. A representação mais clara desse conceito está no mito da caverna. Nessa passagem da República, uma das mais clássicas da história da filosofia, o filósofo nos fala sobre pessoas que são acorrentadas desde o nascimento no interior de uma caverna, voltados sempre para uma parede iluminada por uma fogueira, que ilumina anteriormente um palco, onde estátuas de figuras humanas, vegetais e animais são manipuladas, como se estivessem representando a vida fora da caverna. Tudo que essas pessoas veem são as sombras das estátuas projetadas na parede.  Com o tempo, elas dão nomes às sombras, tentando dar sentido ao que se apresenta a seus olhos. Caso uma dessas pessoas saísse da caverna, após um período quando ficaria temporariamente ofuscado pela luz do sol, aos poucos entenderia a complexidade e riqueza dos seres como se apresentam, em comparação com a simplicidade de suas representações: as sombras. Nessa alegoria o mundo no qual vivemos, dos sentidos, é uma pálida representação do que existe no Eidos. Ao mesmo tempo Platão descrevia a alma (Psykhé) como preexistente ao corpo e a ele sobrevivente (habitante do mesmo Eidos), devendo assim ser  “o piloto do navio”, tendo a prerrogativa de guiar o corpo.

É importante notar que o próprio Platão em toda sua obra tenta superar as dificuldades de sua teoria, relacionando o mundo sensível (que nos chega através dos sentidos) e os inteligíveis presentes no eidos (entes matemáticos e formas), seja através de realidades intermediárias ou conceitos como Participação e Imitação.

Mas, considerações postas, podemos dizer que o estrago já estava feito. Pois é nos primeiros séculos da Era Comum que, através da apropriação do conceito do Mundo das Ideias, agora denominado como Reino dos Céus, os filósofos da Patrística refinam essa dicotomia: “é o corpo maligno, morto e terreno, que não persistirá, não é celeste”[2] . O cristianismo adota o platonismo para dar à doutrina cristã um status filosófico, necessário naquele momento para torná-la numa doutrina aceitável na época pelos intelectuais helenistas. Quais os impactos que esse fato têm nas nossas vidas? Em princípio nos leva ao entendimento de que o mundo sensível é sempre efêmero, mutável, enganoso e, em última instância, sujo. Devemos então, para chegar ao conhecimento adequado, evitar os impulsos, os afetos, as paixões que vem do corpo. Está estabelecida a divisão do corpo e da alma.

Dando um salto para o início da era moderna, Descartes, nos fala da separação total da mente e corpo. Nosso corpo (res extensa), seria uma materialidade externa, podendo ser compreendido pelas mesmas leis que usamos para analisar qualquer materialidade. Enquanto o que ele chama de matéria pensante (res cogitans), é a substância da alma. Sendo assim, ele atribuiu o estudo da mente à religião e à filosofia, e o estudo do corpo, como objeto da medicina (é importante notar que esse raciocínio foi fundamental para o progresso das ciências, em especial biológicas, inaugurando um discurso para independência da prática médica).

Mas foi um contemporâneo seu, filósofo Bento Espinosa, que levantou outra perspectiva para o dualismo de Descartes, afirmando que o pensamento e a extensão, embora distinguíveis, fazem parte da mesma substância, Deus ou natureza. Essa substância possui Modos do Pensamento que são a forma de pensamento de um certo estado do nosso corpo. É central para o entendimento de sua obra o conceito de Conatus, que é o desejo que todas as coisas que existem tem de manter-se em si mesmo, e realizam um esforço nesta direção. Nesse desejo o que nos dirige é nossa capacidade de produzir e receber afetos. “Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída”[3]

Daí vem uma das grandes perguntas acerca de Espinosa, formulada por Gilles Deleuze: O que pode o corpo? “O fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer”[4] Para o pensador, o corpo é definido por sua potência, seu conatus, e modulado pelos afetos que recebe, utiliza suas possibilidades ao máximo. Essa potência é o que define o corpo. Esse pensamento encontrou eco e influenciou outro grande filósofo: Friederich Nietzsche.

Em uma fala brilhante, filósofo Oswaldo Giacóia compara dois trechos de textos do cânone da filosofia ocidental: O Mundo Como Vontade e Representação, de Schopenhauer e Genealogia da Moral de Nietzsche[5]. Enquanto seu antigo mestre fala da necessidade de calar os sentidos, privar-se de todos os afetos, para atingir um pensamento puro, Nietzsche, em claro contraponto, nos diz: “guardemo-nos bem contra a antiga, perigosa fábula conceitual que estabelece um “puro sujeito do conhecimento, isento de vontade, alheio à dor e ao tempo, guardemo-nos dos tentáculos de conceitos contraditórios como ‘razão pura’, ‘espiritualidade absoluta’, ‘conhecimento em si’; — tudo isso pede que se imagine um olho que não pode absolutamente ser imaginado, um olho voltado para nenhuma direção, no qual as forças ativas e interpretativas, as que fazem com que ver seja ver-algo, devem estar imobilizadas, ausentes; exige-se do olho, portanto, algo absurdo e sem sentido. Existe apenas uma visão perspectiva, apenas um ‘conhecer’ perspectivo; dezoito e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso “conceito” dela, nossa “objetividade”. Mas eliminar a vontade inteiramente, suspender os afetos todos sem exceção, supondo que o conseguíssemos: como? — não seria castrar o intelecto?”[6]

A dicotomia atravessa a modernidade e é aplicada ao trabalho

Somos agentes no mundo por meio dos nossos corpos, com eles afetamos e somos afetados. Se nosso pensamento é parte intrínseca do nosso corpo, é preciso entender então como o pensamento é experimentado. O ato de pensar sempre se dá como fato subjetivo, que precisa ser “objetivado”, tornado em objeto, para que seu conteúdo seja explicitado. Não há um pensamento “desvinculado de alguma matéria a ser transformada”[7]. Para o filósofo-curtidor Joseph Dietzgen, conceber é um processo dialético de abstração onde “a experiência é absolutamente generalizada, ou a generalização absolutamente experimentada”[8]. Partindo desses pressupostos, o valor que damos ao trabalho intelectual deveria necessariamente ser o mesmo que é dado ao trabalho manual, por fazer parte de uma prática humana semelhante e em vários momentos diretamente relacionada.

Mas, principalmente com a revolução industrial e o surgimento do pensamento capitalista, não é isso que acontece. “A divisão do trabalho só se torna realmente divisão a partir do momento em que surge uma divisão entre trabalho material e espiritual”[9]. Justificado por uma necessidade  científica com o objetivo de alcançar um resultado tecnologicamente superior (representado pelo aumento de produtividade), a divisão social do trabalho capitalista hierárquico que, para além da simples divisão binária entre trabalho braçal e intelectual, vai até o detalhe da “concepção prévia do projeto antes de posto em movimento; a visualização das atividades de cada trabalhador antes que tenham efetivamente começado; a definição de cada função; o modo de sua execução e o tempo que consumirá; o controle e verificação do processo em curso uma vez começado; e a quota dos resultados após conclusão de cada fase do processo”[10] leva à conclusão que pois, além do salto de produtividade garantido por essa transformação na base técnica, o capitalista precisava deter o total controle sobre o processo produtivo, sendo assim, para Margolin[11] o sentido do parcelamento do trabalho produtivo é “(…) o único meio de o capitalista tornar o seu papel indispensável”.

O peso dessa divisão é diretamente sentido no Design, atividade que tem seu surgimento ligado diretamente à esse fato, inclusive considerando que para muitos autores o que define o produto de design é a presença de um projeto. É curioso notar que a fórmula da mudança, defendida pelo mesmo Joseph Dietzgen seja uma nova forma de organização social da produção. Na qual se realize a apropriação da ciência pelo proletariado: mãos e cérebros unidos dentro de uma mesma atividade. Apesar do que muito se alardeia nas redes sociais e revistas de tecnologia sobre uma nova indústria 4.0[12] estamos muito distantes de sua chegada.

[1] KOSELLECK, R. (1979) Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos, p.16.

[2] AGOSTINHO (1997). Comentário aos Salmos – salmos 51-100. São Paulo: Paulus, (col. “Patrística”, vol. 9/2)

[3] ESPINOSA, Baruch de (2015). Ética III, Def 3. São Paulo. Edusp

[4] ESPINOSA, Baruch de (2015). Ética III, Prop 2. São Paulo. Edusp

[5] O Poder dos Afetos < https://youtu.be/nyj_RIkm590 >. (Acesso em 07/03/2017)

[6] NIETZSCHE, F. (2008) p.68 ”Genealogia da Moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio: Paulo César de Souza.” São Paulo, Companhia de bolso.

[7] OSTROWER, Fayga. (2008). Criatividade: processos de criação. São Paulo: Vozes, 2008.

PAGOTTO,

[8] DIETZGEN, Joseph. (1975) La esencia del trabajo intelectual. Salamanca: Sígueme.

[9] MARX, K.; ENGELS, F. (2007) A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo,

[10] ROMERO, Daniel (2005). Marx e a Técnica: um estudo dos manuscritos de 1861-1863. São Paulo: Expressão Popular.

[11] MARGOLIN, Victor. “Design in History”. In: Design Issues, v. 25, n.2, 2009, p.94-105

[12] Industry 4.0  < https://www.wikiwand.com/en/Industry_4.0  >. (Acesso em 07/03/2017)

Foto de Capa: H.d. Mabuse

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Designer, artista visual e músico. Consultor em Design no C.E.S.A.R - Recife Center for Advanced Studies and Systems. Desenvolve estudos e projetos focados em colaboração, comportamento emergente e o remix de diversas línguas na área de artes visuais, design e música. Desde 2007, ele é membro do grupo Autômato. Ele é um dos fundadores do Re: combo, onde trabalhou de 2001 a 2008, período no qual teve projetos selecionados para exposição no Instituto Itaú Cultural, MAMAM, Walker Art Center e Centro Cultural Banco do Brasil. Ele também é consultor de designer no CESAR, onde desenvolve projetos com o conceito de design voltado para o usuário, focando em colaboração, design e sustentabilidade.

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