O que nos reserva ‘Ruivo em Sangue’

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O disco foi gravado entre as cidades de São Paulo e Lisboa e contou com as participações de Regis Damasceno, Dustan Gallas e Marcelo Cabral.

por Fernando Athayde.

Ruivo em Sangue, terceiro disco do produtor e compositor paulistano Gui Amabis, surge a partir de uma construção estética que alia de forma precisa a poesia à experimentação harmônica/melódica. A impressão após a primeira audição do novo trabalho de Amabis é que o músico parece ter alcançado uma linguagem singular na construção de suas composições. Se sua voz é um elemento onipresente e invariável, que usa sobretudo da palavra para mediar a dinâmica entre as canções, todo aspecto sonoro restante aparenta emergir de uma confluência de timbres e texturas alcançadas após anos de escuta e amadurecimento musical.

Na primeira faixa do disco, “Graxa e sal”, já é possível perceber como Amabis reúne sonoridades difusas para delinear o caminho sobre o qual caminham suas canções. Há dissonâncias e timbres que nos remetem, por exemplo, a alguma coisa que o T-Rex faria, deixando um pé no glam rock e fazendo uso de vários strings e solos de guitarra. Ao mesmo tempo, à medida que avança a canção, o compositor consegue gerar uma empostação vocal capaz de ressignificar as características da sua própria voz. Dessa forma, mesmo que alguém alegue (corretamente, diga-se passagem) que Gui Amabis não é exatamente um Frank Sinatra ou qualquer coisa do tipo, é inegável o controle e a noção do músico sobre seu timbre e extensão vocal.

Outra coisa que salta aos ouvidos em Ruivo em Sangue é o fato do disco soar cristalino, com cada elemento muito bem evidenciado dentro da mixagem. Os timbres alcançados soam equilibrados, sem que haja descompassos em relação aos volumes ou conflitos entre as frequências sonoras abrangidas pelo som dos instrumentos. Um sintoma disso é, ironicamente, a valorização do silêncio e das pausas ao longo da obra, algo que também demonstra a segurança do compositor ao trabalhar e inserir os arranjos nas músicas. Na faixa “Mistas Verdades”, por exemplo, Amabis empreende o uso constante do staccato para criar a atmosfera da canção, enquanto que em “Gathered Man”, a utilização pontual das cordas remete à sonoridade do álbum Fives Leaves Left, do britânico Nick Drake, o que é louvável até demais.

E, se do ponto de vista instrumental o disco é repleto de variações de dinâmica, algo que Amabis provavelmente assimilou de seu trabalho como compositor de trilhas sonoras, o mesmo não pode ser dito da sua voz. Quase monocórdico, o músico bendizer declama suas letras ao fornecer assim a identidade de Ruivo em Sangue. Aliás, mesmo sendo coeso do início ao fim, o trabalho de Amabis encontra nas letras seu aspecto mais interessante. Recursos de linguagem como, por exemplo, a antropomorfização dos personagens através da ruptura do tecido da realidade, são o espelho que distorce as particularidade da vida em sociedade. “Imagine o movimento seguro de um urso na violência inocente de um homem faminto/ Imagine toda destreza e astúcia de um tigre na fantasia difusa de uma fêmea no cio”, de “Mistas Verdades”, são versos que servem como um pequeno vislumbre do potencial criativo do compositor, que deve ter lido muito Kafka na vida.

Apesar disso, a sobriedade que caracteriza tão bem o trabalho também é responsável por transformá-lo numa obra de difícil audição. Mas não por sua complexidade estética, e sim pelo tom monocromático seguido pelas canções. Em alguns momentos, a impressão que fica é a de estar pisando num ambiente inteiramente controlado, onde o acaso parece ter sido suprimido ao máximo. Cada arranjo, cada acorde e cada timbre soam como se tivessem sido estudados minuciosamente. De certa forma, isso não é um problema, mas diante das infinitas possibilidades de manipulação do áudio, em que até o clima da sala do estúdio pode influenciar no resultado obtido, a espontaneidade é algo de grande valor.

Cerebral, Ruivo em Sangue soa como uma obra atormentada, pensada e repensada à exaustão, o que não deixa de ser interessante. E, mesmo que o controle exercido por Amabis sobre seu trabalho soe como algo que vai além do trivial, esse grau de determinação é, no mínimo, curioso para compreender o processo criativo do músico.

Assim, a impressão geral é a de que Gui Amabis é, sobretudo, um observador atento daquilo que está à sua volta – seja pela assimilação dos vários gêneros e sonoridades incorporadas à sua música, seja pelo tom literário aplicado às suas letras. Ruivo em Sangue é, afinal, uma obra que merece ser ouvida pela competência com que sintetiza o som e a palavra numa identidade sóbria e coesa.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #9 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa do site: José de Holanda

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Músico e jornalista. Edita o site Neurose.

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