O peso da palavra, do declamador ao cantor

A palavra na música de Lira é mais pesada que o som. Por peso, não quero dizer que o som seja de alguma forma negligenciado ou que só exista em função desta palavra deformada, transformada, desviada da rota, em suma, como poesia. Se as primeiras histórias sobre José Paes de Lira são todas carregadas pela força da oralidade, performance e muitas, muitas palavras deformadas com as quais acostumamos a nos assombrar diante da presença do extinto grupo Cordel do Fogo Encantado, do qual ele fez parte; hoje, a catarse que antes se impunha como presença e gestual está contida no lugar silencioso da canção. “Esses discos me refizeram como intérprete também. Deram-me um trabalho novo pra entoação das palavras e revelaram um compositor independente da presença no palco”.

A canção dos seus dois primeiros discos sob a assinatura Lira é transformada pela expansão que a sonoridade, harmonia, melodia, timbres, texturas oferecem ao texto que ele canta, muito mais como cantor do que como poeta. No entanto, enquanto o cantor é presença, o poeta parece transparecer entre algumas frestas do que chamamos letra de música. Cabeça, ouvidos, cabelos, olhos, lábios, dedos, corpo. São algumas das imagens que Lira evoca para cantar se dirigindo ao outro. Para o corpo a que se canta há sempre um desejo sobre o outro que devaneia. “(Ah) o que sobrou (do) amor? / (Vou) desamar”, da canção “Desamar”, em que coro e voz soam como lamentos que se aproximam. Os sons que permeiam o disco tratam de manter ambiências mais límpidas, por onde os versos de Lira transitam mais à vontade. “Sinto que faço hoje o meu maior mergulho no mundo da canção. Meus dois discos solos são obras cancioneiras, principalmente, num contexto histórico onde foi anunciado por críticos de música brasileira a morte da canção. Sei que não morreu porque não acredito na morte das coisas e sim na transformação”.

Composto quase sempre em parceria, com nomes como Pupillo, Vitor Araújo, Céu, Astronauta Pinguim, Junio Barreto, Bactéria e Guri Assis Brasil, as canções de O labirinto e o desmantelo aprofundam a relação de Lira com a forma canção, em quando se dá o encontro preciso entre letra, harmonia, melodia e ritmo. Não há relações de hierarquia tão claras como havia anteriormente em outras de suas músicas, sobretudo no período do Cordel do Fogo Encantado. A produção musical de Pupillo cria quase que um lugar de co-autoria estética para a música que Lira tem produzido desde que saiu do Cordel. Naturalmente, fruto de muitas conversas, troca de experiências, influências mútuas e certamente tensões criativas das mais diversas, as que envolvem a construção da identidade das canções e sonoridade de Lira nesses seus dois primeiros discos solo. Especificamente sobre esse último, os músicos convidados, muitas vezes também como arranjadores, se firmam com seus timbres e soluções criativas como sonoridade e, ao mesmo tempo, como quebras, desvios, surpresas. Assim, entre eles, destaco os violões de Guri Assis e Regis Damasceno, a guitarra de Neilton e a voz da cantora e compositora Céu. O disco ainda conta com Thiago França e vários dos co-autores das canções também tocando em algumas das faixas.

Por labirinto – a sonoridade do disco trata de deixar a voz de Lira pairando acima dos outros sons, sobretudo pelos arranjos pontuados a partir da produção de Pupillo. Com isso, cria uma textura coesa, clara, branca, por onde a voz pode mover-se com maior nitidez. Nenhuma palavra do compositor Lira se perde entre os sons desse labirinto. Essa característica torna a sonoridade como que imagética, pois arranjos e texto parecem estar sempre em diálogo, como se um desse o mote e outro corresse atrás dos vestígios impostos pelas palavras, até que no final os dois, texto e som, pudessem se encontrar no que um sugere e o outro contrapõe, mas sem nunca esses contrapontos se tornarem previsíveis para quem ouve as músicas. A canção-título “O labirinto e o desmantelo” é um belo exemplo desse jogo. O arranjo de violões, baixo e sintetizadores cria uma ambiência dramática que faz todo o sentido para quem ouve os versos: “Que lugar é esse labirinto/ desse nosso desmantelo”. A montagem da parte rítmica dos arranjos, mais comum para bateria ou percussão, é desenvolvida por Pupillo com stand-up drums, de forma mais concisa. Assistindo a uma apresentação ao vivo das canções do disco, vemos um outro baterista tocando de pé sem a presença de pratos, por exemplo, o que torna o arranjo mais seco e colabora com a textura mais homogênea presente nas canções. Já a presença dos sintetizadores e samples dão as nuances, os caminhos por onde os arranjos escapam, os que os diferenciam – o racional.

Por desmantelo – assim como a palavra se comporta quando sai do uso ordinário para o extraordinário da poesia, a música pode se desfazer de seu lugar-comum da percepção do público, crítica ou mesmo dos próprios músicos, no modo naturalizado como enxergam o universo da canção, muitas vezes demarcada por territórios, fronteiras, regionalismos. As canções de Lira se enxertam dos variados lugares que a canção brasileira contemporânea tem percorrido, mas cada pele espessa que sua poética absorve, pela própria sobreposição de camadas, acaba por criar um lugar que é também possibilidade de labirinto, não estrada única, reta, mesmo que estejam ali todos os caminhos que nos façam dizer: isto é uma canção. Mas sendo o lugar um ponto cego em labirinto, é preciso muito mais que palavras sobre canções para refletirmos sobre os processos criativos que materializaram as suas palavras cantadas em um produto, disco, show, fonograma, comércio, mercadorias e futuro, como ele também nos diria. Desperdiçar um tempo no labirinto não é o mesmo que caminhar. Mesmo assim o fazemos. “Receio entregar minha interpretação do título do disco porque tudo que escuto de quem não criou é mais potente e certeiro do que minha ideia primeira. Mas o labirinto nasce do pensamento, da ordenação, da criação e o desmantelo é o devaneio.” – o sonho.

Publicado originalmente na edição 177 da revista Continente, em setembro de 2015.

Foto de capa: Caroline Bittencourt

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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