Ó, Juliana Perdigão

Em “Depois Que o Nove Virou Seis”, uma das faixas principais de seu novo álbum, Ó (YB Music com patrocínio da Natura Musical), Juliana Perdigão delineia uma síntese de sua arte e de sua própria biografia. Como uma exaltação ao processo criativo contínuo e permanente, ela canta: “Tá tudo em mim, minha voz, meu canto/ Tá tudo bem aqui, o que é e o que era/ Tá tudo em mim, eu só não sei se é paz ou guerra”.

Mineira radicada há três anos em São Paulo, Perdigão trabalha em frentes artísticas variadas. Cantora e multi-instrumentista (clarineta, flauta, clarone e violão), lançou em 2012 o seu primeiro disco, intitulado Álbum Desconhecido. Como instrumentista, tocou na banda de apoio de Tulipa Ruiz e em grupos como Graveola e o Lixo Polifônico, Corta Jaca e Quatro na Roda, além de participar de trabalhos de Iara Rennó e Clima, entre outros. Ainda trabalhou como atriz no Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa.

Todas essas experiências se acumulam, conectam-se e se hibridizam em sua música – em um vídeo de apresentação de Ó, ela chega a comentar que “o teatro trouxe muito pra mim como cantora, que é estar sempre ‘falando’ as letras, pensando naquilo que está se dizendo e trazer pro corpo, de algum jeito encarnar o que está sendo dito”.  Perdigão trabalha, enfim, com uma ideia que evoca como uma “canção expandida”, dialogando conceitual e esteticamente com os contemporâneos Rodrigo Campos, Ava Rocha, Alessandra Leão, Kiko Dinucci, Negro Leo, Romulo Fróes e outros que reinventam o corpo cancional a partir da inserção de elementos incógnitas, incertos, exploratórios e arriscados em sua forma.

Mas enquanto o chamado “Clube da Encruza” (ou seja, os cruzamentos entre Metá Metá, Passo Torto e parceiros) expõe essa verve experimental em crônicas urbanas ásperas ou mesmo lúgubres, com toques de um realismo mágico sublimado, e Negro Leo o trabalhou com composições baseadas em improvisações livres radicais, Perdigão trilha um outro caminho. Une o Clube da Encruza ao Clube da Esquina, uma mistura que emerge ao longo de todo disco e vai sugerindo a mudança da musicista de Minas Gerais para São Paulo como o tema central que se reflete nas faixas do álbum.

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A banda é formada por Chicão (piano e teclados), Moita (guitarra e baixo) João Antunes (baixo, guitarra e violão) e Pedro Gongom (bateria e percussão). Projeto gráfico do disco: Cecília Lucchesi. Arte: Cinthia Marcelle, Mauro Restife e Juliana Perdigão. Gravado entre junho de 2015 e março de 2016.

Em entrevista ao jornal O Globo, ela pontuou esse choque entre os dois polos: “São Paulo estava no meu primeiro disco, mas, numericamente, ele trazia mais a cena de BH. Agora mergulhei mais fundo nisso. A turma do Clube da Encruza tem uma busca por uma certa aspereza, uma sonoridade ruidosa, com um acabamento menos esmerado do que a gente tem costume em Minas. A gente tem um lirismo, um astral meio telúrico. Em São Paulo é mais cru. O Romulo [Fróes, produtor de Ó] ficava zoando quando a gente queria fazer mais de um take: ‘lá vem a lâmpada mineira’” — “girar a lâmpada” é uma expressão que brinca com o perfeccionismo, como alguém girando a lâmpada indefinidamente para trocá-la.

Essa diversidade de elementos, concepções e motivos diversos que Ó carregam são por si interessantes. Contudo, os elementos soam tão bem conjugados como um todo no álbum, que, ao englobar muitas atmosferas poéticas e sonoras, tem sua tensão dramática enfraquecida. São 17 faixas (sendo duas vinhetas), dentro de um conjunto disperso, sem um fio condutor que dê lastro semântico à unidade.

Há momentos de um brilho singular, como o lamento de angústia cortante de “Crack Pra Ninar” (“Me dê a mão/ Eu vou cair além do chão”), composição de Kiko Dinucci interpretada aqui em uma versão crua com a voz límpida de Perdigão flutuando por cima dos destroços sônicos de sua própria clarineta e da guitarra ruidosa de Dinucci. O violão maníaco e hipnótico de Bicho Morto é desconcertante, como se recriando o clima e o universo sombrio de Jards Macalé e Itamar Assumpção. Mas o impacto dessas faixas é substancialmente retraído quando elas são colocadas no mesmo balaio de músicas pouco expressivas, excessivamente polidas ou até mesmo convencionais (no sentido ruim do termo), como “Vestida com Brisa pro Mar” (com Tulipa Ruiz), “Mãe da Lua” (com Ná Ozzetti) ou na caricata faixa-título. Enquanto algumas músicas agarram, gemem, tremem, choram e matam (como dizia o citado Macalé), outras soam cômodas, diluídas, placebo. Um equilíbrio mal resolvido, talvez.

Em comparação ao anterior Álbum Desconhecido, Juliana Perdigão e sua banda Os Kurva demonstram em Ó um amadurecimento (essa palavra tão banalizada na crítica cultural) de sua proposta sonora e, principalmente, poética. O trabalho ainda desliza na construção de um conjunto orgânico, mas, de toda forma, aponta as próximas rotas possíveis como um prisma luminoso. Nas fanfarras libertinas “Na Frente da Bandeira” e “Hino da Alcova Libertina”, Perdigão, “imoral como todos os meus contemporâneos”, traz o vendaval e “chuta a família mineira”. Num dos versos mais simplesmente geniais do rock brasileiro, Rita Lee dizia: dê-se ao luxo de estar sendo fútil. Nos últimos lances de Ó, Juliana parece seguir o conselho e abraça um espírito de diversão anárquico. É o momento em que sua voz soa mais vívida e rebelde.

Foto:  Mauro Restife

Publicado originalmente na ed. 12 da revista Outros Críticos.

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Estudante de jornalismo, integrante do grupo de pesquisa LAMA (UFPE).

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