no corpo na boca no ar

No último sábado, o festival No Ar Coquetel Molotov recebeu uma série de artistas e ações nos palcos e espaços montados no Caxangá Golf & Country Club, no Recife. O festival continua com novas atrações entre os dias 25 e 28 de outubro na cidade de Belo Jardim.

1. corpos cercados num território de invenção; como circo fábula ou ficção que chega a uma cidade pequena e altera a sua rota, o seu cotidiano ordinário. durante algumas horas, na passagem de uma tarde de algum sol – noite quente, chuvas esparsas –, uma maioria jovem carregada por suas micropolíticas estéticas ia se formando e se comunicando com o espaço, suas luzes e os primeiros sons que vinham dos palcos montados num horizonte ao alcance dos olhos e de suas escutas particulares. cada um dos corpos carregou durante aquelas horas um festival dentro do festival. é impossível contar cada uma daquelas histórias. escrever sobre música é saber lidar com os limites dessa presença, dessas ficções.

2. pequenas reinvenções do pop nas narrativas de giovani cidreira e seu modo particular de fazer canção.

3. a música da banda pernambucana kalouv tem encontrado na relação entre os sons do baixo, teclado(s) e do uso mais constante de vozes, um corpo mais tenso para os arranjos e sonoridade do grupo. cada vez mais um som que reverbera em mais partes do corpo; quase dança, outra dança.

4. um piano, aquarelas, rastros de processos e uma canção contínua se expandia na voz de arnaldo baptista; sua estante de discos, de livros, seus cadernos, quadros, lápis, tela, instrumentos musicais, memórias e reconstruções do tempo passavam diante do público – era possível traçar relações com sua trajetória no mutantes, sua formação artística. tudo estava exposto. ele nos contava seus segredos. expunha as suas feridas.

5. cortes curtos de kiko dinucci oscila entre violência e mais violência ainda. a voz poética é um corpo estranho que insiste em permanecer na pele. não há cura. lidar com a violência com mais violência transforma as narrativas expostas das letras – e seus timbres e arranjos estridentes na formação guitarra/baixo/bateria – num lugar possível de se habitar. ao vivo, breves contos, entre a dor de um corpo que pesa à dor de um corpo que nasce.

6. vozes de cor em quase uníssono espalhavam as letras e melodias da banda o terno. no entanto, aquelas histórias não me diziam nada. não havia palavra que pudesse me conectar àquela multidão que fazia do show um lugar de comunhão.

7. as muitas vozes, bocas de curumin, fizeram de sua apresentação uma pulsação que encontrava eco e dança no público presente. experimentando gêneros e ritmos diversos, os músicos faziam da sonoridade uma outra forma de dança, no diálogo entre essas vozes e o reconhecimento de que a canção brasileira pode sempre mais – ainda que lide com gêneros massivos, como o reggae ou o samba.

8. o terreno poético que alessandra leão cuidadosamente arou durante os lançamentos de seus três eps, fez do show no festival um momento de falar com a sua presença essas canções. como gesto artístico, esse corpo de canções ilumina muitas vozes e silêncios – a mulher, a linguagem; a potência de cantar com a sua própria voz. luta de uma vida inteira.

9. os palcos do festival se comunicavam de forma dispersa. a programação dos shows principais funcionaram bem, com a possibilidade de movimentação do público entre eles sem nenhum problema. o palco aeso foi crescendo a cada apresentação, com uma boa série de shows de artistas mais novos com artistas de público mais amplo, como no caso de romero ferro. no entanto, o som da rural ainda parece deslocado, o que não acontece, por exemplo, com o mesmo palco no festival de inverno de garanhuns.

10. a batalha da escadaria tem uma força própria, assim como o som na rural; os dois juntos preservam uma potência que não se limita a espaços ou programações que se agreguem a eles. são espaços de resistência e circulação. ao fim da batalha, os improvisadores foram se movimentando para ver rincon sapiencia – diálogos possíveis, ainda que em trânsito.

11. uma história possível, ainda que breve, de um festival de dentro, de rotas várias; inda bem, mais diversas, abrangentes;

12. música é cor.

Foto: Coquetel Molotov/Divulgação

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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