Nem só de experimentação vive o São Paulo Underground

 photo Satildeo-Paulo-Underground-3_zps45f9c5d0.jpg
Fotos: Paulo Borgia

por Marina Suassuna.

“Cada pessoa reage à música à sua maneira, e a sensação de deleite que ela provoca é única e intransferível”. A frase dita por Ruy Castro é mola propulsora para uma série de reflexões acerca do alcance gerado pela música. Uma delas é que a sensação de deleite pode estar relacionada à identificação imediata do ouvinte com particularidades de um gênero o qual se aprecia. Ou mesmo com estados e sentimentos transmitidos por uma obra de forma singular. No caso do som produzido pela banda instrumental São Paulo Underground, a sensação de deleite, ainda que pessoal, está condicionada à natureza intrínseca do grupo.

Contrapontos sonoros, mudanças bruscas de dinâmica – como se os integrantes estivessem entregues a um exercício jazzístico, suscetíveis a improvisos – são aspectos fundamentais para se entender a essência do SPU e, por isso, indissociáveis à fruição de sua obra. Além disso, o foco geralmente está menos nas melodias do que nos instrumentos, que nem sempre sincronizados, destoam de métricas comuns e composições bem marcadas. Toda essa “desorientação” e falta de regras peculiares ao jazz, math-rock, noise, post-rock – estilos que se atrevem a experimentar –, embora tornem a audição do SPU inacessível para ouvidos mais conservadores, acostumados com andamentos sonoros mais estruturados e previsíveis, são justamente o que os ouvidos mais calejados irão apreciar. No entanto, esses mesmos ouvidos irão reconhecer, ao escutar o quarto disco da banda, Beija Flors Velho e Sujo (2013), que nem só de experimentos vive o grupo formado por Mauricio Takara (percussão, bateria, cavaquinho e efeitos eletrônicos) Guilherme Granado (teclados, sintetizadores e samplers) e Rob Mazurek (corneta, harmonium e modulator). O novo trabalho traz momentos menos abstratos e mais consistentes, de fácil assimilação se comparado aos álbuns anteriores do trio. O que não significa abrir mão da essência subjetiva e instável. Com explosões mais contidas, o disco oscila entre improvisação e composição, muitas vezes confundindo esse limite e propondo linhas melódicas mais duradouras, grande parte delas protagonizadas pela corneta furiosa de Mazurek. É o caso de “Ol’ Dirty Hummingbird” e “Into The Rising Sun”, sendo esta última a faixa mais sólida do repertório, mantendo instrumentos e melodias alinhados do início ao fim.

Não há uma intenção clara por parte do trio de tornar-se mais acessível neste trabalho. Mas o que se percebe, de fato, é que há uma abertura a novas possibilidades de manipulação sonora, o que gera naturalmente uma aproximação com ouvintes ainda não cativos. No release assinado por Mazurek, o próprio músico aponta para a importância de uma renovação e sintetiza a motivação do novo álbum: “O som precisa ser dividido, quebrado, batido, acariciado, beijado, afundado, enterrado e catapultado para novas dimensões, de modo que inicie um diálogo entre universos”. Eis aí a chave para compreender o que norteia o repertório. “Arnus Nusar”, com quase 8 minutos de duração, é a única faixa que atinge a exaustão, dialogando de maneira ininterrupta com o clássico norte-americano “Over the rainbow”, cuja versão gravada ao vivo num clube em Granada, Espanha, traz a parceria de uma pianista clássica não identificada. No meio de tudo isso encontra-se “Evetch”, uma irônica homenagem a Ivete Sangalo com timbres de fanfarras. Os estímulos tropicais também podem ser notados em “Basilio’s Crazy Wedding song”, – que traz ecos do candomblé – e em “Taking Back The Sea Is No Easy Task”, em que o trio cita claramente “Suíte do Pescador”, de Dorival Caymmi. “Six-Handed Casio” é a mais esquizofrênica do disco, fazendo jus à rotina caótica da metrópole que batiza o trio.

Não restam dúvidas de que a vontade de continuar se renovando sem largar as raízes da banda foi o oxigênio de Beija Flors Velho e Sujo. Uma prova de que o trio jamais se tornou refém do que iniciou no passado.

Publicado originalmente em maio de 2014, na 3ª edição da revista Outros Críticos.

Share Button

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.