Nada de novo sob o sol

por Karol Pacheco.

Há rumores de um Recife do século XXI nas instituições. Eles nascem a partir de uma ideia de “cluster de cultura e entretenimento”, que consiste em aglomerar uma série de empreendimentos do mesmo setor em determinada área geográfica. A revitalização, além da especulação imobiliária e da verticalização em plena área histórica, passa ainda pela reconstrução de edifícios antigos por fundações culturais de bancos ou holdings privadas. Quando a ruína vira interesse, o conluio poder público e poder privado funciona com perfeição, e é tempo que os desavisados, que por lá possam estar, sigam outro rumo.

“O importante é que nós fizemos. O importante é que a gente possa falar de quem pensou assim. Ninguém imaginava que ia ser desse jeito. A gente tinha um desejo de fazer uma homenagem a tudo isso”, regozijou o então Governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Este discurso comemorativo de inauguração do Museu Cais do Sertão bem que poderia ter sido proferido em 1915, quando da apresentação do Teatro do Parque, que hoje só pode contabilizar o seu tempo de interrupção. Em vez das sessões de cinema, teatro, exposições e ainda um jardim, estão em cartaz no equipamento cultural público o mofo, rachaduras, infiltrações e cupins. “Toda era tem o seu monumento. O monumento da era Eduardo Campos é o Cais do Sertão”, regurgitou o então Secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Márcio Steffani. Esse recorte, embora pareça mais ficção, apresenta uma dinâmica real: toda essa cortação de fita estupra o espaço-tempo.

MODOS DE USAR RUÍNAS

 photo p1010745_zpsceurne8m.jpg
Foto: Recife Resiste

I

“Pessoas entravam para defecar; estava imundo”, lembra Edson do Nascimento. Desembarcados de um ônibus fretado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, mais de 150 famílias invadiram o prédio do antigo Cine Trianon, na Avenida Guararapes. Abandonado, o Edifício Trianon, que apenas servia, um dia por ano, no Sábado de Zé Pereira, como camarote do desfile do Galo da Madrugada, foi ocupado e transformado em moradia, cineclube e biblioteca. Pouco tempo depois, desalojado por ordem judicial e vendido ao Grupo Ser Educacional. Outro prédio, adquirido pela mesma holding, o Ed. Sigismundo Cabral, onde funcionava o Bar Savoy, um dos principais redutos de intelectuais, músicos e escritores no Recife do século passado, também será revitalizado com uma prevista construção de dois memoriais.

II

Não há luz no fim do túnel da Abolição. Pelo contrário, as complicações decorrentes das obras, inacabadas, da área prejudicam o acesso ao Museu da Abolição, na Madalena, eleito patrimônio histórico de Pernambuco. Criado em 1957 e inaugurado oficialmente em 1983, considerado por muitos como Centro de Referência da Cultura Afro-brasileira, um dos poucos equipamentos culturais que revisita a trajetória do negro brasileiro padece com cada vezes menos visitantes. As calçadas desniveladas dificultam a acessibilidade para deficientes visuais, cadeirantes e idosos, enquanto a iluminação pública, retirada para a execução da obra (mais uma intervenção em área histórica do Recife sem a aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, que posteriormente autorizou a operação), espantam transeuntes que poderiam ser visitantes em potencial, mas que se esquivam pela falta de segurança. Os caminhões que transportam as obras de arte também não conseguem mais ter acesso ao equipamento público.

III

As ruínas causam ora repúdio ora fascínio – a depender da concepção de mundo de cada contemplador, amparada por suas convicções que dizem respeito ao certo e ao errado, ao limpo e ao sujo, ao fértil e ao estéril. A dualidade verborrágica To be (estado-ação), complementada pela física da Terceira Lei de Newton (ação-reação), desexplica a performance de Wolder Wallace, em 2008, durante uma das edições do Olinda Arte em Toda a Parte – a negação do que se tem certeza é uma robusta ruína humana. “Entrei numa casa abandonada no Sítio Histórico de Olinda. Tinha gazes cobrindo meu rosto e só usava uma cueca. A proposta era ficar parado e em silêncio, mas entraram outros dois maloqueiros e eu fiquei bolado. Meus ouvidos iam acompanhando o trajeto deles pelo imóvel, entre as ruínas”, explicou Wolder, com outras palavras, a sua performance Trancado, sem rosto e atirando bombas.

IV

Cada ruína é importante como reflexo de uma sociedade de escolhas e efemérides. Uma região devastada por uma ofensiva israelense, na Faixa de Gaza, foi cenário do Karama-Gaza Human Rights Film Festival, entre os dias 12 e 14 de maio deste ano. Em meio aos destroços, junto às casas destruídas do distrito de Shujaiyeh, tratores passaram para dar vez a um tapete vermelho, que posteriormente serviu de passarela para os palestinos, sem salto alto, que compareceram à estreia. Mais de 20 filmes com a temática de direitos humanos foram exibidos num telão montado em uma parede de uma das casas. “Foi nossa maneira de dizer que cada um deles é importante”, disse o organizador Saud Abu Ramadan. No terreno baldio, os caminhos não têm tapete vermelho, são acenos de caminhos. São mil. Pode ser por aqui. A luz amarela do dia cai desmantelada sobre os escombros. Entre poeiras, o verde da natureza devora a pedra. A honestidade dos parafusos espalhados e das paredes pichadas dão o mote para a instauração do sentido. Alguém desprezado entre os tempos, tal como a própria ruína, dormindo – a metafísica do refúgio. A dialética da contemplação.

V

A invisibilidade de uma ruína, onde tudo é permitido, foi o lugar certo para fazer transbordar a transgressão dionisíaca do Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez. Num espaço abandonado, no Nascedouro, antigo Matadouro, de Peixinhos, bairro periférico de Olinda, o grupo montou um teatro/instalação (chamado de Teatro de Estádio) com capacidade para duas mil pessoas, abrigando uma estrutura de duas toneladas de equipamento de som, 150 refletores, telões, dez projetores de vídeo e tendas de camarins. À frente, Dionísio, desembarcando de seu carro naval: os deuses chegavam a Peixinhos. Nada resistiu, nem as pedras, nem o puritanismo, nem o moralismo, nem a vergonha. Na ruína e na arte é proibido proibir.

VI

No começo da década de 1970, no bairro da Várzea, o artista plástico Francisco Brennand – a quem Ana Luiza Andrade, pós-doutora em literatura luso-brasileira e hispano-americana, considera como “ruinólogo, ou alguém que constrói sobre ruínas” – debruçou seu ateliê sobre uma fábrica de cerâmica, construída sobre as ruínas da usina e esta sobre as de um antigo engenho. “Quando eu cheguei aqui em 1971, a impressão que me dava era de uma fábrica bombardeada mais do que uma fábrica em ruínas”, contou no vídeo Brennand, o Demiurgo: 1917-1971. Quem sabe se não teria sido exatamente a ruína o fator preponderante para que Brennand resolvesse restaurá-la? “Se eu tivesse encontrado uma fábrica próspera, refeita, talvez não seduzisse; era a ruína que me seduzia”, admitiu o artista. O fascínio de Brennand pelas ruínas: “sedições de contrários, ambivalências, um só mundo de realidades e mitos, sem excluir o mundo abissal que deve espreitar de perto essa carnagem repleta de soberba e luxúria”.

VII

O maior “crime artístico” do século passado? No Word Trade Center, a arriscada travessia do equilibrista Philippe Petit, em 1974, entre as Torres Gêmeas de 110 andares, em Manhattan. No centro do Recife, as manifestações artísticas locais também resistem aos cimentos, cerâmicas, mármores e espelhos estéreis do Novo apocalipse Recife. Em skyline de Arthur Bolitreau, no 3º andar do Edifício Texas (piso descaracterizado, músculos da parede à vista, escada sinistra, de uma belezura convulsiva), o miolo do bairro da Boa Vista é (re)desenhado. Entretanto, sem as Torres Gêmeas, embriãs de um Recife sem passado.

“A beleza será convulsiva ou não será”

O encerramento do romance Nadja, escrito por André Breton em 1928, complementa, neste jato de luz sobre as ruínas em contemplação, o fenômeno reforçado por Itamar Assumpção, no início da música “Prezadíssimos Ouvintes”, do álbum Sampa Midnight (1986), nos versos de Paulo Leminski: “O novo não me choca mais. Nada de novo sob o sol. O que existe é o mesmo ovo de sempre, chocando o mesmo novo”.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Share Button

Jornalista e repórter da revista Outros Críticos. Diretora da Fundação de Cultura de Camaragibe. Roteirista e performer.

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *