Mitos e hipóteses sobre filmes de um centro periférico

Nos últimos 20 anos, entre Baile perfumado (1996) e Aquarius (2016), diferentes teorias têm surgido para tentar explicar o êxito do cinema pernambucano nos maiores festivais de cinema nacionais e internacionais. Mesmo que os filmes produzidos no estado ainda não tenham alcançado um sucesso absoluto nas bilheterias, é inegável a contribuição estética e a originalidade das obras, respaldas pela crítica e provocadoras de discussões para além do campo artístico. Nenhuma das hipóteses levantadas, no entanto, conseguiu identificar precisamente as razões que levaram à consolidação dessa produção cinematográfica. As teorias, em geral, não servem porque também se aplicariam a outros estados com condições semelhantes. O caso de Pernambuco, na verdade, é resultado da soma entre todas elas em combinação com o contexto cultural local. Como sugere o pesquisador Paulo Cunha no prefácio do livro Direções (2016), de Alice Gouveia, foi todo um “ecossistema” favorável que propiciou essas conquistas.

Novas tecnologias

Apesar de filmes como Baile Perfumado (1996), Amarelo Manga (2002) e Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) terem sido filmados em película, as tecnologias digitais foram fundamentais para a formação do ambiente de criação com resultados mais sólidos. Até a década de 1990, fazer cinema no Brasil era caro demais por causa dos custos da produção em 35 milímetros. As novas câmeras de vídeo (com qualidade de imagem cada vez melhor) e os softwares de edição e finalização permitiram que os realizadores pudessem concretizar suas ideias. Novos cineastas só conseguiram produzir algumas de suas obras mais premiadas graças às democráticas facilidades proporcionadas pelos novos e mais acessíveis equipamentos eletrônicos, disponíveis obviamente não só em Pernambuco (o que reforça a tese de que a força desses artistas está nas ideias).

Apoios governamentais

O patrocínio estatal tem sido importante para a viabilização de diversos filmes pernambucanos premiados. Nem todos, contudo, receberam esse tipo de apoio, principalmente entre os curtas-metragens. Outros usaram as verbas para garantir uma estrutura mínima para as filmagens e conseguiram realizar longas-metragens com orçamentos de curtas, como foi o caso de Amigos de risco (2007), de Daniel Bandeira, e Um lugar ao sol (2009), de Gabriel Mascaro. A questão também não está apenas na liberação das verbas pelo estado, mas também pela forma como esse investimento é feito. A criação e o aprimoramento do Funcultura, que se tornou cada vez mais transparente ao longos dos anos, tornou-se um exemplo que já começou a ser seguido por outros governos. Entretanto, os demais estados que passaram a investir mais em cinema não alcançaram o mesmo resultado. Um exemplo é o Distrito Federal, que já oferece verbas igualmente volumosas por meio de um edital semelhante, mas cujos filmes não conseguem destacar-se tão bem. Não é uma questão, portanto, meramente de apoio governamental. Foi o talento dos artistas que gerou esse apoio e não o contrário.

Especificidades do ambiente cultural recifense

Uma das características que fez a música do Recife ganhar mais projeção nacional a partir da década de 1990 foi a busca das bandas por estilos próprios. Grupos que seguiam gêneros musicais praticados em outras cidades do Brasil e do mundo não se destacaram. Nomes como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Mombojó, Cordel do Fogo Encantado e Otto ficaram conhecidos porque criaram novas formas de compor e tocar sem estarem presos a padrões ou procedimentos já conhecidos. Pode-se afirmar que a mesma lógica funcionou no cinema produzido nos últimos 20 anos.

No início do século XX, Recife era vanguarda em diferentes linguagens artísticas e sediava um movimento modernista espontâneo e simultâneo ao que se viu na Semana de Arte Moderna de 1922, inclusive com uma fértil produção cinematográfica especificamente na década de 20. Era uma cidade portuária, estrategicamente posicionada na entrada para o Brasil, que recebia um intenso trânsito de transeuntes e imigrantes da Europa e de outros continentes, responsáveis por um inevitável intercâmbio também no campo cultural. Ocorre que, aos poucos, a cidade perdeu poder econômico para as capitais do Sudeste, que cresceram com a industrialização associada à produção de café. A desigualdade, entretanto, não afetou os cérebros e nem a imaginação dos artistas sediados no Recife, que continuaram a criar. Como o cinema sempre foi uma arte que exigia uma estrutura financeira mais robusta, foi só a partir dos anos 2000 que as ideias dos cineastas locais puderam começar a efetivamente voltar a sair do papel, graças às tecnologias digitais e à melhor distribuição de recursos federais para a cultura pelas regiões do país.

O posicionamento geográfico do Recife é estratégico também porque a metrópole é uma espécie de centro periférico, localizada no meio do Nordeste, não tão isolada como Fortaleza e nem tão perto do Sudeste como Salvador. A distância dos grandes centros, ao mesmo tempo em que dificulta alguns procedimentos (como a busca por patrocínios das maiores empresas), favorece uma independência criativa que se fortaleceu quando os artistas decidiram migrar menos para São Paulo e Rio de Janeiro e passar a produzir mais na própria região.

Ser uma capital relativamente menor também favorece o encontro entre artistas de diferentes áreas, que convivem nos mesmos ambientes (como bares, festas e espaços culturais) e trocam influências entre si. Isso estimula o intercâmbio entre as linguagens e gera mais originalidade. Além disso, por não ser tão vasta, a oferta de opções culturais é absorvida com mais intensidade. É mais fácil um filme virar um acontecimento no Recife e marcar a vida das pessoas coletivamente do que em cidades com uma programação artística mais numerosa. Festivais e salas de cinema, por exemplo, transformam-se em ambientes de erupção, estímulo e inspiração, não só de apresentação de obras para uma plateia passiva, já que o espectador comporta-se como criador.

A ausência de um forte mercado é um problema porque obriga todos a sobreviverem com dificuldades financeiras, mas ao mesmo tempo gera uma informalidade que se reverte em liberdade criativa. Apesar de ser um desconforto, a situação de desfavorecimento econômico leva os artistas a investirem mais energia na produção para gerar resultados mais altos a partir de recursos muitas vezes mínimos.

Apesar de ser fácil interpretar como “bairrismo” a celebração da produção cinematográfica pernambucana, é preciso reconhecer que o estado também tem um senso crítico exigente, manifestado, por exemplo, nas diferenças estéticas entre os próprios cineastas, que muitas vezes até confundem-se com confrontos geracionais. O êxito dos filmes é um fato, principalmente em comparação com outros locais onde a produção é mais numerosa e os resultados de reconhecimento são menores. A expressão “cinema pernambucano” chega a ser evitada em alguns meios diante do risco da banalização, até porque a pluralidade de estilo das obras está longe de uma uniformização. Os conteúdos e os artistas envolvidos, além disso, não estão restritos ao local de nascimento ou demarcações geográficas. Deve-se buscar um equilíbrio entre reafirmar e negar a assinatura estadual.

Imagem: Superbarroco, de Renata Pinheiro.

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Dirigiu os premiados curta-metragens História Natural (DCP, ficção, 2014) e Deixem Diana em Paz (35mm, animação, 2013), selecionados para mais de 50 festivais, incluindo os de Brasília, Gramado e Clermont-Ferrand, entre outras mostras de cinema nacionais e internacionais. Atualmente é jornalista do Diario de Pernambuco, repórter, redator e crítico de arte, com experiência em coberturas no Brasil e no exterior. Atua como funcionário contratado da empresa desde fevereiro de 2003. Finalista do Prêmio Imprensa Embratel 2007, na categoria nacional Jornalismo Cultural, e no Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo em 2014. Atualmente é também curador do festival de cinema de animação Animage. Como crítico e repórter, colaborou também para revistas como Outros Críticos, Coquetel Molotov, Billboard, Noize, Continente e DasArtes.

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