micronarrativas dos sons lá fora

“a arte é o que resiste, ainda que não seja a única coisa que resiste”.
(“o que é o ato de criação?”, giles deleuze)

primeiro movimento

— eu não gostaria de catalogar os artistas em “música política”, “canção crítica” ou mesmo me pôr num “tribunal” da crítica pra limitar e colocá-los sobre a mesma seara. mas em síntese, eu penso que há artistas que seguem uma linha reta (“evolutiva?”) na música brasileira, reproduzindo esteticamente via “imitação” – mesmo com algum rigor e experimentalismo – os caminhos já bastante delineados pelos principais compositores dos gêneros e movimentos canônicos da música brasileira. já há artistas que estão nos desvios, deslocamentos, nas “linhas de tensão”, pra usar uma expressão que romulo fróes citou (numa entrevista anterior a mim)… nesses desvios – que variam de artista pra artista (mas há alguns entrelaçamentos, “clube da encruza”[1] é um deles) – o estético-político me parece um espaço de fricção importante.

 

— aí entra a “crítica como processo”, que (pode) se cruza(r) com a noção de “escritura”, de walter benjamin (“nesse sentido, a obra de benjamin problematiza as fronteiras entre a escrita dita científica, teórica e prosaica e, por outro lado, a escritura fragmentada, opaca, ruinosa que caracteriza tradicionalmente o universo poético”[2].) e quer na relação com as canções e artistas um espaço de “entrecrítica”, como você fez/escreveu com/sobre siba/rodrigo campos, ou numa “crítica-escritura”, “crítica-política”, (como venho me referindo), distante do lugar de “juiz”, mas ainda sim, crítico.

 

— a questão é: o que esses desvios querem dizer? o que eles significam? como “cartografar” esses “desvios”? uma música “política” necessita também de uma crítica “política”? como “fundamentar teoricamente” sobre o tema sem cair nas conceituações que fechem “essa música” num espaço restritivo?

 

segundo movimento

  1. é ruidosa. fratura o tempo em muitas camadas. não quer ser nova, vanguarda ou moderna, deliberadamente. é de agora há pouco. canta os mortos, os desaparecidos, os pixos, as ruínas, os corpos, as ruas. é amarga e violenta a escuridão do tempo presente: música contemporânea brasileira, seus desvios, sua narrativa devir.
  2. atos de resistência, meu samba, poética: caixa de fósforo, dedos, mãos sobre cordas: palavra, falação, golpe de vista.
  3. sambador é uma outra linha de invenção numa poética que culmina agora em canções o que anteriormente o corpo falava com maior intensidade. sua expressão artística está continuamente em movimento: música, dança, tecnologias, máscaras, grupos, bandas; solo. os gêneros musicais, instrumentação, arranjos e letras se entrelaçam, ou se comunicam, como brincadeiras.
  4. um novelo, levaguiã terê.
  5. o corpo estava em pleno repouso, no sexto andar do edifício que se chama pernambuco, no centro da cidade do recife. os instrumentos eram acústicos. não havia amplificação artificial dos sons. a eletricidade dos corpos, somente. era a música aberta de areia, a melodia narrativa de juliano holanda, o diálogo equidistante entre o bandolim de rafael marques e o acordeon de júlio cesar e entre todos esses lugares, sobre nós e a cidade, a voz dela. vestuário é onde ela agora repousa. sua voz-labirinto faz dos timbres e arranjos um lugar possível para todos sons que queiram se perder.
  6. a música distende a sua dimensão política e faz desse nebuloso tempo o seu lugar contemporâneo. uma música dos anos 1930 pode ser tão contemporânea quanto uma dos anos 2010. como uma música lançada neste nosso 2016 pode ser tão panfletária quanto qualquer canção de protesto pedagógica dos anos 1960. o que não significa que a arte política no período da ditadura militar seja necessariamente panfletária. “baby, baby, i love you” foi uma puta sacanagem, nos conta tom zé, os militares não enxergavam política nela, nem a esquerda, direita, “leia na minha camisa”.
  7. conheci o compositor tardiamente, na voz de ava rocha; isso diz mais sobre a minha incapacidade de me mover para além das minhas limitações para enxergar o outro. a sua dicção, seu modo de projetar na voz palavras desajustadas, com métrica irregular, desnorteada, como torrente de imagens e narrativas, numa escrita-de-canção improvisada. mas essa água batizada é de outra correnteza. menos turva, mais límpida. temos nela a canção e sua dobra. o pop e sua dobra. é possível cantar, querer cantar nas dobras das canções.
  8. “butterfly” é uma peça que chacoalha e dança, faz dançar. estranha, nessa língua, desconcerta, com seu sotaque, expande esse ser-sambador para muitos outros lugares.
  9. ele assombrou os seus fantasmas. desterrou-os. fez do novelo sua estética em processo, sua ave, que voa voa, em muitas direções. sem terra aonde pisar, decerto, de geografia incerta, mas com asas fortes. ali, lobos, rádio cabeça, memória em distorção. vozes tomam o silêncio para recriá-lo épico. o profano e o sagrado estão aqui desnudados. a/b era um movimento de risco; esse novo pássaro que ouço agora é mais do que um animal que voa; perigoso, ele é o que virá.
  10. “um samba que fale das coisas do mundo”. um samba se expande como sonoridade e se firma por abrir os caminhos para a música que desloca os lugares habituais de um gênero musical; que fale de uma voz que assume um lugar de artista político, engendrando temáticas, falares, desvirtuando o verbo; das coisas porque cabe maria de vila matilde, oxum, jesus, ele-mesmo-autor, seu ponto de vista, sua máscara; do mundo já que o samba é só o mote para as histórias, suas canções, seus quintais, ruas dos bairros, campinhos, periferias, memória.

 

terceiro movimento

— a canção política não é necessariamente uma canção que aborda a política institucional nem assume uma postura no âmbito do debate político. ela pode ser/é “política” de outras maneiras. sim! como?

 

— não seria o momento de superar tanto a “crítica” quanto a “aisthesis”, isto é, a “estética”? a crítica tal como conhecemos a partir do XVIII corresponde a uma operação de deslocamento entre duas passividades/receptividades: o espectador alçado a tribunal do espírito.  “arte política”, “micropolítica”, “crítica” e, então, a “música política”. você de fato precisa desses conceitos para trabalhar seu objeto: certa canção brasileira contemporânea? em que medida?

 

quarto movimento

Os movimentos primeiro e terceiro são conversas que tive com Bernardo Oliveira, crítico musical e pesquisador do Rio de Janeiro, sobre ideias ainda prematuras que venho desenvolvendo para refletir sobre a música brasileira contemporânea. A própria expressão “música brasileira contemporânea” é já conflituosa, mas que eu poderia sintetizar em certa música, também catalogada por vezes como “independente”, que circula em escala menor, seja por pequenas casas de show, selos, publicações como as nossas, festivais, pela internet, e que por vezes consegue furar o olho da grande imprensa e produzir algum tipo de reflexão para além dos seus nichos de circulação. Assim, o terceiro movimento é formado por questões que ele me fez, já o primeiro movimento é feito das reflexões que fiz a partir de algumas dessas questões que ele me enviou.

O movimento segundo é feito de notas sobre discos que venho ouvindo mais recentemente, e com os quais tenho tido uma relação de diálogo, já que não se trata, no meu caso, de descrever ou interpretar cada um dos discos para o público. Estou vivendo esses discos e essas notas são as micronarrativas que por hora posso produzir, tendo em vista a potência criativa e provocadora que cada uma das obras produziu em mim.

São discos de artistas de desvios e devires diferentes. As obras e os artistas permanecem em fluxo, mudando, buscando caminhos, criando suas próprias narrativas. Alguns eu tenho a sorte de acompanhar mais de perto, como Isadora Melo, com o seu primeiro disco, Vestuário. Ou nas transformações de Helder Vasconcelos, desde o Mestre Ambrósio, passando pela dança, até chegar nesse Sambador. Além deles, os novos discos do pianista e compositor Vitor Araújo, com seu Levaguiã Terê; do compositor Douglas Germano, que só vim a conhecer mais profundamente com Golpe de vista, mas que tem produzido há muito tempo, lançando discos solos, com Kiko Dinucci ou sendo gravado por artistas como Juçara Marçal e Elza Soares; e, por fim, o disco do músico Negro Leo, Água Batizada.

O que esses artistas partilham? Que diálogo desejo propor aos leitores que tomam contato com esses fragmentos de escrita? Por que quebrar a narrativa em tantos pedaços? Primeiro, segundo, terceiro, quarto movimentos? Não são perguntas que consigo responder no limite deste texto. Porém, esse limite me sopra uma possibilidade de resposta, na verdade. A impossibilidade de interpretar a obra, de julgá-la de um ponto de vista privilegiado, hierarquizado, especializado, me faz experenciar uma “crítica como processo”, numa escrita que percorra desde o objeto artístico até a sua dimensão estética e política, os processos de criação do artista, sua relação com a crítica, com o público e os seus contemporâneos. Nessa escrita, os sons também estão em processo. Partilhamos entre nós esses processos, essas poéticas. O que está por vir, virá; como virá, não sei, mas será fruto desse processo. Quase que silenciosamente, vai reverberar esses sons como micronarrativas, micropolíticas, numa ação persistente, como atos de resistência: cantar, tocar, produzir, circular,  escutar, criar, criar, escrever.

 

quinto movimento

— mas às vezes tenho a sensação de que não escrevi nada. de que estou só preparando o terreno para um outro que ainda vai chegar. e tu?

 

[1] “Nos dias 13 e 14 de agosto de 2015, quinta e sexta-feira, a Sala Funarte Sidney Miller recebeu o show Clube da Encruza, formado pelos integrantes do Metá Metá e do Passo Torto. Os dois shows encerraram a ocupação do coletivo Audio Rebel/Quintavant, realizada por Bernardo Oliveira e Pedro Azevedo, na nova série da Funarte”. (Disponível em: http://www.funarte.gov.br/musica/publico-lota-sala-funarte-sidney-miller-e-aclama-o-clube-da-encruza/. Acesso em 13.10.2016).

[2] Do artigo “Walter Benjamin e os sistemas de escritura”, de Márcio Seligmann-Silva.

Publicado originalmente na ed. 12 da revista Outros Críticos.

Foto: Sexto Andar – Apresentação de Isadora Melo no Sexto Andar do Edifício Pernambuco no ano de 2014.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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