Meu mundo é hoje

I

Cinelândia, Rio de Janeiro, A Mulher do Fim do Mundo. Em meio a uma multidão que protestava contra as pautas retrógradas do parlamento brasileiro, especificamente nos projetos de lei que dificultam o atendimento às mulheres que sofreram estupro ou abuso sexual e na restrição ao uso da pílula do dia seguinte, os versos de uma canção que dão nome ao primeiro disco totalmente inédito de Elza Soares, se destacam estampados num cartaz, diante da imensidão de corpos, lutas e mulheres que cantavam em coro ao fim do ato no Rio de Janeiro: “Mulher/ Do fim/ Do Mundo/ Eu sou/ Eu vou/ Até o fim/ Cantar”.

As vozes quando em coro têm uma potência e alcance bem específico. Sendo essa voz uma vibração sobre as violências postas cotidianamente sobre as mulheres, a rouquidão, ao mesmo tempo como súplica e promessa, do canto de Elza Soares ao final da canção “Mulher do Fim do Mundo”, ecoa como uma reverberação das vozes da Cinelândia. “Eu quero cantar/ Até o fim/ Me deixem cantar/ Até o fim/ Eu sou a mulher do fim do mundo”, suplica Elza, promete. As que lá cantam, carregam nas cordas a memória e história que a própria vida de Elza revela. Todo canto, toda a trajetória da cantora, das mulheres do fim do mundo da Cinelândia, estão contidos estética e politicamente nesses versos, incrivelmente concisos, da compositora Alice Coutinho, com música de Romulo Fróes. Se Alice carrega em tão poucas palavras essa história, Romulo põe na melodia o movimento necessário para que a voz de Elza crie uma narrativa verossímil com sua trajetória artística e pessoal, repleta de curvas, altos e baixos, quebras, belezas e tormentas. Tudo que cabe na vida está ali, naquele pedaço de canção.

O produtor e músico, responsável pela concepção e direção desse álbum, Guilherme Kastrup, sintetizou a emoção de ver esse disco/canção multiplicado pelo ato no Rio de Janeiro, ao compartilhar em seu perfil do Facebook a fotografia onde se estampa o cartaz com a frase Mulheres do fim do mundo: “Em momentos como esse que a gente sente o poder das ideias e da arte chegando nas pessoas, e contribuindo para o que realmente acreditamos! Salve todas as Mulheres do Fim do Mundo!!”.

Nascido do encontro de Elza Soares com uma geração de músicos de São Paulo acostumados ao corte-da-canção, devaneio-das-palavras e à distensão dos gêneros musicais, sobretudo pela ressignificação do patrimônio musical brasileiro, o samba, sob a corrosão que suas sonoridades impõem; na voz-tormenta de Elza tudo parece caótico e belo. Pois bem, são partes desse encontro Romulo Fróes e Alice Coutinho, da já citada canção-título; Kiko Dinucci, do corpo libertário que é ser/estar no grito-canto da faixa “Pra fuder”; Rodrigo Campos, da prosa-canção na conversa ligeira de falares e gírias com Elza em “Firmeza”; Celso Sim, da “Benedita” identidade de quem tem “uma dupla caceta”, de quem é “da zona”, e “morre”, “mata”, “é craque”; Douglas Germano, da canção “Maria da Vila Matilde”, que na voz de Elza soa como um trovão contra a violência doméstica quando avisa: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Nela, vozes emulam cães, sambas, guitarras, violências que dançam; por fim, posto sob a condução de Kastrup, fazem parte do álbum Marcelo Cabral, Felipe Roseno, Cuca Ferreira, Cacá Machado e um poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik, na abertura do disco, não menos improvável, apenas n’A voz, n’A voz de Elza, como “navio humano, quente, negreiro do mangue/ navio humano, quente, guerreiro do mangue”, no que a traduz.

OUTRAS VOZES que neste ano tornaram a música muita mais que a reprodução de padrões. Em seus álbuns, a expressão sangue nos olhos pôde ser traduzida, ou reinscrita, no todo que compreendem suas obras, desenvolvidas no embaralhamento das canções, performances, narrativas, biografias, imagens e demais aparatos que fundem-se-confundem-se em suas próprias personas-criações: Ava Patrya Yndia Yracema, de Ava Rocha. Língua, de Alessandra Leão e Selvática, de Karina Buhr são representações dessas vozes. Suas obras abriram muitas frestas – ainda que o tempo presente dificulte essa impressão – sobre a voz da mulher numa espécie de performance sobre a performance da canção. Esse duplo se apresenta na escolha das artistas por desnudar nas letras suas dicções, angústias, críticas, modos de linguagem.

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Enquanto o corpo de Ava se ilumina no escuro e na sobreposição de máscaras, literais ou não, Alessandra e Karina desnudam e incorporam em suas próprias personas o que as canções inferem, refletem, conquistam. De maneiras distintas, porém, através dessa conexão possível entre vozes, corpos e narrativas presentes em todo o aparato que envolve o lançamento de suas obras, ou seja, projeto gráfico, shows, performance, canções, debates, entrevistas etc., Ava, Alessandra – é preciso lembrar que Língua fecha uma trilogia, iniciada em 2014 – e Karina se impõem como artistas críticas de extrema importância para o tempo nebuloso e, ao mesmo tempo, instigante para quem lida com arte nesse começo de século XXI.

II

Nazaré da Mata, Pernambuco, De Baile Solto. O músico Siba conversa com policiais militares durante uma noite de ensaio do Maracatu Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, do qual o artista faz parte, na tentativa de convencê-los a seguir com a festa até o amanhecer, como sempre fazem, tradicionalmente, as sambadas dos maracatus, já que a intenção da polícia era a de interromper os ensaios às 2h da manhã. Apesar de conseguirem ir até o sol nascer nessa ocasião, outros grupos da região não estavam mais conseguindo seguir com a festa. Assim relatou o músico em fevereiro de 2014: “Estrela Dourada de Buenos Aires, Leão Misterioso, Cambinda Brasileira de Nazaré da Mata, e quase todos, tiveram seus ensaios interrompidos às duas da manhã. Curiosamente, noites de maracatu promovidas pelas prefeituras ou por projetos culturais com patrocínio estadual ou federal tem acontecido sem limite de tempo. Conversando com os mais velhos, cuja memória ‘alcança’ os anos 60, não consegui nenhuma lembrança de proibição similar no passado”. Após a repercussão dos artistas e sociedade civil, posteriormente, em uma reunião convocada pelo Ministério Público, ficou decidido o fim da restrição de horário às sambadas na Mata Norte de Pernambuco.

No entanto, as feridas que se impõem aos artistas e artes oriundas desta região sangram há muito tempo. O que este caso nos revela é o modo como essas expressões, não menos contemporâneas que outras, vivas, instigantes, criativas, continuam ainda restringidas a um segundo plano, sobretudo por uma política cultural engessante e folclorizada da música de rua.

O texto “Pernambuco, Maracatu de Baque Solto e a Cobertura da Lei”, de Siba, no qual essa denúncia foi feita, dialoga com outros textos críticos sobre o tratamento dado a determinados artistas e expressões culturais, como em “Quanto vale a música tradicional?”, do músico Rodrigo Caçapa, em que reflete: “Qual o valor simbólico que a música tradicional do Nordeste representa para grande parte da população de classe média e para a elite econômica das grandes cidades da região e do país?”, e em “Realidades do Maracatu Rural para além do marketing cultural”, do tarolzeiro de maracatu rural, artista plástico e arquiteto Lula Marcondes, sobre as condições precárias que passam os Maracatus durante o período do Carnaval Pernambucano. Assim denuncia em seu artigo: “um maracatu com mais de 80 componentes, que viaja quilômetros com um elenco formado de brincantes das mais variadas idades entre crianças e idosos, chega a receber entre R$ 200,00 e R$ 300,00 por apresentação”.

Com De baile solto, Siba põe todas essas questões em evidência. No entanto, não o faz de modo panfletário, como ‘música de protesto’, datada, com prazo de validade. Suas canções são críticas porque carregam em suas poéticas e sonoridades a voz e os sons que ecoam dessas e de outras expressões artísticas. Ou como afirma, “expressar a grandeza absoluta de uma ave de rapina ante a arrogância dos senhores que se arrastam pela terra, exaltar a potência criativa e social de formas de expressão forjadas coletivamente por pessoas marginalizadas e excluídas, reafirmar a crença tola na embriaguez do verso”. É de modo poético que o compositor destrincha suas críticas.

É curioso perceber que no texto-denúncia de Siba algumas das afirmações ali relatadas apareceram em suas canções. Com isso, intuímos o quanto o processo criativo do músico, sobretudo nesse álbum, esteja imbuído dessa reflexão, em como essas novas canções jogam de volta aos seus interlocutores as falácias que no fundo querem manter estáveis as forças de poder já estabelecidas. Assim, ‘nova ordem’ está na boca do policial militar e nos versos de “Marcha Macia”, canção que abre o disco. Já ‘Progresso com mais Ordem?’, na pergunta irônica do músico naquele texto, surge não menos irônica e contundente nos versos da mesma canção, que diz: “Progrediremos juntos, muito em paz”. Na condução da guitarra-narrativa em diálogo com a voz de Siba até a profusão de sons e ritmos que invadem a canção.

Muito mais do que essas relações entre crítica e criação, a música oriunda da invenção que é a Mini Desorquestra de Baile Solto e Rima, formada por Siba, Mestre Nico, Antônio Loureiro e Leandro Gervázio, delirando sob uma poesia imagética, é ela mesma uma desordem, nem nova nem velha, mas espacial, como a ave de rapina, o gavião, o balão que voa, a música que experimenta o seu próprio vocabulário, sua própria loucura.

OUTRAS VOZES que conectam a música nos planos críticos-sonoros, em que há esmero, experiência e relações muito próximas entre arte e vida, são os discos Ninõs Heroes, de Negro Leo, e Fortaleza, da banda Cidadão Instigado. Como recortes, os álbuns aqui retratados tratam de fincar numa memória sonora, política e cultural os seus modos distintos de ser/estar nesse “mercado de expectativas”, como canta Negro Leo, ou na diluição de uma cidade-Fortaleza-demais-capitais sob, mais uma vez, uma “nova ordem”. Essas canções, artistas e discos alargaram as possibilidades da música através de um discurso crítico rodeado da potência dos sons. Os sons como política.

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No entanto, há uma relação entre outras vozes contemporâneas a eles, mas ao mesmo tempo extemporâneas, porque parecem numa mesma medida territorializar e desterriorializar modos de construção estética. Mesmo nesses recortes heterogêneos que buscamos traçar, comparar, refletir sobre as produções musicais deste ano, artistas e obras como as lançadas por Rodrigo Campos em Conversas com Toshiro, Zé Manoel em Canção e silêncio, Passo Torto e Ná Ozzetti em Thiago França, dentro do ambiente da canção brasileira permaneceram pairando num entre-lugar estético. Rap, funk, música eletrônica, instrumental, noise e demais gêneros e desconstruções de gêneros certamente fizeram de 2015 um ano profícuo para a música brasileira. Como crítico, intuo mais uma vez que será preciso uma infinidade de outros concisos recortes críticos para darmos conta da multiplicidade de vozes que compõem o universo da música contemporânea brasileira.

Foto de capa: Stéphane Munnier

Este artigo foi publicado originalmente em duas partes. A primeira parte saiu na edição 180 da revista Continente, de dezembro de 2015, com o título “Os protestos sonoros”. A segunda parte saiu no próprio site Outros Críticos, em 10 de dezembro de 2015, com o título “Siba: de baile solto, como ave de rapina”.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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