Manhã sem serventia

Sambas Do Absurdo é o resultado do encontro de três artistas centrais na música popular brasileira contemporânea, cada um deles, a seu modo, renovadores da linguagem da canção em nosso país. De modo esquemático, identificarei assim o papel de cada um neste trabalho: o compositor Rodrigo Campos, o produtor Gui Amabis e a intérprete Juçara Marçal. Criadores de muitos recursos, naturalmente seus papéis se cruzam e se misturam ao longo do disco, mas valho-me dessa classificação para melhor elencar as muitas conquistas deste Sambas do Absurdo. Começo pelo início, pelas composições. Pelo compositor.

Se analisarmos sua trajetória até aqui, notamos que Rodrigo Campos vem construindo uma geografia própria – territorial e afetiva, que organiza e conduz o repertório de seus discos a partir de personagens e lugares que povoam seu cotidiano e sua imaginação. Foi assim logo em sua estreia com São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe (2009) em que lugares e personagens se confundiam com sua história pessoal, narrando passagens de sua vida no bairro da periferia paulistana onde viveu parte de sua infância e adolescência. Em seu segundo disco Bahia Fantástica (2011), essa geografia se dilui. A Bahia de Rodrigo é uma Bahia imaginária, povoada de escravos e seus senhores, de paisagens e personagens criados por ele, para refletir suas próprias aflições, misturando passado e presente, mitos e estórias reais, realidade e fantasia, vida e morte. Em Conversas com Toshiro (2015), seu terceiro disco, essa cartografia avança em duas direções. Ao mesmo tempo em que geograficamente se afasta cada vez mais de São Mateus, chegando ao Japão depois de ter passado pela Bahia, Rodrigo também realiza um mergulho profundo para dentro de si mesmo. Ele próprio explica esse mergulho em uma notável série de textos onde esmiuçou cada faixa de Conversas com Toshiro:

“Escrevi essa música e todas as outras do meu terceiro disco, como tentativa de metaforizar o inconsciente, tentando desenhar através dessas canções uma mitologia, espécie de ‘Olimpo oriental inconsciente’, onde os personagens pudessem transitar, amorais, personificando nossas loucuras, nosso esquecimento, nossa inquietação existencial. São questões importantes pra mim, pois acho que definem nossa capacidade de viver a vida, simplesmente: o quanto da loucura expressamos, o quanto da loucura recalcamos. É o primitivo que nos habita dizendo onde estão os limites do humano, da existência”.

Para onde seguir depois desse mergulho interno? O impulso de Rodrigo para compor um novo disco, veio com a leitura de O mito de Sísifo, ensaio escrito por Albert Camus e publicado em 1942. No prefácio da edição lida por ele, o crítico Manuel da Costa Pinto destaca, entre outras coisas, que Camus formulou ideias sobre a gratuidade de nossa existência, o confronto entre a opacidade das coisas e nosso “apetite de clareza’, sobre “o divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário”, resumidos, para Manuel, no subtítulo do livro: Ensaio sobre o absurdo. Talvez esteja aí, neste divórcio, a chave para compreender o fato de Rodrigo Campos pela primeira vez em sua carreira, assinar um disco onde compõe somente as melodias. Afinal, como saciar nosso “apetite de clareza”, “nossa capacidade de viver a vida”, diante da constatação do vazio de nossa existência, da opacidade da vida? Qual o território capaz de abrigar esses questionamentos? E quais os atores, o cenário? Rodrigo foi atrás de um parceiro que pudesse ajudá-lo a expressar musicalmente, o espanto que o ensaio de Camus parece ter lhe causado. Encontrou esse parceiro em Nuno Ramos.

Para quem conhece o trabalho de Nuno Ramos nas muitas linguagens artísticas em que desenvolve sua obra, sabe que o processo de construção é parte inerente de seu trabalho. Podemos notar isso mais claramente em suas produções nas artes plásticas onde os materiais usados por Nuno em suas esculturas, pinturas e instalações, estão quase sempre no meio do caminho de sua natureza física, no limite de se quebrarem, se desmancharem, derreterem, e por esse motivo, muitas vezes apresentam uma aparência de algo inacabado. Na literatura, Nuno também se vale desse meio do caminho, seus livros se recusam a catalogação, transitam por mais de um gênero literário sem se definir por nenhum. Como compositor, sobretudo como letrista, Nuno vem desenvolvendo uma prosódia muito particular e original, com letras tendendo para o abstrato, com significados nem sempre aparentes. Esse comportamento que Nuno leva para todas as suas criações, pode ser resumido na feliz definição do crítico Alberto Tassinari sobre seu trabalho, diz ele que Nuno tenta “dar continuidade ao descontínuo”.

É nesse espaço “entre”, que irão habitar as letras de Nuno em Sambas Do Absurdo. Logo na faixa de abertura ele se instaura como poética do disco. Seja na descrição imprecisa do personagem da canção, não determinando nem mesmo a que espécie ele pertence: “diz, quem toma a minha vida, inseto ou é menina”; seja para relativizar já na primeira faixa do disco, o Sambas presente em seu título, liberando-o de possíveis reivindicações sobre afinal se tratar ou não de um disco de samba: “um samba eu faria, que faz o rei cantar nu, pra não ter, pra não ter, pra não ter de cantar, pra não ter, pra não ter, pra não ter de sambar”. Nem a paisagem da canção – sua geografia, é determinada pela letra, oscilando entre o onírico e o real: “na avenida, no sal da vida, na música, no éden”. A aparente falta de assunto, de um objeto ou sujeito mais claros, acaba por se tornar o próprio assunto da canção, estabelecendo assim uma relação estreita com o ensaio que inspirou o disco e assim como a Sísifo em seu trabalho inútil, não lhe falta desejo nem vontade de potência, rocha e montanha convertem-se em sexo: “quis, bem mais do que eu podia, nascia na montanha, a manhã sem serventia, só serve pra gozar mais, pra não ter, pra não ter, pra não ter de acabar, de enfiar, de enfiar, de enfiar, de enfiar”.

Um erotismo latente percorre todo o disco. Ora, de modo mais íntimo: “Tinhas uma pinta assim, lábios de fumaça”, ora, mais explícito: “Último caroço desse fruto, um peito, um puto dum prazer, de conhecer o poço oculto”. Mas para além de uma relação amorosa entre duas pessoas, esse erotismo pertence ao homem e a natureza: “bunda, peito, flora, fauna”, mimetizados pelo desejo: “diz, o olhar é carabina, a lua uma lanterna, parece uma piscina, no meio das suas pernas”. Não é possível identificar uma voz principal, nunca se sabe ao certo o sujeito das canções, se “bicho, pedra, homem, planta”, embaralham-se os protagonistas e o tempo de suas ações: “Eras uma tarde azul, nossa luz viaja, samba dentro duma máscara e o chão laialaiava”. Talvez por esse motivo, as canções que compõe o repertório de Sambas Do Absurdo não tenham ganhado títulos próprios, sendo todas chamadas apenas de Absurdo, acrescidas do número que determina a sequência em que foram compostas, Absurdo 1, Absurdo 2, Absurdo 3 e assim por diante até o número de faixas que compõe o disco, oito. Curioso notar também, que na ordem final do disco, ignorando a ordem em que foram compostas, tenham sido espelhadas em um ordem decrescente, indo do Absurdo 8 ao Absurdo 1. Esse desprendimento com a nomeação do repertório e sua ordem no disco, me parece que ao mesmo tempo que reúne as canções sob um mesmo arcabouço poético, dá independência as faixas para que sejam ouvidas separadamente, na ordem em que definirmos, o que termina por aproximar o disco de nossa escuta contemporânea.

A falta de uma voz e um tempo mais claros influenciou a interpretação de Juçara Marçal. Mesmo com variações de volumes e tons entre as faixas – Juçara parece ter escolhido propositalmente tons menos confortáveis à sua tessitura vocal, em Sambas Do Absurdo, a intenção de seu canto pouco se altera. Um ar toma conta de sua voz, tornando-a um tanto distante, parece vir de um lugar de fora da canção. Enxergo nessa distância, nessa quase “não-interpretação”, talvez o partido que encontrou para interpretar esse repertório. Mais do que cantar, Juçara parece narrar as canções. Essa escolha, além de dar a dimensão de sua grandeza, já que poucos artistas abririam mão de sua persona em favor de um trabalho – ainda mais uma intérprete com os recursos e a versatilidade de Juçara, se mostrou muito feliz. Como narradora, Juçara encontrou uma articulação possível para conjugar a polifonia de vozes que compõe o disco. Às vezes como protagonista: “Pode deixar que eu mesmo canto, aialaiá, eu mesmo sambo”, outras, anunciando a ação: “Vinhas de manhã cedinho, o chão tua sandália, nunca que eu te vi tão vasta, música de prata”. No show a que assisti de Sambas Do absurdo, esse procedimento estendeu-se à sua performance no palco. Sem nunca ser literal, longe disso, buscava dar forma visível a versos como: “Dá logo a notícia, dá, me conta do desastre, diz que o mundo acabou, com lábios maquiados”, repetindo em gestos o conteúdo da letra, dando destaque ao texto da canção. Como que desejando explicar o inexplicável.

Gui Amabis e Rodrigo Campos pouco cantam no disco e quando cantam, estão a serviço da voz de Juçara; seja respondendo ao seu canto; seja se fundindo a ele, cantando juntos com ela, reverberando suas palavras, amplificando seus significados, num comportamento próprio do coro no samba. Diferente da atuação de Gui Amabis como produtor musical de Sambas Do Absurdo, que o faz se aproximar de um outro tipo de coro, do teatro grego, onde as vozes individuais são preservadas. Seus arranjos, todos construídos através de samplers carregados de texturas de timbres opacos, um tanto desfocados, como que encapsulados pelo ruído de uma agulha de uma antiga vitrola, ao mesmo tempo que acentuam a já mencionada distância na interpretação de Juçara, funcionam como um contraponto a ela, muitas vezes atravessando sua voz, reagindo como se fossem comentaristas das canções. Reconhecemos facilmente o trabalho que Amabis vem desenvolvendo em seus discos solo, muito influenciados por trilhas sonoras de cinema, ocupação a qual também se dedica, mas aqui, pela falta de um objeto mais claro ao qual se referir, suas intervenções não se pautam exatamente pelas letras e pelas imagens sugeridas por elas – como é próprio das trilhas sonoras, afinal, que sons nos remeteriam a imagens como essa: “diz, quem nasce da costela e bóia na banheira, agora toma forma e goza na memória”. Gui vai tomar como referência, a performance de Rodrigo. Se os arranjos e o canto soam distantes, parecendo habitar um outro mundo, as composições e a execução primorosa de Rodrigo, dão lastro para o disco, são elas que o mantém em solo firme. E são sobretudo elas, que justificam o Sambas presente no título, pois ainda que muito originais, carregam consigo a sintaxe do gênero. Os arranjos criados por Gui Amabis atuam exatamente na gênese do que comumente caracteriza o samba, por exemplo, subvertendo a utilização de instrumentos naturalmente associados a ele. Deste modo, o sample de um tímpano é reconstruído para reproduzir a pulsação do surdo. Uma caixa com seu timbre saturado reproduz a batida de um tamborim e um arranjo de cordas reprocessado lembra um ataque no prato de uma bateria.

Esse desejo de transformação do samba e de resto, da própria canção brasileira, já insinuado no Absurdo do título e claramente identificado na performance dos três artistas que atuam no disco, está posto desde o início, na parceria entre Rodrigo Campos e Nuno Ramos. Seja na vontade de tirar o “samba dentro duma máscara”, do lugar comum que muitas vezes o aprisiona: “tchau redundância, tchau balancê”; seja para reivindicar uma posição de destaque nessa transformação: “pode deixar que eu mesmo canto, aialaiá, eu mesmo sambo, aialaiá, eu mesmo tento, um pé no pé, outro na câmera, laialaiá, eu mesmo tombo e se pensar, meu chão tá torto, eu tô no manto, eu tô no morro e se deixar já tô bem morto”. Mas mais do que a confluência esperada em uma parceria, o encontro dos dois deixa transparecer o embate travado entre a organicidade e uma certa sobriedade que caracteriza o percurso de Rodrigo até aqui e a trajetória acidentada e seu desejo de controlar o caos a qual Nuno dedica seu trabalho. Nem um, nem outro parece ter arredado o pé de suas convicções. Não tendo avançado na direção do parceiro e mantido suas personalidades intactas, acabaram por transformar um, o trabalho do outro. Rodrigo com suas melodias claras e precisas, dando ritmo a profusão de imagens criadas por Nuno, corrigindo seu trajeto acidentado; Nuno criando tensões com a clareza de Rodrigo, provocando desvios em seu rigor formal. Desse embate entre duas personalidades artísticas muito próprias, surgiram canções que além de belíssimas, me parecem muito originais, não apenas em relação ao trabalho pessoal de cada um, mas da própria tradição da canção popular brasileira. Se tomarmos ao pé da letra o título do disco, e classificarmos como sambas essas parcerias, daí mesmo que me parece algo novo o que compuseram juntos. E é justamente em busca de se afirmar como uma novidade que Sambas Do Absurdo vai se medir com a própria história da canção brasileira, seja de maneira um tanto desiludida, rebaixando o otimismo Jobiniano: “é pau, pedrada, no meu caminho, um resto de toco, um corpo sozinho”, seja de modo mais agressivo, abrindo mão de seu legado: “dá logo Ipanema, dá, dá o Roberto Carlos”.

Em uma passagem de O Mito De Sísifo, Camus escreve: “Trabalhar e criar para nada, esculpir na argila, saber que sua criação não tem futuro, ver essa obra ser destruída em um dia, estando consciente de que, no fundo, isto não tem mais importância que construir para os séculos, eis a difícil sabedoria que autoriza o pensamento absurdo. Desenvolver ambas as tarefas ao mesmo tempo, negar por um lado e exaltar pelo outro é o caminho que se abre diante do criador absurdo. Ele deve dar cores ao seu vazio”. Em uma época onde o real – absoluto e irrestrito, baliza toda a produção artística contemporânea, das artes visuais à música popular, agregando mais valor à uma obra de arte, quanto mais ela se aproxime da realidade, me parece que “criar para nada”, além de arriscado do ponto de vista comercial, é uma escolha estética das mais ousadas. Reside aí, o grande acerto de Sambas Do Absurdo. Criar para nada pode ser também criar para tudo: “e tudo alimenta minhas palavras”. A suposta falta de assunto citada no início deste texto não poderia se revelar mais falsa. Sem a hipercorreção da produção artística contemporânea – que de resto não a livra de uma reavaliação acusatória permanente, por parte de cada espectador, ao não escolher uma única voz, Sambas Do Absurdo, além de transbordar em seus questionamentos, se afirma como uma novidade dentro da canção brasileira. Seu comprometimento é antes, com sua própria intuição: “o nosso algoz dentro de nós, não tem polícia na minha voz”.

O propósito da arte em nossa vida é – ou ao menos deveria ser, o de transcendê-la e não somente reproduzi-la. Um dos grandes méritos de Sambas Do Absurdo está em nos revelar, por exemplo – “bem mais do que eu podia”, a beleza, a força e a importância que pode haver em uma manhã sem serventia. Só serve pra gozar mais.

Foto: Capa e contracapa do disco. O detalhe da instalação que ilustra a capa e a contracapa é de Nuno Ramos, se chama Vai Vai (2006), e foi montada no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo. O projeto gráfico do disco é de Julio Dui.

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Cantor e compositor, tem em sua discografia sete discos solos lançados: "Calado" (2004), "Cão" (2006), "No Chão Sem O Chão" (2009), "Um Labirinto Em Cada Pé" (2011), "Barulho Feio" (2014), "Por Elas Sem Elas" (2015), "Rei Vadio_ As Canções de Nelson Cavaquinho" (2016). Com o grupo Passo Torto, do qual faz parte junto a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, lançou três discos: "Passo Torto" (2011), "Passo Elétrico" (2013), estes dois álbuns premiados no Prêmio da Música Brasileira e "Thiago França" (2015), este último uma parceria entre o grupo e a cantora Ná Ozzetti. Romulo também lançou um disco em parceria com o cantor e compositor César Lacerda, intitulado "O Meu Nome É Qualquer Um" (2016). Atuante na cena musical independente, é um de seus principais interlocutores, tendo publicado textos críticos sobre a música brasileira em diversos veículos da imprensa, realizado documentários, trilhas sonoras, curadorias musicais, além de produzir e dirigir discos e shows de outros artistas como Elza Soares, Rodrigo Campos, Juliana Pedigão, Pipo Pegoraro e Cacá Machado. Além das já citadas Elza Soares, Ná Ozzetti e Juliana Perdigão, suas composições já foram gravadas por diversas cantoras como Juçara Marçal, Nina Becker, Jussara Silveira, entre outras.

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