Inxistência: descolonizar, reaprender a estar, insistindo

Nessa terceira e última escrita para os Outros Críticos faço um movimento de insistir em algumas questões levantadas em minha última coluna. A insistência aqui revela uma ação política de sustentar um diálogo até emergir algo diferente.

As perguntas que me atravessam nesse momento continuam sendo mobilizadas pelo atual momento político, pelas relações que nele acontecem e por pensar como fazer arte nesse contexto. Uma de minhas suposições é que vivemos uma crise ética, de relação com o outro. E então tenho feito a pergunta: como estar com o outro? Sinto que há uma relação de desamparo (uma sombra, uma vulnerabilidade) presente em toda relação de alteridade. E em seguida me vem mais uma questão: de que modos a gente cria, na arte e na vida, para lidar com o dissenso?

Sem saber responder essas questões, mas colocando-as em perspectiva, comecei a ler autores que possam ajudar nesses entendimentos. Me parece que parte dessa crise ética, de relação com o outro, está sedimentada em processos sociais e culturais históricos que precisamos enfrentar: as relações hierárquicas de gênero, de etnias e de saberes. E uma das minhas mais recentes tarefas tem sido me debruçar sobre textos e conversas que discutam sobre descolonização.

Em uma entrevista a artista Grada Kilomba faz uma análise interessante sobre o Brasil e a lógica colonialista ainda impregnada na sociedade. Uma prática que ainda está muito presente nas relações sociais e que muitas vezes são apresentadas como superadas. E até nos espaços que compreendemos como emancipatórios, como a universidade, ainda nos deparamos com um modelo colonialista do pensar e com posturas hierárquicas sobre o saber.

Recentemente, tenho acompanhado questionamentos na universidade, vindo principalmente de alunos, sobre quais são nossas referências teóricas. E a maior parte delas são decorrentes de escolas de pensamento europeias ou norte-americanas. A reflexão que suscita é como essas referências, vindas de países específicos, com histórias políticas e econômicas determinadas, emolduram o olhar e o pensar. E assim, acabam por excluir do meio acadêmico outras possibilidades de discursos. Como, então, mudar nossas práticas colonialistas se nossos discursos ainda são embasados por escritas de autores provenientes de países colonialistas? A descolonização se apresenta como um tema urgente, há muito tempo.

Foi nessa procura por outros referenciais teóricos que me apresentaram Mignolo, um autor argentino. O que me soa interessante do seu pensamento é o desejo de contrapor uma lógica binária epistemológica, a favor de uma epistemologia de fronteira. Como argentino e descendente de europeus, ele compreende sua complexidade de se desconectar do eurocentrismo, e então defende o “diálogo entre cosmologia não ocidental (aymara, afros, árabe-islâmicos, hindi, bambara, etc.) e ocidental (grego, latim, italiano, espanhol, alemão, inglês, português)” (MIGNOLO, 2008, p. 316). Uma co-existência de epistemologias, mais do que valorizar uma em relação a outra.

“Línguas marginalizadas e denegridas, religiões e formas de pensar estão sendo re-inscritas em confrontação com as categorias de pensamento do ocidente. Pensamento de fronteira ou epistemologia de fronteira é uma das consequências e a saída para evitar tanto o fundamentalismo ocidental quanto o não-ocidental.” (MIGNOLO, 2008, p. 297)

Para mim a palavra co-existência se coloca como uma chave para entender linhas de fuga para essa crise ética com o outro. Assumir lugares de trânsito, ao invés de pontos de vistas binários, podem ressignificar a sensação de desamparo. E assim criar um espaço de correspondência, entendida como um compartilhamento de responsabilidades entre saberes, e não de hierarquias.

Impossível negar a nossa imersão em um sistema capitalista neoliberal colonial. Mas como estar nele e conseguir criar outros modos de estar, se descolonizar e inventar espaços de existência para além dessa captura do sistema? Sinto que não é possível negar essa realidade que nos contém. Mas criar modos de estar nele que contemplem outras visões de mundo. Mignolo conta que “‘Aprender a estar’ é uma das metas da Amawtay Wasi (uma uni-versidade que na realidade é uma pluri-versidade organizada de acordo com a cosmologia e a sabedoria dos povos e das nações indígenas)”. Assim, propõe a descolonialidade do estar, e que o método para tal objetivo é “aprender a desaprender, a fim de voltar a aprender” (MIGNOLO, 2008, p. 323).

O potencial crítico da dança

É aqui que minha experiência do corpo como espaço de articulação do fazer artístico parece criar sentido. Trago então algumas reflexões do autor brasileiro, criado em Portugal e atualmente professor na Universidade de Nova York, André Lepecki. Em seu mais novo livro, intitulado Singularities (2016), ele traz a dança como um campo artístico com potencial a exercer “críticas endereçadas e contabilizadas à impetuosa cinética neoliberalista”, que ele também entende como colonialista.

Nesse livro ele discute seis elementos constitutivos da dança que tem o potencial crítico comentado acima: “efemeridade, corporalidade, precariedade, marcação, performatividade e a performance do trabalho afetivo” (LEPECKI, 2016 – tradução minha). Um dos aspectos da dança que me parece importante levantar aqui é o da corporalidade. O autor entende “’o corpo’ como pura transitividade – mas essa transitividade é também seu principal poder, já que se conecta com a capacidade de resistir, insistir, inventar” (LEPECKI, 2016, p.15 – tradução minha). E nesse sentido aposto nas artes do corpo como um lugar de existência desse movimento de “aprender a desaprender para reaprender”.

“Corporalidades constantemente demonstram para dançarinos e público possibilidades concretas de incorporar de outra maneira, já que o trabalho do dançarino é nada mais do que incorporar, desincorporar, reincorporar, encorporar também como excorporar, e assim permanentemente propor improváveis subjetividades, modos de vida, movendo, afetando e sendo afetado” (LEPECKI, 2016, p.15 – tradução minha).

Impera então um sentimento de insistência.  Criar algo ‘novo’ é manter a lógica do consumo e do descartável. Mas revisitar o conhecido e encontrar a diferença que faça sentido é um trabalho temporal. E provavelmente o tempo desse desejo de transformação é mais dilatado, nada imediatista. É insistir, insistir, insistir, até que reexista. E assim, inxistir.

Esse é o tema da minha nova pesquisa de movimento para uma performance. Insistir em movimentos que historicamente habitam meu corpo. Repetindo, repetindo, e ver em que vão se transformar, no meu corpo e no olhar do outro que me vê. Começo com movimentos repetidos partindo da Articulação Temporal Maxilar (ATM), um tique chamado popularmente de “bruxismo”, um sintoma de travar os dentes quando estamos dormindo decorrente de tanta tensão no maxilar. Para mim resultante do estresse e pressão desse contexto produtivo em que vivo. Em seguida começo a fazer movimentos de braços que criam pulsos no peito. Exercício de mulheres para deixarem os seios firmes, e que para mim deixam em evidência o pulso do coração. E em seguida entro em movimentos com braços, de mãos dadas, indo e voltando em torno de mim. Ir e voltar em torno de mim, de mãos dadas… Inxistir.

Inxistência. Com Art IIII III. Salvador. Alto da Sereia. Vídeo de Kiran Gorki

A pesquisa já está ganhando novos movimentos. Mas a ideia é não se preocupar com o novo, mas em como revisitar movimentos, e reaprender com eles. Insistir até surgir algo diferente.

Promover descolonização, se propor improváveis subjetividades e modos de vida, estar em movimento, são pistas e desejos. Materializar essas ações demandam um trabalho árduo de fissurar padrões construídos historicamente e socialmente. Mas, principalmente, exigir uma mudança de pensamento e de ação intensa e vigilante. Uma insurreição, que emerge de um desejo político e não de uma necessidade política.

Referências

LEPECKI, André. Singularities: dance in the age of performance. Routledge: New York, 2016.

MIGNOLO, Walter D. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, no 34, p. 287-324, 2008.

Foto: Paulo Davino

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Mestranda em Dança pela Universidade Federal da Bahia, é especialista em Dança pela Faculdade Angel Vianna (RJ/PE) e bacharel em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco. É artista integrante do Coletivo Lugar Comum e pesquisadora do Acervo RecorDança. Atua como coordenadora pedagógica da Mostra Brasileira de Dança e coordenadora artística do Contato Coletivo – Encontro de Contato Improvisação de PE.

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