Infinito

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Do álbum “Sem Despedida”, de Paes. Foto: Arquivo Pessoal Design: Rodrigo Garcia

por Rodrigo Édipo.

“Em pé, com fé, onde o homem iria?

Até onde o homem iria?”

Caso o telefone não tivesse tocado naquele momento, o resto da minha vida seria diferente. Aos 67 anos eu já estava cansado de tentar fazer a minha vida acontecer. As pessoas passam a vida tentando fazê-la acontecer, e no meu caso, isso me acompanha desde que me recuperei de um meningismo aos 15 anos.

Quem estava na linha era Rafael, amigo que conheci no longínquo 2017 em uma das viagens que fiz com a banda Paes para João Pessoa – época em que minha poesia andava nervosa, desacreditada e as palavras jorravam tão inquietas quanto a mais precoce das ejaculações.

– Alô, Paulo? Tô ligando pra lhe fazer um convite… precisamos de você.

Rafael – hoje, um velho de 70 anos, desorientado da vida e achincalhado pelo cigarro – queria que eu aparecesse em sua casa de praia para nadar, fumar um baseado e tomar água de coco. Mesmo cansado para qualquer tipo de deslocamento além do quarteirão da minha cama, resolvi ir.

Estávamos em um nublado agosto. Devido à profissão que exercera por toda a vida, Rafael sempre andou rodeado de jovens. A tarde tinha sido legal, mas extremamente sem sentido. Lembro da presença de Aninha e de outras garotas. Todas no auge do biquíni. De longe, sentado no chão, o peso da idade e dos divórcios me distanciava de qualquer uma delas.

Com 67, ainda faltava dois anos para que eu – Paulo Paes, músico e poeta caduco das esquinas do Recife – pudesse fazer alguma referência sexual e esdrúxula à minha idade. Charles Bukowski teria muita pena de mim.

Enquanto anoitecia, apareceu outra jovem, o nome era Larissa. Por volta dos 17 anos. Era perfeita. Disseram-me que estava apaixonada por um tal de Mathias, que também estava no local. Notei que ela não tirava os olhos dele, mas o cara não lhe dava a mínima. Deixei pra lá, porém, quando já me despedia de toda aquela juventude que já varava a madrugada, Larissa me perguntou se eu poderia levá-la para casa, justificando estar chateada com Mathias. Senti que essa desnecessária confissão era um truque das mulheres para despertar o interesse dos homens.

– Ele é muito sortudo. – abri a guarda.

Durante o trajeto, a nossa conversa não passou de um papo-água. Ela disse que era atriz e estava procurando trabalho. Deixei-a no lugar pedido, certo de que se tratava apenas de uma pirralha. E voltei pra casa.

“Bati na porta do desconhecido

Misteriosamente”

Depois de um tempo o meu telefone tocou. Era Larissa:

– E aí, o que tá fazendo? – perguntou ela.

Disse que tinha jantado e estava na cama lendo. Larissa quis saber o nome do livro e como era meu quarto. Ela era capaz de imaginar o nível de solidão daquela noite. Isso me atraiu e – aos 67 anos e ainda tentando fazer a vida acontecer – me entreguei.

– Até quando você vai viver o sonho de Sal Paradise? – provocou.

O sangue implodiu nas minhas veias e – quando dei por mim – já estava lhe fazendo juras de amor, vendo poesia onde não tem. Embora fosse bonita, não encontrei o ardor e o entusiasmo que uma garota de 17 anos inspira. Só me interessava pelo amor romântico.

(…)

A cerimônia foi simples e rápida. Estávamos casados.

– Você já beijou a noiva, Paulo? – perguntou o Padre

– Ah, sim… – disse, sorrindo.

Depois de trinta minutos, minhas emoções começaram a ficar confusas. Senti que tinha sido fisgado para aquele altar por um conjunto de circunstâncias absurdas que a vida burocrática nos aprisiona. Todas elas perfeitamente evitáveis. Contudo, não poderia esquecer, sempre desejei uma esposa para viver o amor eterno. Larissa era jovem e bonita, com 18 anos incompletos e – embora eu tivesse 50 anos a mais – talvez o casamento vingasse. Talvez a vida – finalmente – começasse a acontecer.

“A natureza do ser

Não é quanto ter

E sim, quanto a ter sentido”

Embora não estivesse apaixonado, agora eu era um homem casado e queria que meu casamento desse certo. Eu tinha algo para ocupar a mente. Mas o casório pra Larissa era apenas uma conquista esportiva, assim como uma vitória no mais disputado concurso de novos talentos. O negócio dela era outro.

Dois meses bastaram.

– Você não me ajuda… não sei para quê eu lhe tenho – falou Larissa de forma ríspida.

A carreira de atriz de Larissa não saía do canto, e ela passou a me culpar pelo próprio insucesso. E, depois de tanto não entender e de me iludir com o amor verdadeiro que ela supostamente nutria por mim, percebi que eu não lhe servira nem de trampolim.

Talvez as engrenagens estivessem enferrujadas demais para ajudar no salto. Isso me trouxe más lembranças, arquétipos que me assombram desde que minha conturbada relação edipiana aniquilou-me sem pena. Foi triste perceber que dessa vez a minha vida só aconteceu por apenas dois meses. 60 dias, para ficar um pouco mais dramático.

Sou fascinado pelas relações interpessoais, elas são a minha maior fonte de inspiração para continuar fazendo o que eu sei. A verdade é que não é só na ascensão que evoluímos, é na queda que aprendemos as maiores lições.

E assim a vida vai se preparando.

*

Nas horas descobertas pelos sonhos. O infinito…

05. Paes – Infinito by outros críticos

Fragmento extraído da autobiografia “Paulo Paes: Infinito”, no prelo.

Publicado originalmente na coletânea no mínimo era isso: 10 bandas, 10 ensaios

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Nascido e criado em Olinda (PE), fez mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), membro do INCITI - Pesquisa e Inovação para as Cidades (UFPE), voluntário no movimento love.fútbol, fundador da Mi-Independente, colaborador no Outros Críticos e coletivo B U T U K A.

2 Comentários

  1. 28 de novembro de 2013
    Responder

    Meus parabéns pelo texto, Rodrigo. Me identifiquei pra caralho, que bela história. Parabéns de novo, porque eu não tenho palavras pra definir meus sentimentos após ler esse texto.

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