Incômodos da música brega

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Coletânea “Music from Pernambuco”.

por Thiago Soares.

Como alguém que pensa que a cultura se faz na multiplicidade e, sobretudo, no dissenso, acho que uma boa forma de refletir sobre as articulações entre música e política no Recife e em Pernambuco, é cartografar os incômodos da música brega neste contexto. Se tomarmos a noção de política como ocupação, como estratégia, inserção e partilhas nos espaços codificados, o brega é, portanto, um itinerário curioso para debater o centro e as bordas do que se convencionou chamar de “música de Pernambuco”.

Através de uma política cultural que se edificou sob a égide de um certo “Pernambuco Nação Cultural”, sempre observei uma tendência de jornalistas, críticos culturais e mediadores políticos em tratar a música produzida no Estado como um gênero. Acho que há um movimento análogo no cinema – com a retranca ampla chamada “cinema pernambucano”, que engloba estilos, diretores, gêneros e narrativas bem distintas entre si.

No caso da “música pernambucana” (ou “Made in Pernambuco”, título inclusive de uma coletânea de artistas locais), acontece o mesmo. A música chamada “de Pernambuco” é aquela circunscrita a tradições hegemônicas nas políticas públicas de incentivo à cultura e também “eleita” por conselhos e mediadores comunicacionais. Quando peguei o box com uma dessas coletâneas, tomei um susto: onde estava o brega? Nenhum sinal. A discussão se espraiou para a programação da Rádio Frei Caneca, que tocará (espera-se ansiosamente) o que se chama de “música pernambucana de qualidade”. E cabe aqui circunscrever o que se chama de “qualidade”: Para quem? Para quê?

“A ‘music from Pernambuco’ […] é uma embalagem higiênica e domesticada da pluralidade musical do Estado”

Quando se faz uma abordagem geográfica de um gênero musical, o interessante é justamente acionar tensões existentes no contexto. O que sempre se fez, como política de Estado, em Pernambuco, foi operacionalizar no fácil binômio cultura popular-folclórica + gêneros musicais hegemônicos, esquecendo que diversidade faz parte do reconhecimento da produção cultural que está na borda da tão almejada “qualidade”. A “music from Pernambuco” (esta que está nos boxes e nas coletâneas para venda em feiras internacionais) é uma embalagem higiênica e domesticada da pluralidade musical do Estado, feita quase sempre obedecendo padrões de diálogo com gêneros musicais hegemônicos nos circuitos de festivais e acionando uma identidade condicionada, erguida sob a égide do capital transnacional.

“A música da periferia não cabe na foto de políticas estatais, porque vaza ao controle de uma identidade higienizada.”

Sintetizando: o periférico aparece sob a máscara do exótico da cultura popular-folclórica, como nas imagens publicitárias institucionais que governos amam exibir como constituição quase fálica de poder. Mas qual o periférico que está nas margens destas propagandas institucionais? A música da periferia do Recife não é apenas o maracatu iluminado e museificado, não é o caboclinho com um riso fácil ou o afoxé de um carnaval de tambores silenciosos. A música da perferia do Recife é o brega romântico, rasgado, sexual e pernicioso. É a música dos Mcs, ídolos entre garotas, e das divas bregueiras, espelhamento de meninas, travestis, gays, drag queens. A música da periferia é a suingueira quase funkeada, o pagode radiofônico, o grito da cantora pop, o hip hop. A música da periferia não cabe na foto de políticas estatais, porque vaza ao controle de uma identidade higienizada. É, por si só, contaminada pela borda, pela sombra, por aquilo que governos querem não enxergar.

Lembro de uma conversa com a fotógrafa Bárbara Wagner, na ocasião da sua exposição “Brasília Teimosa”, composta por imagens provocadoras, estranhas e potentes de personagens do bairro, evocando um belo que atravessa matrizes hegemônicas do bom gosto, em que ela me dizia que tinha recebido críticas e sugestões para não expor aquelas fotos no exterior “porque aquilo não representava o Recife”. Neste tipo de crítica, pode-se observar aspectos éticos, higienizantes e normativos da política de reconhecimento de uma identidade por órgãos governamentais e também pelos habitantes. Percebo movimento análogo no que diz respeito à música. Na exclusão que se faz do brega nas políticas públicas de cultura, há algo de higienização identitária ou uma certa “cosmética” de um Estado. O brega, assim como os moradores de Brasília Teimosa das fotos de Bárbara Wagner, seriam escusos, “feios”, fora de um padrão constituído.

Eu quero falar do incômodo do brega na música pernambucana. Dos estranhamentos e dos “usos” deste gênero musical – que não entra em programações “oficiais” do Carnaval, muito menos em editais de fomento à produção. Ao brega, cabe a função autogestora, fora do guarda-chuva do Estado. Longe dos gabinetes, perto das ruas. Ao brega, cabe ser usado como fantasia carnavalesca, como música “para suar”. Música que habita a área de serviço, a cozinha e também o quarto de jovens nos apartamentos de classe média do Recife. O brega é música das “periferias” do apartamento. Nunca da sala.

“A música brega aciona uma dimensão política na medida que ‘força’ a classe média branca e parda do Recife a se deparar com o Outro.”

Aí reside sua política. A música brega aciona uma dimensão política na medida que “força” a classe média branca e parda do Recife a se deparar com o Outro. Este Outro, primeiramente exótico e estranho. Este Outro quase selvagem. O brega faz com que sejamos espectadores e ouvintes da nossa própria alteridade enquanto pernambucanos. É a música que aciona um outro padrão estético musical, tensionando normas clássicas de gravação, agindo no improviso, naquilo que não se reconhece como “de qualidade”. O brega, em suas levadas musicais, nos coloca diante de outras corporalidades possíveis: aquela que é negra, sem ser folclórica. Uma negritude que se constrói em diálogos com padrões midiáticos, viva, pulsante. A negritude do brega constrasta com a branquitude da plateia de alguns shows que ocorrem em bairros nobres do Recife. E também com os usos carnavalizantes do gênero por bailes e festas “descoladas”.

Cabe aqui pensar também o brega como gênero musical que se adequa a questões mercadológicas e se circunscreve em contextos culturais hegemônicos. O político sobre a música brega é aquele em que tensões, valores e hegemonias são colocados em perspectiva. Lembro da fala reducionista de um gestor público que disse que “brega é música que denigre a mulher, incentiva o sexo”. Há, naturalmente, canções desta natureza. Mas, reduzir o brega a isto é forçar uma ótica moralista ao invés de problematizá-la. Talvez o incômodo do brega seja o incômodo da nossa identidade. Daquilo que aparece e some. Do que queremos destacar ou esconder. E questionar.

Foto de capa do site: Bárbara Wagner, Brasília Teimosa.

Publicado originalmente na 6ª edição da revista Outros Críticos.

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Jornalista e professor da Pós-graduação em Comunicação da UFPE.

Um comentário

  1. 13 de março de 2015
    Responder

    O brega só o é quando tenta ser o que não é. Quando o brega se sabe brega ( Reginaldo Rossi, por exemplo) já vira outra coisa, outro gênero. O texto levanta uma boa discussão quanto ao esse “consenso higiênico” e hegemônico do que seja a cultura/música pernambucana, mas o autor parece confuso em relação ao “fenômeno” brega.

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