Impressões sobre o limbo

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Capa – Fotografia: Flora Pimentel; Corpos flutuantes: Cyro Morais e Renata Vieira; Ilustração sobre fotos: Rodrigo Peixoto; Projeto gráfico: Thiago Liberdade. Foto de capa do site: Flora Pimentel

por Carlos Gomes.

I – limbo emergiu,

Volto ao tempo em que o álbum limbo era uma obra em progresso. Releio com certa curiosidade o ensaio “do absurdo ao limbo” e investigo que expectativas eu tinha para o próximo disco da Rua. Eis um trecho: “Irmos do absurdo ao limbo (próximo disco da banda) será como propor um entrelugar estético para novas jornadas e experiências. As faixas pré-mixadas de limbo que chegaram até mim são recompensas para os ouvintes que souberam escutar o álbum anterior, em que escutar será sempre diferente de ouvir. Ouvir é um ato passivo, natural. Escutar exige luta interna; exige também uma jornada, uma retomada da liberdade criativa avessa aos rótulos e pré-disposições.”

II – não tem lugar,

Escutá-lo é considerar que estamos em Pernambuco e fazemos parte da música popular brasileira. Os desdobramentos sobre os rumos da canção brasileira que leio aqui e ali só confirmam que ouvir e escutar são coisas bem diferentes. A quem compete o lugar de cartógrafo oficial da música contemporânea brasileira? Os próprios músicos? A imprensa? O mercado? O público? O que significam, realmente, tais categorias? Não consigo escutar a Rua e não me animar a refletir sobre todas essas coisas.

III – inventa sua própria tradição,

“Crê-se na chamada ‘qualidade’ musical como valor absoluto, e não como valor relativo. Crê-se na canção como a única expressão sonora possível no âmbito da música popular. Exclui-se a dimensão propriamente sonora da ‘música’. Crê-se ainda na grande unidade nacional (“música brasileira”), que apesar de se referir diretamente ao país como um todo, toma como parâmetro os autores consagrados pela indústria, pela produção e pelo jornalismo culturais do sudeste. A única hierarquia possível é determinada pela invenção, e a invenção não é privilégio de um grupo social ou econômico.” – Bernardo Oliveira

IV – não adormece sobre rótulos,

“O ponto decisivo está na necessidade de separar MPB e música popular brasileira. Elas se misturam, mas não se confundem. A MPB pode estar esvaziada, isto é, pode não se apresentar com a mesma força de décadas atrás, mas isso não implica que a música popular brasileira, como um todo, esteja “pobre”. Há invenção, grandeza, diferença se manifestando sob várias formas, apenas essas formas não se apresentam reunindo as mesmas características da MPB, e portanto não se pode avaliá-las sob a sua régua.” – Francisco Bosco

V – requer tempo, distinto vocabulário.

Desconfio do que ouço, escuto, leio. Não acredito nos releases que chegam, que me dizem: “Seu som experimental mergulha a canção nordestina numa estética rock minimalista, com acordes que se diluem em ritmo e linhas melódicas e criam uma textura polifônica.”

VI – Portanto, limbo precisa respirar.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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