Iconili – Tupi Novo Mundo

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há muita coisa, boa e ruim, sendo produzida e com uma velocidade impressionante (tentarei me manter no campo do debate musical). a cada semana surgem novos “salvadores” e “ícones” dos mais diversos estilos musicais; é muito rápido e confesso que não dou conta de tantos apocalipses. essa hipervelocidade de re/produção perturba, bombardeia nossos sentidos de informações que não conseguimos assimilar. a velocidade da internet passou a ditar o ritmo da vida também fora do ciberespaço e essa ditadura, assim como a ditadura da felicidade, tornaram-se paradigmas. desde o lançamento do seu livro velocidade e política, de 1977, o intelectual francês paul virilio denuncia essa ditadura da velocidade: “nos anos 1940, se falava da aceleração da história; hoje, estamos diante da aceleração do real, da aceleração da realidade. Todos os setores da nossa civilização estão afetados pela aceleração do real. É uma evidência que ainda não foi plenamente reconhecida”, disse em uma entrevista.

é quase impossível para mim não  ter em mente a imagem do quadro saturno devorando a un hijo, do pintor espanhol francisco goya, onde saturno (chronos na tradição clássica) devora um de seus filhos. para além da análise de sigmund freud, que acreditava que a representação de um pai devorando um filho implicaria na revelação de uma impotência sexual, acredito em uma mensagem mais próxima da de hesíodo, que a seu modo nos conta como o tempo (ou a falta dele) devora a cada um de nós. e hoje, sem tempo algum para apreendermos informações e vivenciarmos experiências significativas, esse banquete do implacável titã parece cada vez mais real.

mas nem tudo está perdido. às vezes, no meio de todo esse corre-corre, acontece de sermos contemplados com algum ruído atraente em meio ao turbilhão de coisas arremessadas ao tempo. assim me aconteceu com malvina, a fase rosa,  marginalS, alexandre andrés,  phillip long e os queridos e competentes amigos do urucum, entre outros. e recentemente, ao ouvir o trabalho do iconili, eu soube que ali estava um grupo que merecia um olhar demorado e uma audição atenta.

o ritmo do afrobeat, criado por fela kuti na década de 70, remete à dança e por isso mesmo remete ao corpo, ao transe ritual, à conexão com pulsões primitivas e arrojadas, elegantes e selvagens. sempre me dá prazer parar para ler ou ouvir quando josé celso martinez correia fala sobre o quadril, sobre o poder dionisíaco do balanço e da força erótica dos seus movimentos, mesmo sabendo que não somos só isso. entrar em contato com a força motriz da liberação de forças de vida que são, por si mesmas, libidinosas, me faz ignorar todo o discurso racional [do métron e do lógos grego], e  é essa força que move o trabalho do iconili, intitulado tupi novo mundo e que poderia ser considerado um trabalho dionisíaco porque provoca dança, embriaguez e evoca a crueza do instinto festivo sem ter medo de ir além do cânone do afrobeat/afrojazz.

O Rei de Tupanga by iconili

sem escapar às comparações com os contemporâneos bixiga 70 e abayomy, o iconili se manifesta com vigor dentro desse cenário frenético da contemporaneidade, dialogando com pedro santos, mulatu astatke e com ritmos “brasileiros”, utilizando a fórmula da festividade e da comunhão dos corpos no desejo de movimento. essa relação entre dança e transe sempre me impressionou e inspirou. as cadências, as sutilezas em tentar desenhar no espaço – tendo o corpo como pincel – o que está além de letras e voz; o rodopiar constante e plácido dos dervixes, como planetas girando em torno de uma estrela, o passo a passo de manifestações corporais que muitas vezes não precisa que uma gestalt  as unifique em um sentido.

Mulato by iconili

o segundo trabalho do grupo mineiro é atraente não só pela mistura e exuberância de timbres e também visual, mas por se tratar de uma manifestação muito bem temperada de alegria e diversão sem esforço. tupi novo mundo indica que é preciso ter raízes, mas que a dança acontece no chão do agora; que é preciso lembrar de ebo taylor e najite angidotan, mas sem torná-los moldes, ampliando a proposta para se chegar a uma identidade e provocar ruídos nesse vendaval de “novidades” e informações que nos devora feito o saturno de goya.

por Jocê Rodrigues.

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Jornalista, escritor e poeta, autor dos livros "As Máquinas de Deus" (ed. Multifoco) e "Luna: o canto que também provoca maremoto".

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