Guia prático para a crítica cultural: cantoras

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Ensaio fotográfico de Carolina Rolim para o projeto gráfico do disco “Embalar”.

Sempre torci o nariz para as críticas musicais ou reportagens que atribuíam sempre às mulheres, fossem elas também compositoras, guitarristas, violonistas, arranjadoras etc, a categoria de Cantora, como se cantar resumisse a trajetória artística delas. Músico para os homens, Cantora para as mulheres, e entre uma e outra afirmação, diferentes nuances eram perdidas.

Tenho ouvido intensamente – e repetidas vezes – os discos Embalar, de Ná Ozzetti, e Todo Calor, de Isaar. O álbum de Ozzetti acaba de sair e retoma – se de alguma forma ela se afastou – as experiências musicais do Grupo Rumo, do qual ela fez parte. Canções como “Embalar”, “Lizete” e “Miolo”, reverberam uma concentração particular da estética que Ozzetti quer nos presentear com o disco. “Eis minha dádiva da vez/ enfim, se fez aqui com vocês”, afirma no arranjo-conversa entre as vozes, bateria e guitarra, principalmente. A economia dos arranjos, do ponto de vista da quantidade de instrumentos, com luz maior sobre a guitarra de Mario Manga, deixa o espaço aberto para a dicção e canto particular de Ná Ozzetti se destacar. Deixo aqui essa pílula de resenha, já que muito em breve publicaremos uma resenha sobre o disco dela.

As canções do novo álbum de Isaar ainda não foram lançadas, mas prometem aproximá-la ainda mais do cancioneiro brasileiro que tem na tríade: letra, melodia e harmonia a sua grande força. Cada vez mais pessoal, as letras de Todo Calor respondem – ou procuram responder – questões íntimas da artista. São ainda as minhas primeiras audições do disco, em breve também nos debruçaremos mais sobre ele, com entrevistas, resenhas e gravações inéditas…

06. Isaar – Casa Vazia by outros críticos

Além delas, aguardo com alguma ansiedade os discos de duas outras musicistas. Reconhecida por trabalhos com Kiko Dinucci e Metá Metá, Juçara Marçal deve lançar muito em breve o seu disco solo. Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer são alguns dos que devem colaborar com essa nova estreia. Sobre a apresentação de Juçara na Casa de Francisca em São Paulo, num show que precedeu esse álbum, o cantor e compositor Romulo Fróes escreveu: “A noite de ontem registrou um dos momentos mais marcantes da história da música popular brasileira. Quem esteve na fundamental Casa de Francisca, presenciou a confirmação definitiva do talento imenso de uma grande artista. Juçara Marçal cantou o repertório do primeiro disco […], acompanhada do incrível Thomas Rohrer e sua rabeca inclassificável e dos gigantes Kiko Dinucci e Rodrigo Campos […], se lançou no abismo sem rede de proteção, amparada por esses músicos/artistas incríveis, por um repertório inventivo, transgressor, inconformado, mas principalmente, por sua voz e seu canto únicos, inigualáveis. Uma hora apenas, sem descanso, sem refresco, sem tempo pra se recuperar, uma hora de arte em seu estado mais puro, uma hora que transformou a vida de todos que estavam ali”. O que virá da reunião voz, rabeca, guitarra, cavaco e o que mais couber? Promessa de um grande álbum.

Por fim, entre os tantos shows que vi em 2013, o de Aninha Martins no festival “A Noite do Desbunde Elétrico”, foi o mais surpreendente de todos. Assim como Juçara, encontrou na parceria com outras vozes e personas artísticas, o primeiro impulso para a criação. Muito se espera do primeiro disco de Aninha, e com razão, mas prefiro acreditar que as canções de outrem que ela já participou, as canjas que repetidas vez dá em palcos alheios, sua atuação como atriz etc., já façam parte desse álbum que em breve ela lançará… Para mim, a música já está aí, sendo construída, basta estarmos atentos aos múltiplos repertórios.

Elas são afeitas a isso.

Foto de capa: Juçara Marçal por Daryan Dornelles.

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Heterônimo. Assinou a coluna "guia prático para a crítica cultural" na revista e site Outros Críticos. Não era um guia.

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