Gatos e Alienígenas

Durante a infância, por algum motivo eu tinha pânico de seres do outro planeta. Não consigo dar uma definitiva resposta sobre o motivo disto. Talvez tenha sido a influêcia de algum filme, algo impróprio para minha idade. Lembro de ter assistido, na TV, o clássico Alien, de Ridley Scott, quando criança, durante férias da família em uma praia sergipana. Aquilo me apavorou tanto a ponto de um tio-avô meu, que assistia ao filme comigo, me consolar dizendo “isto não é real, é só um balão”. Percebo agora que retorno a uma memória de infância baseada no consolo de reencontrar as barreiras a respeito do possível. A ironia é que, hoje, meu ganha-pão se baseia em grande parte no contrário: em alargar os limites, através da linguagem, do real, bem como pensar os mecanismos que permitem esta amplificação. Meu problema, suponho, não era tanto o medo do fim do mundo, da conquista do planeta Terra por uma civilização mais avançada tecnologicamente. Eu tinha medo das abduções, um tema muito em moda nos anos 80/90. Para mim, o alienígena estava associado ao incompreensível, ao inumano, à fratura de uma ordem familiar que me proporcionava estabilidade e segurança. O alien surgiria da escuridão e do desconhecido.

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            “O que você quer?”, pergunto para um dos gatos que moram na casa da minha namorada.

Há pouco mais de um ano os observo.

Nas primeiras semanas da minha convivência com os bichanos, tanto eles quanto eu tivemos que aprender a nos entendermos. Não sou exatamente a pessoa mais conectada com o reino animal. Nem de um peixe dourado no aquário consegui cuidar direito. Minha irmã já teve alguns poodles, todos genericamente batizados de “Xuxos” (sim, para alguns seres cabe a dimensão trágica da vida). E foi só. Minha relação mais próxima com um gato vem de Mimosa, uma temperamental frajola cuja perspectiva negativa sobre a humanidade era traduzida por patadas, presas à mostra e aquele típico barulho do “ffffzzzzzz” que eles fazem quando querem ser deixados em paz. Mimosa morava na casa da minha avó, em Campina Grande. Ai de quem ousasse encostar nela.

Desta forma, assim que fui apresentado àqueles gatos, tratei de estabelecer uma linha divisória invisível entre nossos mundos. Aos poucos, no entanto, comecei a prestar atenção em alguns traços do comportamento deles. A quantidade e o tom de seus miados; as dezenas de lambidas no próprio corpo; as brincadeiras, que até hoje não consigo diferenciar bem das brigas (acho que nem eles conseguem ver a diferença, em alguns momentos); as diferentes personalidades de cada um. Por outro lado, hoje tenho certeza do quanto, no início de nossa convivência, me observavam de forma discreta, estudando cada um dos meus comportamentos. A motivação era clara: sou um visitante, um invasor do seu mundo.

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            Como bem apontam diferentes considerações de teóricos e escritores, o alienígena é uma extrema representação do desconforto com o Outro, com o Diferente de Mim. Neste sentido, o alien é uma metáfora política, servindo a diferentes perspectivas. Assim, em muitos casos o alienígena mascara perspectivas racistas e xenófobas, por exemplo. O alienígena também carrega em si uma lição de moral, mesmo que ela não seja enunciada explicitamente. Ele é um parâmetro de contraste. A partir do alienígena, podemos simular um distanciamento e tentar melhor enxergar a nossa própria sociedade humana. Sua face inumana é a de uma humanidade em estado puro, porque o alienígena é construído com doses concentradas dos nossos defeitos ou das nossas qualidades. Ao descer, como os deuses, dos céus, ele é ora o nosso conquistador, ora o nosso redentor. Nos dois casos, a humanidade frágil precisa se unir seja para lutar contra o Mal, seja para colocar suas diferenças de lado a fim de aprender os bons ensinamentos cósmicos e dar o passo seguinte.

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Edição brasileira do livro de Ted Chiang.

Além da Redenção ou da Destruição, outra dinâmica é encontrada nessas narrativas, a da Incomunicabilidade. Me refiro a uma experiência de alteridade tão radical que a própria possibilidade de comunicação entre Eles e Nós fica seriamente comprometida. Por isso fiquei tão fascinado pelo conto “História da sua vida”, de Ted Chiang, que resultou no tão comentado filme A chegada, de Denis Villeneuve. O conto de Chiang pode ser chamado de hard sci-fi, ou seja, uma narrativa na qual as bases científicas da especulação literária são trabalhadas com um aprofundamento que não encontramos em um filme de Star Wars, por exemplo. Um dos riscos do hard sci-fi é que o plano da especulação sufoque aspectos básicos da carpintaria literária, em especial a criação de personagens e metáforas complexos. Não é o caso de Chiang (e nem foi o caso do filme de Villeneuve). Há com frequência, na escrita daquele estadunidense, uma delicadeza no trato com os personagens, assim como uma atenção ao impacto que grandes eventos podem causar em pequenas vidas. Sua linguagem é simples, sem firulas, mas não se reprime quando é necessário abrir a prosa para uma dicção mais poética e sensível.

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            Fomos nos aproximando até o ponto no qual eles passaram a gostar de ser alimentados por mim. Não me ignoravam mais, nem evitavam a minha presença.

Pelo contrário, os gatos me davam cabeçadinhas, ou esfregavam seu dorso na minha perna, o que é um sinal tanto de afeto, quanto de “você é minha propriedade”, segundo algumas teorias (também pode significar a frase preferida deles: “tenho fome, quero comida”). Aceitei com maior tranquilidade a companhia dos dois, retirando um enorme prazer em observar seus comportamentos. Por mais seguros que estejam dentro do apartamento, tenho a impressão de que estão em constante estado de alerta. Isto se prova pelo modo como reagem a sons inesperados. Algo selvagem nos seus instintos permanece, claro. Quem sabe a desconfiança de que atrás da porta haverá um predador para devorá-los… Uma terrível intuição sobre a vida doméstica, não é?

Me surpreendi ao descobrir como são metódicos. Os dois gatos não reagem muito bem a mudanças na organização espacial do apartamento, além de cultivarem uma obsessão por portas fechadas, embora nem sempre queiram entrar nelas quando se abrem. As lambidas e cochilos são constantes. Ao longo do dia, gatos lambem a si próprios, lambem-se entre si e dormem. Em alguns casos, nos momentos de lambidas recíprocas, algum limite no carinho é desrespeitado e as brigas surgem onde um segundo antes havia somente afeto. Não faço ideia, aliás, se há algum sinal de algum tipo trocado entre eles, algo como “venha, pode me lamber agora” ou “pare, seu babaca”.

Um repertório de miados pode ser identificado. Diferentes tons, intensidades e durações significam diferentes efeitos que os dois gatos desejam causar em mim e na minha namorada. O som é complementado com olhadas e movimentos das caudas. Minha frustração reside no fato de que consigo formular uma ideia geral daquilo que eles desejam me comunicar, mas por outro lado nunca conseguirei decodificar tudo que eles pensam e querem me dizer. Por exemplo, existe uma dimensão vedada para mim: os cheiros, que eles usam a todo o instante para também comunicar suas perspectivas e necessidades.

Nossa amizade foi finalmente consolidada em dois momentos. O primeiro ocorreu quando Titi, a fêmea de pelo curto, lambeu várias vezes minha mão e meu braço enquanto eu, com sua permissão, porque Titi só gosta de carinho em situações muito específicas, lhe fazia um cafuné. O segundo momento aconteceu quando Bartô, o macho, mais felpudo e mais velho, olhou para mim, soltou um miadinho e, com um salto, se aninhou no meu colo.

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            Chiang vai mais fundo do que o filme de Villeneuve em relação ao abismo comunicacional que pode existir entre humanos e seres de outros planetas. No conto, a humanidade é subitamente visitada por naves espaciais e uma renomada linguista é convocada a participar de um grande projeto de cooperação internacional a fim de tentar se comunicar com os ETs.  Logo nas primeiras páginas somos apresentados aos alienígenas, seres parecidos com polvos gigantes, que usam uma linguagem para a comunicação oral e outra para a escrita. No entanto, à medida em que ela se aprofunda no deciframento da linguagem alienígena, sua visão da realidade se modifica e ela passa a entender o espaço-tempo de uma perspectiva não linear, não sucessiva: “a escrita pareceria um fantástico louva-a-deus desenhado em estilo cursivo, agarrando-se a si próprio e formando uma trama de Escher, cada um levemente diferente em sua posição. E as maiores frases tinham um efeito similar ao de cartazes psicodélicos: às vezes faziam nossos olhos lacrimejarem, ou até nos hipnotizavam”. O contato com a escrita alienígena abre à narradora as portas da percepção do passado, presente e futuro como uma única continuidade temporal.

O encontro da narradora com os aliens a deixa, como era de se esperar, em estado de choque. Após este impacto, se consolida o abismo comunicacional. Os esforços de decifração da linguagem alienígena são difíceis e o resultado final da pesquisa, lacunar. Perguntas não se deixam responder: quem eles são? O que fazem aqui? O quê desejam? Com o tempo, alguma forma de comunicação é estabelecida entre humanos e alienígenas, no entanto há uma barreira intransponível, uma opacidade estrutural. Se no filme temos uma explicação para a “chegada”, no conto isto não acontece. Do mesmo modo, no filme há uma maior decifração da linguagem dos visitantes, ao passo que no conto a consolidação do conhecimento linguístico acontece com menor sucesso. Chiang escolhe esta via porque seu conto deseja enfatizar o aspecto do desconhecido em nossa existência. Se existem corpos e sentidos produzindo experiências de mundo tão diferentes entre si, como poderemos nos compreender? Não vamos, explica “A chegada”. E tudo bem: é preciso abraçar o inexplicável, sem tentar possuir controle de tudo. Não é interessante o quanto na era na qual vivemos, de consumo intenso de informações e explicações, a literatura continue a elogiar o silêncio?

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            Dias atrás, acordei no sofá e observei Titi na varanda do apartamento, equilibrada em cima da grade. Ela se sentava sobre as patas traseiras e seu rabo negro abraçava, como se fosse um gancho, o próprio corpo. Volta e meia, movia as orelhas. O que ela observava? O Mundo Possível. Ela pensava? O que sentia? Gatos enxergam diferentes coisas do que nós; sua visão é mais panorâmica do que a nossa, por exemplo. De repente, a gata soltou uns miados esquisitos, porém não saiu do lugar. “O que você quer?”, perguntei. A luz do domingo, fria, recortava a sua silhueta. Ao fundo, prédios de diferentes tamanhos e a sugestão de uma formação rochosa, bem ao longe, uma sugestão adivinhada em meio às torres de concreto. Embora também os prédios estivessem na contraluz, era nela, em Titi, que a luminosidade aderia.

De repente, a gata silenciou, me deixando com uma curiosidade insaciável, a mente cheia de hipóteses. Faço barulhinhos, a chamo pelo nome. Titi me ignorou.  No Livro dos seres imaginários, Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero escrevem a seguinte frase misteriosa: “Dos gatos de Kilkenny, conta-se que brigaram furiosamente e se devoraram até não deixar mais que as caudas”. Com isso em mente, continuei, desajeitado e incompleto, observando sua absoluta presença.

Foto: Cena do filme A chegada.

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Escritor e crítico literário. Atualmente é professor dos cursos de Letras e Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Edita o site literário Vacatussa. No primeiro semestre de 2017, lançará seu próximo livro de contos.

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