entrevista: Siba

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Depois de lançar discos com o grupo Mestre Ambrósio e com a Fuloresta do Samba, entre outros projetos, Siba parte para a autoria solo nos discos Avante (2012) e De baile solto (2015). É possível encontrar a discografia completa do músico no site www.mundosiba.com.br. Foto: José de Holanda

A música percorre um caminho de inquietação e reverência à palavra e aos sons delirantes das ruas. As relações de poder contaminam os espaços com o desejo explícito de segregar o que não cabe no gesto, nas cercas, nas noções de normalidade. A rua é viva e sem centro. A música é marginal, anormal, louca e deslumbrante. No entanto, torná-la marginalizada com ares de Política Cultural é uma das maiores violências que se pode cometer contra ela.

Poeta. Mestre. Maracatuzeiro. Sem origem. Sem gênero. A música. O músico. Por que não? Alcunhas que incorporam a trajetória de Siba são reveladoras dos estados de transe e transitoriedade com os quais o artista dialoga.

Avante e De baile solto são criações ainda em movimento. É preciso ouvir o passado, distender o presente, investigar conexões, poéticas. O disco não pode ser lugar de origem nem de chegada, mas de passagem. As canções e sonoridades seguem em trânsito, em marcha, bailando, soltas, macias, cantando-dançando-delirando:

“Sai!
A gente brinca, a gente dança
Corta e recorta, trança e retrança
A gente é pura­ponta­de­lança
Estrondo, Marcha Macia!”  

 

Há dez anos a música “Marcha Macia” encerrava o disco ‘No baque solto somente’, lançado por você e pelo Mestre Barachinha. No mais recente ‘De baile solto’, uma outra “Marcha Macia” surge transformada sonora, política e poeticamente na abertura do álbum. Na inclusão de letra, de uma poética crítica, que mantém em seu cerne a estética pela qual sua música é reconhecida, mesmo ainda no período do Mestre Ambrósio, ou seja, na desterritorialização da música de rua de seus lugares normalmente marginalizados ou folclorizados. O que essas “marchas” têm em comum para você, como poéticas, ou mesmo se é possível fazer um diálogo entre esses dois momentos de sua trajetória, entre essas duas “marchas macias”.

A autonomia estética do Maracatu de Baque Solto é assombrosa. Tudo nesta tradição me parece afirmar com muita intensidade uma noção de distinção, uma consciência de diferença. Falando, cantando, tocando, dançando e também no modo de vestir, o Maracatuzeiro parece estar sempre dizendo “eu sou quem eu sou, e não outra coisa”.

Eu não nasci na Mata Norte. Como um típico cidadão classe média, nem deveria gostar de Maracatu, mas fui abduzido pela força expressiva do Baque Solto no meu primeiro encontro mais profundo com a tradição. Desde então, sempre me vi numa situação intermediária, onde faço parte de uma cultura marginalizada e isolada pelo preconceito folclorizante e ao mesmo tempo tenho constantemente oportunidades de intermediar canais de comunicação e encontros, da Mata Norte para o mundo e vice-versa. Nesta posição, sempre nutri uma crença, talvez ingênua, na força da beleza. Sempre acreditei que qualquer pessoa que se aproximasse minimamente do Maracatu e dos Maracatuzeiros seria passível de algum tipo de iluminação similar a que eu mesmo tive vinte e tantos anos atrás. Assim, boa parte do que produzi como artista até antes do De Baile Solto está repleto deste sentimento.

Porém, com o tempo fui aprendendo a enxergar de modo mais concreto as reais barreiras para um entendimento livre de preconceitos para as culturas orais no Brasil. Por aqui, qualquer traço de matriz africana e indígena, qualquer sombra de sobrevivência ibérica pré-industrial tem que se adaptar ao lugar de Folclore, suas formas de expressão se tornam “Manifestações” de um passado distante e seus representantes serão sempre prisioneiros deste tempo antigo, de onde é muito difícil levantar voz ativa no presente. Não é à toa que essa Babel que chamamos genericamente de “Cultura Popular” está sempre refém do Coronelismo e suas versões similares, raramente conseguindo elaborar um discurso mais afirmativo de enfrentamento. As estratégias da Cultura Popular são, quase sempre, adaptação e reformulação.

As duas Marchas Macias são mesmo uma só e afirmam uma mesma coisa, que está contida no refrão da versão mais recente.

Entre ‘Avante’ e ‘De baile solto’, ensaio como comparação, que no primeiro há um artista olhando para si mesmo para nesse movimento poder enxergar o mundo ao redor; já no segundo disco o caminho é o inverso. À medida que produzia o segundo disco solo – as letras, canções, arranjos etc.– havia em você uma necessidade de estabelecer relações com o que fez anteriormente, numa tentativa de não formular as mesmas soluções estéticas desenvolvidas em ‘Avante’?

O ponto de partida para De Baile Solto foi a necessidade de retomar intensamente a rítmica da música de rua como força propulsora. Eu havia precisado me exilar da Mata Norte, física e psicologicamente, para conseguir movimentar novas ideias, mas passei a sentir desde os primeiros shows de Avante que o distanciamento, apesar dos efeitos positivos, era um preço alto demais a pagar. Passei os três anos de estrada de Avante elaborando modos de reformulação rítmica do repertório e esse processo gerou o De Baile Solto, um disco entranhado na Ciranda, Coco e Maracatu, mas sem o compromisso com o formato tradicional que eu tinha com a Fuloresta. Ao mesmo tempo, a situação de desprezo e repressão ao Baque Solto me mostrava que a simples afirmação da beleza e vitalidade estética do Maracatu não tinha a força suficiente pra discutir sua situação de indigência social. Em outras palavras, De Baile Solto reformula a Fuloresta, com instrumentação desenvolvida a partir de Avante e texto mais condizente com a dureza dos tempos atuais.

No documentário ‘Siba – Nos Balés da Tormenta’, você fala que através da guitarra, em Avante, procurou se deslocar do lugar em que estava para buscar um outro caminho. O novo disco tanto sonora quanto poeticamente ainda parece contaminado por esse deslocamento. Olhando em perspectiva, aquela inquietação ainda permanece, mesmo que sob novo prisma?

O que me fez optar pelo caminho de artista foi um sentimento profundo de deslocamento espiritual, social e psicológico que já era forte o suficiente aos 18 anos de idade para me forçar a encarar alternativas aos modos de vida que o mundo me apresentava como possíveis em Recife nos anos 1980, aquela coisa de “vá ser engenheiro, advogado, administrador de empresa, pra poder bancar seu hobby de músico”… A mesma inquietação que me levou a assumir uma escolha profissional de risco me possibilitou atravessar barreiras sociais a ponto de me tornar um Maracatuzeiro “sem origem” (como alguns dizem na Mata Norte) e é ponto de partida de cada processo criativo que tento desenvolver. É no desconforto que procuro impulso pro movimento.

‘De baile solto’ foi lido majoritariamente pela crítica como um disco político, pois nascido diante dos embates contra a política segregadora do Estado, sobretudo pelos episódios envolvendo a restrição de horário das Sambadas de Maracatu, em Pernambuco, mas que simbolicamente abrange para questões políticas e culturais discutidas e vivenciadas em muitas das capitais brasileiras, sob o prisma capitalista, vide as reflexões sobre as cidades levantadas pelo Ocupe Estelita, por exemplo. No entanto, uma canção como “Será”, dos versos “Será que ainda vai chegar o dia de se pagar até a respiração?/ Pela direção que o mundo está tomando eu vou viver pagando o ar de meu pulmão”, lançada anos antes, já continha essa mirada crítica. Você percebeu uma diferença de tratamento – ou de recepção – entre as canções críticas dos discos anteriores e as do novo álbum?

Trocar a guitarra por uma rabeca em 1990, formar coletivamente o Mestre Ambrósio e inverter na música o jogo de forças entre a Cultura Popular e Música Pop, deixar São Paulo no auge da visibilidade e ir cantar Ciranda e Maracatu no interior de Pernambuco… Foram sempre posições políticas para mim. O De Baile Solto é apenas mais politicamente explícito e consciente, tem um tom mais duro e afirmativo, mas eu acho que tenho feito sempre a mesma coisa, a vida inteira…

A circulação de ‘De baile solto’ não está restrita apenas ao formato da Mini Desorquestra de Baile Solto e Rimas, formada por você, Mestre Nico, Leandro Gervázio, Antônio Loureiro e Lello Bezerra, mas também como “Siba Trio”. De que modo essas experiências têm transformado as suas canções em suas performances mais recentes?

A formação de Trio está completamente desvinculada da circulação do De Baile Solto. Tenho usado o formato reduzido para conseguir chegar a lugares mais distantes que costumam não ter orçamento capaz de bancar os custos de uma banda grande e equipe técnica. Também aproveito para fazer com o Trio casas pequenas, dialogar mais diretamente com um público reduzido, experimentar sínteses musicais e novas ideias, cantar material de discos anteriores. São poucas as músicas do De Baile Solto no repertório do Trio.

Depois de tantos discos lançados, você acredita que é preciso uma reflexão por parte da imprensa sobre o vocabulário que ela vem se utilizando para tratar sobre a música que você cria e com a qual também dialoga? Por exemplo, “Cultura Popular”, “Manifestação Cultural”, “Música Folclórica”, “Música de rua” (este usado por mim nessa entrevista). É muito mais o modo como cada uma é usada ou os preconceitos que os usos delas carregam em determinadas abordagens?

Acho que precisamos, sim, de um novo vocabulário. Boa parte das palavras que empregamos para tudo o que não classificamos como “moderno”, “urbano” ou “pop”, está repleto de preconceitos e ajuda a manter situações de exclusão que podem chegar a extremos, como o caso recente da repressão ao Baque Solto em Pernambuco ou ainda pior, se levarmos em conta as perseguições bem mais violentas nos anos 1930. Ao mesmo tempo, não se trata simplesmente de inventar palavras melhores, pois as palavras que vingam são quase sempre as impostas de cima pra baixo. Palavras velhas e ressecadas muitas vezes são apropriadas e ressignificadas, como o caso da palavra “folclore”, que na boca das pessoas mais velhas na Mata Norte quer dizer “situações em que um Maracatu se apresenta fora de contexto, para pessoas que não o entendem”. O que importa mesmo é o combate à distorção que essas palavras operam. Mais importante do que mudá-las é lutar por acesso horizontal à educação, combater o racismo e o machismo nos outros e em si mesmo, banir ou ao menos limitar o poder do Coronelismo e seus similares, discutir o desenvolvimentismo histérico e suas consequências.

A história da música popular brasileira é feita de memórias e esquecimentos. Muito mais do que a reprodução de cânones, de memórias controladas pelo lugar comum da criação artística; ao sua música persistir pelo desdobramento do que é marginalizado política e culturalmente, suas canções devaneiam sobre o que se quer fazer esquecer, como uma poesia acesa pelo silêncio. Como você acessa a memória na construção de suas músicas, sobretudo pelos temas abordados nas letras?

Lembrar algo é sempre esquecer outra coisa. Memorizar é sempre reinventar, pois nada existe no passado nem no futuro. Tudo o que a gente inventa pode já ter existido antes, nunca se sabe, então criar é reformular, recombinar. Não dá pra guardar tudo no juízo, principalmente no meu.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #10 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Leia mais: Siba: de baile solto, como ave de rapina, de Carlos Gomes. Repetir, variar, alucinar: entrecrítica sobre ‘De Baile Solto’, de Bernardo Oliveira.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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