entrevista: Rodrigo Campos

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A discografia solo do músico é formada por São Mateus não é um lugar assim tão longe (2009), Bahia fantástica (2012) e Conversas com Toshiro (2015). O mais recente foi produzido pelo próprio músico, com direção artística de Romulo Fróes, que assina a última faixa em parceria com Nuno Ramos. O álbum foi lançado com patrocínio da Natura Musical e em dezembro ganhará edição em vinil duplo pelo selo Goma Gringa. Fotos: José de Holanda

por Carlos Gomes.

É curioso que um dos heterônimos mais intrigantes de Fernando Pessoa, aquele que escreve no poema “Tabacaria” os versos: “Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à cara./ Quando a tirei e me vi ao espelho,/ Já tinha envelhecido”, tenha o mesmo sobrenome de nosso entrevistado. Tal coincidência se revela enriquecedora por Pessoa e suas máscaras-personagens, a exemplo da criação de Álvaro de Campos (ou Toshiro, no caso de Rodrigo), ter uma ligação íntima com a poética do compositor de canções-personagens-e-espaços, sobretudo nas invenções de sua ‘Bahia Fantástica’ e das ‘Conversas com Toshiro’ – seus últimos discos lançados –, onde “a fabulação é a meta, só que uma fabulação que busca revelar, talvez aí sim, revelar um rosto por trás da máscara”, como nos afirma Rodrigo Campos. Se as conversas com o personagem Toshiro buscam dar voz a uma “entidade do inconsciente”, com quem o compositor busca dialogar, um coro formado por Ná Ozzetti e Juçara Marçal foi incluído às conversas para incorporar essa outra voz, já que a solidão de seu canto não conseguiria sozinha revelar essa “entidade”. Pois bem, é nessa fusão de vozes, personas, máscaras, espaços, ficções e realidades, que a música de Campos circula e faz circular através dos sons arregimentados para o corpo de suas canções, elas próprias, espaços em movimento, repletas de eus e outros. Como um eu-Pessoa, um outro-Campos.

são mateus‘ e ‘bahia fantástica‘ são álbuns onde as canções são envoltas numa narrativa repleta de personagens, climas, caminhos, destinos, em suma, estórias (essas mesmas grafadas com ‘e’) que se cruzam o tempo todo. imaginar canções como narrativas a povoar um tema preconcebido, é por esse lugar que suas composições nascem de modo mais natural?

acho que começo um álbum sem saber exatamente que é um álbum. o que imagino que aconteça (pois é difícil mapear o próprio processo) é que em algum momento, depois de algumas canções, se dê a descoberta e, aí sim, eu comece a perseguir o tema de maneira mais consciente. não acho que seja uma ferramenta para alcançar alguma naturalidade forçada ou garantir algum tipo de rede de segurança, me parece mais um tipo de obsessão. isto porque alguns motes não se encerram numa só canção, aqueles que te interessam te levam a uma espécie de investigação, e a cada canção você descobre algo. aquele algo que é mais sobre o que a coisa te provoca do que sobre a própria coisa. daí em diante se torna quase um vício (a tal obsessão) sentir os “efeitos” das canções em si, viajar junto, criar e organizar (ou desorganizar) microcosmos particulares a partir de referências coletivas.

as canções de ‘são mateus’ trazem diferentes personagens que mapeiam – imagino eu – uma periferia simbólica e real, porque vivida por você, e ali reunidas sob o álbum são uma representação de um período decisivo em sua vida. começar por ‘são mateus’ e nominar tantas personagens tiveram que significado pra você na ocasião?

fazer o ‘são mateus…’ teve efeito terapêutico. foi uma espécie de permissão para pertencer a outros lugares. saí do bairro de um jeito muito caótico, quase sem me despedir, deixando muitas questões em aberto. à medida que compunha as canções fazia uma profunda reflexão sobre aquele período todo. uma pequena parte da reflexão foi pro disco, a outra ainda segue comigo numa elaboração perene.

mas falando de arte, e não tão especificamente sobre a vida, ali foi quando as canções ganharam sentido estético pra mim, onde consegui, pela primeira vez, amalgamar um certo número delas e, consequentemente, ter vontade de fazer um disco. o faro para a perseguição de um tema também se desenvolveu ali, com a investigação sobre minha infância e adolescência e com a catalogação e fabulação de histórias e personagens, o que me trouxe o primeiro vislumbre de um possível caminho próprio.

 photo rodrigo campos por joseacute de holanda - 3F0A2264_zpsksx58vlv.jpgseus discos são repletos de canções-personagens, como se com cada persona o compositor vestisse uma determinada máscara. as canções ‘brother josé, ‘lucia’, ‘isac’, ‘aninha’ e ‘elias’ são também retratos seus vistos de fora?

alguns desses personagens são reais, não diria que são máscaras, o são à medida que me influenciaram, como “isac” e “lúcia”, por exemplo, que são meus pais. a partir do ‘bahia’ acho que as coisas começam a se confundir mais, o limite entre realidade e ficção é cruzado efetivamente. os personagens do ‘são mateus’ são a busca pelo real, a própria fabulação do são mateus é acidental, é a fabulação da memória, quando a gente não lembra exatamente como foi e inventa. nos outros dois, não, a fabulação é a meta, só que uma fabulação que busca revelar, talvez aí sim, revelar um rosto por trás da máscara.

quando convida criolo, juçara marçal, luisa maita para cantar suas composições é por enxergar naquelas vozes um outro lugar para que a canção seja dita como a imaginou quando compôs?

acho que é porque comecei a cantar tarde, tinha muita dificuldade, e mesmo agora tenho limitações que acho que terei sempre. quando entram outras vozes, elas são capazes de acrescentar dinâmica, outras cores, criam movimento pros discos, que poderiam ser mais estáticos, monótonos, apenas com minha voz.

mas não acho que haja algum sentido mais profundo. as pessoas que cantaram nos meus discos, apesar de serem grandes cantores, eram pessoas próximas nas respectivas épocas de gravação dos discos. o que também não impediu de criar a sensação de que algumas músicas foram compostas especialmente pra aquelas vozes, como “mangue e fogo” com luisa maita, “sem estrela” com curumin, “ribeirão” com criolo e “jardim japão” com juçara marçal. mérito dos intérpretes.

conversas com toshiro’ é divido em duas partes: ‘amor e brutalidade’ e ‘paisagem na neblina’. em que momento da concepção do disco vocês sentiram a necessidade de agrupar as canções sob esse títulos?

a ideia apareceu durante a feitura da ordem do disco. tive muito uma sensação de montagem de filme nesse momento (apesar de nunca ter feito um filme), pois experimentei cerca de 20 ordens diferentes, e cada uma delas influenciava, definitivamente, a escuta do disco, mas sem, no entanto, mostrar o disco que eu queria ouvir. foi só quando o dividi em partes que o disco se encaixou e teve um sentido cronológico. dividi por sonoridade e tema, pois uma coisa levava à outra, inexoravelmente. ‘amor e brutalidade’ acolheu as canções com uma ligação com o soul, uma espécie de releitura do gênero que tentamos fazer, além de ser a parte mais erótica e brutal do disco, com personagens disformes e amorais. ‘paisagem na neblina’ abrigou o que penso ser a parte com temas mais nebulosos e existenciais, traduzidos também na sonoridade grandiloquente dos arranjos do marcos paiva, além dos três sambas, “chihiro”, “mar do japão” e “paisagem na neblina”.

as vozes de ná ozzetti e juçara marçal unidas no canto acabam por criar uma narrativa paralela dentro da própria narrativa das canções que você canta. ao mesmo tempo, tê-las cantando as letras e sendo as próprias vozes instrumentos em diálogo com os demais músicos, parece que a todo o tempo elas estão em conversa com você, ou ainda, suas vozes são as vozes de toshiro, com quem você conversa. essas vozes se fizeram presentes em que etapa da feitura do disco, e como imagina tê-las ao vivo, ou no show será outra a experiência, sem a necessidade de circular com a formação principal do disco?

juçara e ná entraram um pouco depois. comecei o disco me encontrando apenas com o cabral. tocava as músicas com os arranjos da guitarra já definidos e ele ia criando suas linhas de baixo. na sequência passamos pro trio, onde ficamos uns bons ensaios, eu, cabral e curumin (bateria), tocando as músicas e estruturando o disco. romulo começou a ir pelo quarto, quinto ensaio, pra assistir e dar retorno pra gente com suas impressões sobre as canções e os arranjos. depois de ter praticamente todos os arranjos com o trio, senti necessidade de mais elementos na gravação das bases, mas não queria mais instrumentos, queria começar mais cru, não queria definir a sonoridade, completamente, na gravação de bases. também senti que minha voz não estava sendo suficiente pra narrar aquelas letras, pois o disco todo era como se o inconsciente, ou alguma entidade que pudesse reger o inconsciente, estivesse falando. por isso pensei no coro, pra dar voz a essa “entidade do inconsciente”. mas a partir daí dei liberdade total a elas, esse foi o único briefing, elas assumiram o papel e criaram os arranjos por si só. gravamos a base com elas cantando ao vivo com a gente. no show penso em ter as duas, além da banda completa da primeira parte do disco, que inclui thiago frança e dustan gallas, além dos já citados.

entre seus discos ‘solos’ e os com o passo torto, o que da experiência com os outros integrantes do grupo fez você modificar ou refletir do seu lugar solitário de compositor e artista ‘solo’?

acho bonito o lugar solitário de compositor, e não compactuo com suas aspas em ‘solo’. acho as duas coisas legítimas, fazer disco solo e fazer disco em grupo. há uma diferença brutal, pra mim, entre uma coisa e outra.

agora, voltando à questão, acho que os discos com o passo torto me deram um novo caminho como compositor, me tornei um letrista melhor dentro do grupo. tive oportunidade de escrever diferente também, por conta do universo de cada parceiro. mas acho que me desenvolvi, principalmente, como instrumentista e arranjador, dentro de um processo de arranjo que criamos juntos, além de um resultado de arranjo que também criamos juntos. também sinto que o grupo tenha influenciado bastante meu trabalho solo, exatamente por isso os trouxe para o ‘bahia fantástica’ e para o ‘conversas com toshiro’, mas também sinto que continuei perseguindo algo que comecei no primeiro disco, antes de conhecer a turma, que importa e é como uma bússola apontando que o indivíduo e a identidade podem existir trabalhando em grupo nos discos solos e nos discos coletivos.

recentemente você participou do show ‘clube da encruza’, no rj, da ocupação quintavant, com vários desses parceiros. há em você alguma noção de pertencimento a grupo, movimento ou cena que abarque todos esses artistas, ou o ‘clube’ é uma consequência de outra espécie?

o clube da encruza é algo difícil de entender pra mim. somos pessoas e artistas tão diferentes um do outro e mesmo assim conseguimos fazer tantos discos e shows juntos. penso que esse olhar que distingue um movimento ou cena deva vir de fora, pois olhando do meu ponto vista vejo uma atração natural entre esses artistas, justamente por existir essa diferença toda, que faz que com a união seja algo original, inclusive em relação aos trabalhos individuais, o que justifica também a conciliação dos trabalhos coletivos e individuais.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #9 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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