entrevista: Matheus Mota

A presença de Matheus Mota na nova música pernambucana confirma o interesse da crítica e do público pelo entrecruzamento de linguagens. Artes Visuais, Publicidade, Quadrinhos e Música, muita música, de diferentes formas, sotaques, timbragens, permeia o trabalho de Matheus. A nossa conversa girou em torno do seu primeiro álbum Desenho, lançado em 2012.

por Carlos Gomes.

 

Os lançamentos de discos no circuito que conhecemos são bastante parecidos, com faixas no Soundcloud e disco para download gratuito em alguns sites e blogues. Mas você tinha planejado lançar o álbum Desenho (2012) de uma forma totalmente diferente. O que deu errado?

Ah, a falta de dinheiro próprio e poucos apoios momentâneos para as feituras gráficas. Contatos, principalmente, você sabe. As coisas se viabilizam muito pelos contatos que eu comecei a fazer mais a partir do lançamento do disco, as pessoas começaram a se interessar mais. Porque a ideia do disco Desenho seria um encarte em tamanho de vinil, com todos os aparatos plásticos, livretos e tudo mais… exceto o disco! No lugar dele, viria um papel com um QR code e o url de link e soundcloud para a pessoa ter acesso livre à música e pagar unicamente pelo material gráfico. Uma piada que divertiria, mas fica para a próxima. Não diria que deu exatamente errado. A força da difusão de entusiastas e amigos – e amigos de amigos – foi bem expressiva. A capa, que desde o início teve um valor igual às músicas (tanto é que foi lançada antes do disco sair, muitos meses antes) teve um destaque legal também, o pessoal gostou! O disco está saindo fisicamente em formato CD, pelo selo paulista Cloud Chapel, com o encarte completo, nas dimensões menores. Sinceramente, não tenho uma grande urgência por formatos físicos, exceto pelo vinil, que tem a qualidade legal e as artes gráficas grandes (dado o recado a interessados que queiram ajudar!). Outro dia brinquei dizendo que o meu segundo disco será a arte impressa com um cd-r virgem, as instruções e links num papelzinho, para o ouvinte baixar e queimar seu próprio cd. Esses tipos de ações e gags têm me interessado mais, ultimamente.

Em julho, você fez um show dentro do projeto “Outros Críticos convidam”. Na ocasião, além da música, a plateia pode ver os seus desenhos, suas peças publicitárias e ainda ouvir de perto sobre o seu processo de criação, tanto das músicas quanto dos desenhos. A melhor compreensão de sua música passa por uma percepção desses outros campos de atuação? O ideal seria ouvir e ver um show de Matheus Mota?

Apesar de perceber que, hoje em dia, muitas vezes música e imagem são linguagens que praticamente se confundem no universo pop, existem diversas formas do público experienciar meu trabalho. Além de apresentar uma variedades de “versões” do que eu entendo das coisas através da minha produção em vídeos, desenhos, literatura e música, e, eventualmente, esses suportes serem interligados; acho que cada caminho tem vida própria, um microcosmos. Eu ofereço, aos poucos, uma coleção de materiais que não precisam estar sempre conectados. É certo que parte do meu trabalho musical abre possibilidades cênicas, mas o ouvinte de um estado do Sul do Brasil não irá obrigatoriamente perder informações por não conseguir assistir uma apresentação agora. Ele irá experienciar isso em vídeos, ou construir as cenas em sua cabeça.

O show é também uma oportunidade de complementar a experiência de quem ouviu em casa, e, ao mesmo tempo, de apresentar uma nova óptica para quem tem a oportunidade de me ouvir explicando o sentido de certas letras, como fiz na Livraria Cultura. Não existe um sentido “final” para quaisquer interpretações dessas músicas, bem como cada pessoa tem uma área de captação de frequência auditiva diferente, logo todo mundo – todo mundo mesmo! – ouve qualquer música de uma forma diferente, naturalmente. E eu procuro estar ciente disso, do que o público pode ganhar e perder. Descobri, bem recentemente, que tocar ao vivo é legal. Naturalmente, vou procurar fazer mais isso!

Você chegou a montar uma banda em São Paulo e, agora em Recife, é acompanhado pelo Grupo Varal. Como foi a montagem dessas bandas? Elas revelam de alguma forma as particularidades da cena musical de Recife e São Paulo?

Isso é um muito interessante, porque o Grupo Varal seria uma banda paulistana. Eu tinha alguns projetos de discos engavetados, e, inicialmente, tive mais apoio em São Paulo do que em Recife. Entrei em contato com amigos que ora cursavam bacharelados ou licenciaturas em música, ou se preparavam para prestar vestibulares na área. Um pessoal bem mais jovem que eu – que tenho apenas 25 anos. Eu chegava com as composições prontas, muitas vezes com alguns arranjos escritos, a ideia emotiva e tudo mais. Mas, em retrospectiva, comparando com a banda atual, foram grupos extremamente diferentes, justamente por apresentarem “sotaques” diferentes, mesmo na execução de uma peça escrita que muitos diriam que soaria igual. Diferentes, porém igualmente legais.

Recife e São Paulo são duas cidades muito musicais. Cenas que já foram muito distantes, mas acredito que estejam muito próximas, quase primas. Talvez pelo assustado crescimento do Recife nos últimos anos, ou da cada vez mais crescente presença de pernambucanos em São Paulo, acredito que são contextos que não ficam devendo muita coisa um para o outro. Bandas muito interessantes que espero estar em contato. Me orgulho do Grupo Varal ser pernambucano, e gostaria muito que excursionasse por outros estados. É uma banda de faixa etária mais variada, com músicos mais jovens e mais velhos que eu. Alguns deles extremamente experientes e atuantes, tais como Tiago Barros (vulgo “marditu soundz”) na bateria, e o guitarrista Rodrigo Padrão. E que não ficam nada distantes do frescor e instiga iniciante do pessoal mais novo, como a querida vocalista e amiga Aninha Martins.

O álbum Desenho é bastante variado, com 15 faixas e algumas participações (apesar de você tocar a maioria dos instrumentos). Um pouco mais e você poderia ter um disco duplo. O excesso, no seu caso, é o que dá unidade ao álbum?

Apesar de apresentar bastante material, a preocupação inicial foi apresentar um “tradicional” álbum com 40 e poucos minutos de duração, de modo que a quantidade assusta, mas é um disco de duração comum. Gravei um EP em 2009 e lancei ao longo dos últimos dois anos diversos singles, mas sempre com a angústia de deixar “filhos órfãos”, canções soltas. Sempre busquei uma unidade através de séries, talvez pela influência marcante do meu pai, Eudes Mota, que é artista plástico e trabalha da mesma maneira. Ele traça uma meta, um conceito e produz uma série. Ao longo de um ano, aparece a série, resultando numa exposição. Então, o disco é isso, uma exposição, uma coleção de momentos. É claro que com a rapidez da internet e a perecibilidade do enorme conteúdo lançado diariamente, as pessoas tendem a preferir “ir numa exposição coletiva”, vendo um ou dois trabalhos de um artista, como ouvir apenas um single.

A cantora Aninha Martins canta em 4 faixas (destaques para “Cabeça” e “Profissional”). De alguma forma, as composições mais novas (e seus respectivos arranjos) têm sido feitas pensando nessa parceria?

Hoje em dia, certamente componho muita coisa pensando em Aninha! Porém, no passado, boa parte dessas músicas foram feitas num período em que eu sequer havia conseguido apoio de músicos em São Paulo. Digo isso porque o processo de tirar esse material pode ser tanto prazeroso quanto estressante para o pessoal do grupo. De um tempo para cá, passei a escrever mais para a turma que toca comigo, vislumbrando a participação deles, com a marca deles, as possibilidades deles. Aninha, por exemplo, não chega a cantar em “Avenida”, mas já imagino ela ao vivo, num coro bacana… “Profissional” tem um trecho solo em que cheguei a procurar diversas cantoras por achar que precisaria de uma cantora contralto, de tom mais grave. Hoje em dia não consigo imaginar a música não sendo cantada por Aninha!

O disco também conta com a mixagem e masterização de Roberto Kramer (integrante da banda Team.Radio). Vindo da experiência de lançar EPs e singles, o que necessariamente mudou nos seus discos com a contribuição de Kramer?

Kramer assistiu meu segundo show com o Varal, em maio, e começamos os contatos para produzir algo. A essa altura, Desenho já estava 90% pronto, mas sem a menor perspectiva de sair. Kramer foi um verdadeiro santo com sua paciência e dedicação, soube entender algumas das minhas ideias e ao mesmo tempo contribuir significativamente com suas texturas e frequências corretas, além de suas referências musicais para contribuir na mixagem. Um disco de orçamento bem baixo, mas que esteticamente acabou soando bem mais bem feito do que seria o original caseiro. Acredito que foi o primeiro long play que ele produziu… Um grande cara, que pretendo certamente trabalhar em álbuns futuros.

“Se Matheus Mota não der certo, vou sentir que a nossa geração falhou” (anônimo em mesa de bar). – Trecho de release escrito por Rodrigo Édipo. Algo te incomoda nessa frase? O que está nas entrelinhas dela revela muito dos impasses dessa nova geração de músicos, sobretudo aqui em Recife?

É uma frase bastante elogiosa, embora me traga um pouco de receio. Reflete muito bem nosso tempo, essa virada de século. A perecibilidade que eu citei anteriormente… Criar uma geração, forjar uma cena, tornou-se um trabalho de formiguinha, muito mais difícil que em outros tempos, eu acho. Apesar de todas as facilidades de se difundir conteúdo. O público deve suspeitar, com todas as forças, de nomes isolados que, do nada, aparecem como “a novidade” numa nota de jornal ou algo do tipo. Quem é esperto e tem contato com a internet sabe que a coisa não funciona mais assim, que o fato de alguém existir em grandes mídias não necessariamente represente um contexto de época, de geração. A internet nos mostra quem são os artistas bacanas, os caras de verdade. Então, essa frase acaba por me fazer concluir que, sim, existe realmente uma grande chance de muitas coisas que gostamos jamais serem conhecidas, pelo menos no que diz respeito às “mídias oficiais”. E é o que todo músico iniciante deve ter em mente. Você quer tocar para quê? Pra você, para o público? Você gosta mesmo de música, ou gosta mais de público? Sabendo que não existe mais a grande gravadora. Sabendo que, ainda que com tanto esforço, alguns músicos às vezes muito limitados garantem um lançamento garantido em todos os jornais, sites grandes, tudo com um puxar de gatilhos. Você vai continuar fazendo música? Eu gosto do que eu faço, mas também costumo mudar de atividades, quando dá vontade. E dar certo é algo bem relativo. Por enquanto, está tudo bem! Vamos em frente.

Publicado originalmente no e-zine ‘pq?‘, em dezembro de 2012.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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