entrevista: Alípio Carvalho Neto

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Foto: Rachele Gigli

Conheci Alípio Carvalho Neto em um concerto seu na Livraria Cultura em 2006. Foi um dos primeiros contatos que tive com este tipo de música. Lembro-me que, o que mais me marcou, foi a intensidade e a urgência que aquele cara tocava. Havia muita energia.

Seis anos depois, em 2012, Bruno Vitorino (Nebulosa Quinteto) nos comunica que Alípio estava vindo passar uma temporada em Recife e que iríamos fazer um concerto com a participação dele. Além da memória viva daquele som em 2006, Bruno e Márcio Silva (bateria) sempre falavam da música dele e de, no caso de Márcio, como havia sido tocar com o Alípio. Na mesma época o Mojav Duo, o duo de guitarra e bateria que tenho com Hugo Medeiros, estava fazendo uma primeira temporada de concertos no teatro Joaquim Cardozo. Em cada uma das datas, nove ao todo, teríamos a participação de um ou mais convidados em algumas das músicas. Aproveitei para chamar Alípio para fazer uma participação em algumas músicas de um destes concertos. Ele negou. Só aceitaria se fosse tocar o concerto inteiro!

Teria então a oportunidade de fazer dois concertos com ele, em grupos diferentes, em menos de uma semana. Dois que se tornaram três com o acréscimo de um lendário casamento de um de seus amigos, o Professor da UFPE Tsang Ing-Ren. O concerto com o Nebulosa foi muito bom. duas horas de som muito intenso com alguns momentos incríveis.  Houve um certo momento em que Cecília Pires, flauta, ficou em solo absoluto. O compositor Armando Lôbo disse-me, não sei se em tom de brincadeira, eu era um “neobarroco” etc. Isto ficou sempre na minha cabeça, tomei como um elogio vindo de um grande músico. O concerto com o Mojav Duo foi em quarteto.

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Mojav Duo, Luciano Emerson e Alípio C. Neto. Foto: Cecilia Pires

Chamamos também nosso grande amigo o saxofonista Luciano Emerson para tocar barítono. Foram dois saxofones, bateria e guitarra. Foi muito bom, música de alto nível. A primeira composição foi uma “suíte” de mais de 30 minutos onde misturamos músicas minhas, de Hugo e de Alípio. Após esses sons mantivemos um contato constante, nos falamos semanalmente sempre trocando ideias sobre todos os temas possíveis, com ênfase na música.

Mojav Duo + Alípio C Neto e Luciano Emerson – 01 – Areia Serena by Mojav Duo

No início deste ano de 2014 conseguimos organizar uma turnê de quatro datas na Itália e ao final desta gravamos o nosso primeiro disco em parceria com o grupo Alípio C Neto & Fred Lyra Casse Tet. O álbum contará com composições minhas e dele. A formação foi a de um sexteto com saxofones, guitarra, vibrafone, flautas, contrabaixo e bateria. Além dos três concertos com esta formação, fizemos um em trio com o mítico trombonista Giancarlo Schiaffini, um dos maiores nomes da música improvisada italiana e internacional, há quase 60 anos em atividade.

O que mais me impressionou tocando e analisando várias de suas composições foi a unidade linguística que elas possuem. São todas bem diferentes, mas possuem um embrião comum que une cada uma delas, do qual se parte para diferentes direções. Cada música sugere claramente o “modo”  com que deve ser desenvolvida e oferece infinitas possibilidades. Diferentemente do que ele afirma, eu escuto na sua música uma atmosfera imanente do sertão nordestino, uma ode ou uma outra visão deste. No palco o que mais impressiona é a sua capacidade de escuta. Não apenas como solista, mas como orquestrador. São inúmeras as formas com que ele se integra ao espectro sonoro, sempre de forma bastante precisa. Como solista ele consegue afirmar o seu estilo e linguagem em todas as situações musicais que participa. Além das frases rápidas e da forma com que elas se realimentam, do seu uso do espaço na música, destaco o seu domínio das técnicas estendidas do saxofone. Sobretudo no soprano curvo. Algumas que, até hoje, não ouvi nenhum outro saxofonista utilizar. A sua força e energia não estão nada próximas das tendências “lights” de poucos contrastes e sem dinâmica, “flat”, dominantes na música atual.

Alípio possui mais de 10 discos lançados com seu nome. Cada um com formação e propostas diferentes. Pessoalmente destaco os Wishful Thinking (2007), The Perfume Comes Before the Flower (2007) e Lilies for Ra (2013).

Abaixo reproduzo integralmente uma entrevista que fiz com Alípio C Neto especialmente para o Outros Críticos. Caso alguém tenha alguma dúvida ou comentário a fazer, incentivo a entrarem em contato comigo e com o próprio.

ENTREVISTA

Acho que é sempre interessante falar de como você chegou à música que faz atualmente. Seria possível fazer uma reflexão estética e conceitual, mas que também envolva a parte técnica e prática da música.

Eu cheguei à minha música de modo muito espontâneo e persistente, ao início, indisciplinadamente persistente, mas com uma constante atenção à necessidade de indagar aquilo que sabia e aquilo que precisava saber para responder ao impulso criativo. Ou seja, estudando muito e, um pouco por acaso e por autodeterminação, confrontando-me com os grandes artistas que encontrei, como Armando Lôbo e Marc Herold, entre outros, e com os quais colaborei e que me deram a medida do quanto eu era honesto com a minha própria linguagem. Daí surge o dever de imprimir uma verdadeira disciplina para que aquilo que fazemos possa ser apreciado, aquela “DISCIPLINE” sobre a qual falava Sun Ra:

[…] What I’m talking about is DISCIPLINE – that’s what people need. All of them need that. Instead of dissipating their energies and striving for things that will never be, they need to discipline themselves so they can do something beneficial for the people. (Entrevista a John Sinclair publicado no Ann Arbor Sun, 1 de Dezembro de 1966).

É preciso agir com coerência diante da necessidade de abrir-se ao conhecimento, dedicando boa parte da vida ao aprofundamento em áreas diversas, de acordo com o interesse pessoal e com o caminho que desejamos trilhar. Para isso, é preciso transformar o indisciplinado persistente em alguém persistentemente disciplinado. Disciplina com tudo que se faz, uma espécie de escatologia orientada para uma prática de iluminação, admitindo também aquela profane Erleuchtung (iluminação profana) benjaminiana. Quero dizer que se alguém é guiado por estímulos não convencionais ou pouco saudáveis deve integrá-los ao percurso de construção da própria identidade. Sem disciplina nem bom junky, nem bom atleta. Creio que existem caminhos múltiplos para a “iluminação”, o importante é percorrê-los com coragem e senso de justiça, de moral e de ética. Admito morais e imorais, mas não suporto amorais. O homem é um animal moral, além de político e sexual, isso pressupõe todo tipo de refração. Ausonius, Boccaccio, Aretino, o Marquês de Sade e Pasolini são bons exemplos. A sociedade de consumo tende, a meu ver, para a amoralidade como um modo de justificar o vazio da maior parte das posturas imparciais ou vacilantes, facilitando a instrumentalização dos seus conteúdos.

If Not Ecstatic We Refund (Alípio C Neto & Angelo Olivieri Double Trio “Guzman Project”) by Alípio C Neto

No que diz respeito ao aspecto estético e conceitual, seria impossível dizer tudo numa entrevista, mas posso resumir um pouco dizendo, mais uma vez, que a minha estética musical é a da condivisão com as diversas formas de manifestação da beleza que nos chegaram através da história e suas antinomias, incluindo a estética do feio, passando pela Aesthetik des Hässlichen de Karl Rosenkranz ao pensamento livre da estética cabocla de Ariano Suassuna. Tendo sempre em mente a frase atribuída a Picasso: “Depois de Altamira tudo é decadência”.

Quanto ao que chamas “a parte técnica da música”, o que tenho a dizer é que as minhas escolhas foram sempre aquelas que eu mesmo forjei, partindo, é claro, como toda a gente, no início, da imitação como método para aprender e usar os mecanismos de acordo com as decisões a serem tomadas. Quando estudei o Partimento Napolitano com o Professor Giorgio Sanguinetti aqui em Roma, descobri que, em outro registro, eu mesmo compunha utilizando técnicas que eram iguais ou semelhantes àquelas dos partimenti. Eu desenvolvia o gesto melódico sobre os baixos que escrevia antes memorizando e harmonizando-os depois. Os meus baixos, ao contrário daqueles napolitanos, não seguiam uma lógica tonal preestabelecida e rigorosa, com ricas e engenhosas variações em diálogo com as regras tradicionais do contraponto. Os baixos que escrevia seguiam a linha que ditava o meu ouvido como expansão de uma escuta interior atenta e que poderia conduzir a uma forma fechada, a uma forma aberta ou a uma forma mista. Basicamente, este foi o meu método, distinto apenas pela autenticidade das escolhas. Cada um faz as suas e depois vê se funciona, de acordo com as suas íntimas intenções. As minhas foram as que se transformaram em composições posteriormente gravadas, tocadas ou simplesmente depositadas em arquivo para ulteriores revisões e uso.

Existem improvisadores ou compositores que você tenha estudado mais sistematicamente (por um tempo determinado ou que continue no presente) dos quais tenha assimilado conceitos e linguagens? Há alguém que você esteja interessado ou revisitando no presente?

Sistematicamente estudei de modo privado ou institucionalmente: Monteverdi, Pergolesi, Corelli e outros contemporâneos seus. Estudei Bach, Carlos Seixas, Johann Mattheson, Beethoven, Bartók, Varèse, Messiaen, Slonimsky, Thelonious Monk, Charles Mingus, Charlie Parker, Dexter Gordon, Sonny Rollins, Sun Ra, John Coltrane, Ornette Coleman, Yusef Lateef, Oliver Nelson, Eddie Harris, compositores de Chôros, Pixinguinha, Cartola, Stravinsky, Satie, Giacinto Scelsi, Xenakis, Franco Donatoni, Denis Smalley, Simon Emmerson, Helmut Lachenmann, Wolfgang Rihm, Beat Furrer, Marco Stroppa, Armando Lôbo, entre outros, a lista é longa… Como saxofonista, revisito sempre, como um peregrino, como um beato, Yusef Lateef e Oliver Nelson. O primeiro como técnica e estética, o segundo só como técnica.

Você foi músico em três lugares diferentes: Brasil, Portugal e atualmente na Itália. Como enxerga essas mudanças em relação com a música? Há diferença na abordagem dos músicos de cada país? E na cena? E na música?

Certamente o que queres dizer é que eu vivi principalmente em três países distintos, três culturas diversas. Sim, é verdade, e enquanto estava em Portugal tive um período nos Estados Unidos, vivia entre Lisboa e Boston. Acho que em toda parte encontramos sempre os mesmos estereótipos, mas em condições sociais, econômicas, políticas e culturais diferentes. Há uma tendência em boa parte do mundo latino à desvalorização dos conacionais associada a uma xenofilia superficial (o que vem de fora é melhor etc.) e uma vertente de sequazes conservadores dogmáticos que pregam sobre o que é e o que não é música ou arte em geral, isto sem qualquer fundamentação estética ou confronto inteligente. Alguém que domina uma determinada técnica deve ter em mente uma coisa: a técnica que domina é aquela, mas é a sua técnica adaptada aos seus próprios artifícios? É mesmo sua, a técnica, ou está operando como um mamulengo segundo um comando externo?

O grande perigo hoje da didática musical, e não só, é aquele de separar o conhecimento da experiência. Quem sabe deve pedagogicamente auxiliar a quem não sabe a refletir sobre suas respectivas poéticas e as de seus contemporâneos. Enfim, em toda parte aprendi alguma coisa apesar das dificuldades. Músicos e “cenas” (talvez seja mais fácil explicar pelo obsceno do que pelo cênico), é quase a mesma coisa sempre, as mesmas dinâmicas, só que enquanto em um determinado lugar se começa a achar algo interessante, a descobrir algo como uma novidade, aquilo já se deu 10 anos antes em outro lugar. São dinâmicas internas. Alguns músicos precisam ouvir mais, comprar discos e livros, trocar ideias, tornar as suas vidas uma experiência intensa de conhecimento, aventura e prazer, tudo com grande disciplina.

Nestes 17 anos fora do Brasil, você tem acompanhado o que acontece no país e mais especificamente em Pernambuco? Algo lhe chamou mais a atenção?

Tenho acompanhado em parte e acho que algo mudou. Apesar de que a internet é ainda um privilégio de uma “elite” em escala mundial, segundo alguns dados oficiais, creio que facilitou um bocado o acesso à informação e comunicação. O problema é que nem sempre aquilo que se informa é inteligente ou útil, é uma consequência natural da democratização do uso da informação. Hoje os músicos podem saber mais, se querem, sobre o que se faz na outra parte do mundo e ao confrontar as suas experiências pessoais poderão filtrar aquilo que não interessa e debater sobre o que é verdadeiramente relevante.

Na verdade, o que mais me chamou a atenção não foi o que mudou, pois considero natural o surgimento de novas estéticas. Aquilo que me impressionou mais foi o que não mudou e parece que não muda nunca, apesar da minha infinita esperança depositada no Brasil. Falo da corrupção, do oportunismo político e dos saprófitos que orbitam não em função de um desenvolvimento real das políticas culturais, sociais e econômicas, mas em função dos interesses pessoais, do enriquecimento fácil e ilícito, através do favorecimento por razões ideológicas e pseudo-ideológicas. Enquanto existir tanta real desigualdade, pobreza e violência no Brasil, de nada servem as estatísticas com indicadores positivos sobre alguns aspectos da nossa economia. Estaremos sempre imersos numa espécie de barbárie causada simplesmente pela falta de vergonha e de coragem e eficiência administrativa para mudar aquilo que é necessário.

Por outro lado, não creio num político iluminado que possa resolver tudo de uma só vez. Creio que um político que tome as decisões certas agora, principalmente no que toca à educação, à realidade sanitária do país, ao nosso patrimônio natural e histórico, poderá pouco a pouco criar uma realidade de pessoas sanas e bem educadas, temperadas com aquilo que é ricamente típico da nossa cultura brasileira, o humor, a alegria, a ironia e a criatividade. Não se trata de transformar brasileiros em europeus, mas sim de dar-lhe as bases, enquanto cidadãos vítimas de uma altíssima carga tributária, para gozar as vantagens sociais dos contributos pagos, como em qualquer país verdadeiramente civilizado.

Muitos dos títulos das suas músicas fazem alusão ao sertão: Caatinga, Singularity (Sertão), Pajeú, Aboio. De que forma você entende a relação da sua música com o sertão? É ela sertaneja?

Não sei se entendi a tua pergunta. Uma coisa é óbvia, não é a minha música sertaneja, sou eu, de origem, o sertanejo. Eu nasci em Floresta, no Sertão de Pernambuco, apesar de ter vivido a maior parte da minha vida um pouco por toda parte. Sou orgulhoso do patrimônio que representa a cultura do Nordeste do Brasil, a história de coragem e insurreições de Pernambuco, e amo profundamente o Sertão como arquétipo cultural, ainda pouco estudado e divulgado de acordo com a dimensão grandiosa da sua cultura. Amo-o como amo a Grécia Antiga, a Andaluzia, a Toscana, o Friuli, o Alentejo e Lisboa, vejo o Sertão como parte dos limites fronteiriços do grande latifúndio que o Império Romano criou. Roma e Atenas são para mim capitais de grande Sertão cultural que nos chegou. Falo de Sertão como território onde convivem forças que se relacionam com a manifestação da própria vida, como fenômeno puramente biológico, e a construção de civilização, enquanto fenômeno cultural, estritamente humano. As minhas composições são modestas homenagens às memórias que tenho do Sertão, quem sabe um dia viverei lá. Gostaria de vê-lo mais amparado politicamente, menos sofrido e corrupto. Tornamos sempre aos mesmos problemas de quando se fala sobre o Brasil, faz-me pensar em Abolicionismo de Joaquim Nabuco. Parece-me que realmente tinha razão e que de um certo modo continuamos escravos de algumas instituições e de um modelo cruel de gestão das coisas públicas.

the pure experience – sertão (Alípio C Neto Quartet “the perfume comes before the flower”) by Alípio C Neto

O que você almeja transmitir com a sua música? E como descreveria sua abordagem como instrumentista, compositor e improvisador?

Desejo transmitir a minha versão de como se pode, em medida personalíssima, trabalhar o som como matéria poética. Considero-me, em sentido etimológico, um ativista melógrafo enquanto instrumentista, compositor e improvisador.  Há um belo poema de Szymborska que diz muito sobre como me sinto nesta tripla forma de ação:

 

Alla propria poesia

 

Nel migliore dei casi

sarai, o mia poesia, letta con attenzione,

commentata e ricordata.

Nel caso peggiore

soltanto letta.

Terza possibilità –

scritta per bene,

ma un attimo dopo gettata nel cestino.

Hai ancora una quarta via d’uscita allo sfruttamento-

scomparirai nonscritta

mormorando con gioia qualche cosa a te stessa.

 

traduzione di Irene Salvatori

 

Do własnego wiersza

W najlepszym razie

będziesz, mój wierszu, uważnie czytany,

komentowany i zapamiętany.

W gorszym przypadku

tylko przeczytany.

Trzecia możliwość –

wprawdzie napisany,

ale po chwili wrzucony do kosza.

Masz jeszcze czwarte wyjście do wykorzystania –

znikniesz nienapisany,

z zadowoleniem mrucząc coś do siebie.

 

Você trafega entre os territórios da música erudita contemporânea, improvisação livre e jazz. Como faz para soar fresco, autêntico e evoluir em cada um? E no todo? 

Penso que no fundo é um pouco a consequência de um compromisso, de um estímulo, é o resultado de uma constante pesquisa. Todo músico, aliás, todo artista, segundo a minha visão da questão, deve procurar manter este voto selado com a descoberta e a renovação dos próprios modelos e certezas, se é capaz de fazê-lo. Esta relação entre a música clássica contemporânea, a música improvisada e o jazz para mim é um percurso natural, pois creio, em geral, numa unidade, ou melhor, numa integração e intercâmbio entre gêneros considerados divergentes.

Quando identificamos o eixo sinergético da ação criativa, reencontramos uma espécie de relação paradisíaca com a poética musical. Como disse antes, acredito que  a linfa que anima a música do Sertão do Nordeste do Brasil é a mesma que move o compositor contemporâneo em Berlim, o improvisador em Roma, as ciaramelle e as gaitas de fole do Abruzzo ou as launeddas e os cantos da Sardenha. O segredo, caso exista um, creio que seja aquele de saber parar, de respirar e depois continuar para fazer reciclar a linfa. Os índios brasileiros, ainda hoje aqueles da floresta amazônica, ou os homens do deserto, ambos nos ensinam o milagre do nomadismo e da regeneração. Não podemos ficar para sempre num mesmo território, pois pode levar ao esgotamento dos recursos disponíveis. Devemos mover, mudar, caminhar em outra direção para encontrar um novo locus amoenus.

“[…] o desejo de eternizar-se de alguns protagonistas nas chamadas “cenas” artísticas, estimulados pelo mercado da arte e pela ambição de alguns agentes culturais, pode levar à esterilização do sopro poético.”

Assim, o território se renova e o espaço pode ser ocupado por novos personagens que o desfrutarão da melhor maneira. Acho que ultimamente o desejo de eternizar-se de alguns protagonistas nas chamadas “cenas” artísticas, estimulados pelo mercado da arte e pela ambição de alguns agentes culturais, pode levar à esterilização do sopro poético. Ao tédio já chegamos. A música é movimento, a musica é por natureza nômade. Eu não sou budista, mas aconselho aos músicos uma leitura de um clássico do Budismo Tibetano, o “Bardo Thodol” (“Livro tibetano dos mortos”), para que possam compreender a transitoriedade de todas as coisas e que assim possam permitir que seus artifícios renasçam livres de prisões psicológicas e estéticas. Os elementos precipitam-se uns nos outros e reencontram a unidade primordial. Como escreveu um dos meus poetas alemães de predileção, Novalis (Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg): Regeneration des Paradieses (Regeneração do Paraíso). Pois ele, o Paraíso, está igualmente distribuído por toda a terra e por isso ter-se tornado tão desconhecido. O Paraíso tornou-se excessivamente fragmentado. Esse talvez seja o segredo para soar fresco e autêntico e para que a música clássica contemporânea, a música improvisada e o jazz se mantenham minimamente interessantes, evoluindo como práticas globalizadas que encontramos em qualquer parte do planeta.

Qual a sua relação com as outras artes? Como elas complementam a sua música?

Creio que existe só uma arte e diversas formas de expressão. Sou um monoteísta, um leitor de Epicuro, de Plotino e de Spinoza, de textos sagrados e profanos. A minha música é o produto desta vivência cotidiana em diálogo com a realidade prismática das expressões que me circundam. Procuro fazer com que a minha música através do meu esforço e do meu artifício completem a “Grande Arte”,  e não ao contrário. Na verdade, é uma questão ontológica de inserir-se por completo no invisível da decifração sensível da vida, da existência.

“[…] vivemos uma espécie de mal-entendido quanto ao papel de intercessor do Estado na música e nas artes em geral.”

Existe papel para esta música na sociedade e sistema atual? Como você vê a relação entre o trinômio: Músico – Estado – Iniciativa privada.

Acho que vivemos uma espécie de mal-entendido quanto ao papel de intercessor do Estado na música e nas artes em geral. Creio que o Estado deveria regulamentar a tutela dos direitos dos artistas de modo mais eficaz e em raríssimos casos financiar os artistas, como vemos um pouco em toda parte. Isto tem criado uma rede de influências nociva para o patrimônio público, uma espécie de ciclo alimentado pelo oportunismo e pela ganância de certos agentes culturais intermediários. Creio na justiça, creio em um Estado de Direito e, por consequência, para mim o que falta aos artistas é um amparo legal concreto que traga estabilidade para viver e continuar criando, o contrário do enriquecimento rápido que habitualmente vemos.

Deve ser dado aos artistas as condições básicas, como a todo trabalhador, de poder sobreviver com dignidade da sua profissão. A produção que visa o enriquecimento da máquina do entretenimento deve se auto-financiar, é assunto para a iniciativa privada. Não quero dizer que a iniciativa privada não possa apoiar aquilo que necessariamente não deleita as massas. Pelo contrário, sou completamente a favor do príncipe iluminado, do Mecenas que financia o gênio artístico. Sou contra o Estado financiar com recursos públicos o que move interesse privado, quando professores ganham mal e hospitais não funcionam como deveriam. Isso acontece no Brasil como na Itália, além de ser um lugar-comum em países que transformaram a corrupção em uma característica de sua identidade cultural.

Além de músicos, somos pesquisadores. Você poderia falar um pouco sobre o seu tema de doutorado? Poderia compartilhar alguns dos resultados que está obtendo? Além dos conceitos que está desenvolvendo?

Estou trabalhando sobre a obra de Giancarlo Schiaffini. A Música Livre de Giancarlo Schiaffini é o título que dei ao meu trabalho. Comecei os meus estudos concentrando-me nas experiências de vanguarda em Roma nos anos 60 e 70. Para isso, decidi estudar outras experiências de improvisação na história da música. Dediquei um ano aos estudos do Partimento Napolitano com o Professor Giorgio Sanguinetti para entender uma certa formamentis que, de certo modo, chega aos improvisadores de vanguarda, através das semelhanças entre suas respectivas estratégias para a construção do discurso sonoro.

Um outro ano, passei estudando a música contemporânea e eletrônica na Itália, principalmente, como disse antes, o caso romano. Frequentei  os seminários em Sonic Arts na Universidade de Roma 2 “Tor Vergata” e no Conservatorio di Santa Cecilia com os Professores Giovanni Costantini, Riccardo Santoboni e Giorgio Notolli. Tudo isso avançava simultaneamente com o aprofundamento da minha pesquisa sobre o Free Jazz italiano em geral, e, mais particularmente, o GRFJ (Gruppo Romano Free Jazz), a música improvisada, o MEV (Musica Elettronica Viva) de Alvin Curram, o GINC (Gruppo di Improvvisazione di Nuova Consonanza), o Nuove Forme Sonore de Giancarlo Schiaffini, a colaboração entre Domenico Guaccero e Mario Schiano, o jazz no Conservatorio di  Santa Cecilia e na Scuola Popolare di Musica di testaccio.

Concentrei-me em Giancarlo Schiaffini, por se tratar de uma figura central que frequentou o amplo espectro da experiência musical nos anos 60 e 70 e que é ainda hoje ativo e criativo. Um grande músico. A experiência italiana é das mais importantes e ricas em todo o mundo durante aquele período, e Roma é o centro para onde se transferiram artistas de origens diversas. Os estudos nesta área são escassos. Recentemente, saiu uma excelente publicação de Giovanni Guaccero (Limprovvisazione nelle avanguardie musicali Roma, 1965-1978, editado pela Aracne em 2013), que tive a honra de ser convidado para apresentar, novembro passado, na Accademia Romana di Musica.

“É preciso que a Itália, como o Brasil, trate melhor o seu patrimônio cultural.”

Em geral, se fala pouco da Itália, ou quando o fazem, falam sempre dos mesmos personagens, aqueles conhecidos do grande público do jazz europeu como Rava, Gaslini e Trovesi. Esquecem-se de tantos outros músicos que prestaram uma contribuição essencial tão importante ou mais do que aquelas das grandes vedettes da história do jazz nacional. Neste caso, Schiaffini é uma personagem fundamental que se fosse americano, inglês, alemão ou francês, teria uma atenção maior tanto das academias como dos programadores culturais. É preciso que a Itália, como o Brasil, trate melhor o seu patrimônio cultural.

Como disse antes, Giancarlo Schiaffini é para mim um músico completo que frequenta com dignidade e honestidade estética a música em amplo espectro. É um executor que trabalhou com Nono, Cage e Scelsi, entre tantos outros, e como tal, contribuiu para que suas respectivas obras ganhassem vida e se transformassem quando era necessário imprimir personalidade e gestos aleatórios, por exemplo. É um compositor que tanto em âmbito dito “culto” ou “clássico da música contemporânea”, assim como  em território jazzístico, seja tradicional ou de vanguarda, deixa-nos uma marca inquestionável de originalidade. Muito do que se vê hoje no jazz contemporâneo e que consideramos “novidades” do ponto de vista experimental, já havia experimentado Schiaffini contemporaneamente aos americanos Anthony Braxton, Steve Lacy e George Lewis, só para citar alguns que transitavam  entre composição e improvisação.  É também um arranjador que trabalha de modo inteligente e com grande habilidade ao aproximar-se de George Gershwin ou do veneziano Giovanni Gabrielli. Contudo, é acima de tudo um grande improvisador, por isso executa e compõe com maestria.

“Improvisar é a atividade que goza amplamente da total liberdade, pois não precisa sobreviver da mera reprodução como faz o intérprete (stricto sensu) ou da tentação de permanecer, de durar e ser útil do operar do compositor como homo faber. “

 

Na minha análise da sua música, falo da minha tese de Doutorado (PhD), uso o pensamento da filósofa Hannah Arendt para interpretar a tripla ação de Schiaffini enquanto executor-compositor-improvisador. Para Arendt, o homem livre é aquele que se manifesta na ação sublime do discurso e que se emancipa politicamente por não depender a sua vida do trabalho fundado sobre a mera necessidade de sobreviver. A música de Giancarlo Schiaffini transpõe a dimensão livre do discurso político ao qual se refere Arendt,  para a dimensão livre do seu discurso sonoro. Improvisar é a atividade que goza amplamente da total liberdade, pois não precisa sobreviver da mera reprodução como faz o intérprete (stricto sensu) ou da tentação de permanecer, de durar e ser útil do operar do compositor como homo faber. Improvisar é o feito maior, é autotélica, aparece e desaparece para se tornar mito, silêncio e memória.

O que pretende e almeja fazer e desenvolver musicalmente após o doutorado? 

Música, como sempre. Praticar, tocar, compor, ensinar e pesquisar. Se houver tempo, voltar a estudar matemática. Em 2012, enquanto estudava música eletrônica, tive de tornar aos estudos de física e matemática e descobrir que quando resolvia uma equação desfrutava do mesmo prazer que tinha ao ler Arquíloco, Gilberto Freyre ou os Upanishads, ou de contemplar um Pinturicchio ou uma estátua de Bernini. Mas principalmente, passar uma temporada de mar e Sertão, perto da família, como já não faço há alguns anos.

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Fred Lyra Por:

Musicólogo e doutorando em filosofia na Universidade Lille 3.

2 Comentários

  1. 1 de fevereiro de 2014
    Responder

    Parabéns Meu amigo Fred Lyra pelas inteligentes e perspicazes perguntas. Ao entrevistado, Alípio C. Neto, Meu fraternal abraço de reconhecimento pleno, pelo clínico olhar e analises. Muito me alegra poder contemplar a existência de nobres homens, verdadeiros dignatários da cultura Ser-tânica do mais de-dentro dos confins etéreos, da essência em desabrocho, de nossas plagas, por todas as trilhas, veras vias…Desfrutarem de tão bom senso supra-temporal analítico. Ricas reflexões, instigantes estímulos vindos de além ventos d’ocidente… Coisa extremamente nossa, por direito e legalidade, a nós inferidos, por força maior. Tendo a Rés Pública profanado o sagrado templo das virtudes, urgente se faz, esse soerguimento consciente das fontes referenciais. Para finalizar mui brevemente e sem demoras, um desesperado e sincero pedido: Essas entrevistas poderiam ser: Quinzenais; Mensais… Em fim, essa chama tem que se manter acesa através da luz da lembrança. Re-lembrar é o único antídoto que temos Pós- Lethe’s… Avante!!!

  2. 4 de fevereiro de 2014
    Responder

    Ótima entrevista; o músico, que conheci quando escrevia poesia, demonstrou maturidade e conhecimento – sem esnobismo. Parabéns pelo site.

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