E o que me fez morrer, vai me fazer voltar

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O disco foi patrocinado pela Natura Musical e idealizado e produzido pelo músico Guilherme Kastrup. Participaram Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Felipe Roseno, Celso Sim e Romulo Fróes mais os compositores José Miguel Wisnik, Cacá Machado, Clima, Douglas Germano e Alice Coutinho. Foto: Fábio Piva/Red Bull Content

por Rafael de Queiroz.

Não há exageros ao se afirmar que A Mulher do Fim do Mundo (2015) já nasce essencial. Visceral, impacta; a originalidade, surpreende. Não há como passar batido, despercebido no rio lamacento, e claro, insosso, que banha a MPB mais tradicional. Sendo um ícone do gênero, nos seus quase 80 anos de idade, Elza Soares poderia estar lançando um disco de grandes sucessos do samba, regravando, escorada numa preguiça comum dos consagrados, ou pior, interpretando novos artistas que nada contribuem para uma renovação da música brasileira, mas que são vendidos como tal com toda a força dos seus jabás.

Exceções existem, tal qual Caetano Veloso lançando o (2006) e seus subsequentes que fecharam uma trilogia que retroalimentou sua carreira e estilo. Mas, talvez estejamos diante de algo que vai além, onde a canção crítica atinge seu ápice. Guitarras distorcidas e barulhentas, num ritmo de um samba estranho, narram um mundo perto do fim, em que Elza não abdicará de cantar. Os subalternos, aqui, são os protagonistas e detêm o direito de fala que lhes sempre fora negado: a mulher, a/o negra/o, a/o transexual, a/o que vive à margem.

O que deveria ser distópico é o real, como as ruas esvaziadas de pessoas e significado em “Luz Vermelha”. O que era pra ser velado, está escancarado, como o sexo em “Pra Fuder”. “A Maria de Vila Matilde” nunca mais aceitará os abusos de qualquer homem que seja, e avisa: “Ai de você se levantar a mão pra mim”. “Benedita” é uma travesti, traficante, homicida e bendita, uma Madame Satã, a anti-heroína que nos amedronta e nos excita, quebrando a narrativa clássica maniqueísta e nos obrigando a admirá-la. “Seja marginal, seja herói”, como já nos provocava Oiticica. Tudo isso construído com uma linguagem que também abarca palavrões e gírias, algo que “não soa bem” para uma senhora idosa, como no afrobeat “Firmeza”.

O teor das letras e os arranjos dissonantes profetizam o apocalipse de um mundo que assiste, cada vez mais, a avanços de pensamentos conservadores, para não dizer fascistas. Morrer para renascer. “Deixa a chuva que derruba o céu/ lavar”, espera, em “Dança”. E Elza Soares renasce, depois de seis décadas de ofício e 34 discos lançados, ousando muito mais que artistas em começo de carreira. Ela não é mais somente a intérprete de sambas da voz rasgada, um museu ambulante no pedestal da tradição. Elza é criação em sua essência, que dá a cara a tapa ao invés de se proteger cantando trilhas sonoras de novela, vindo agora, como lava, destruindo tudo à sua frente que represente o arcaico e o hegemônico.

Para enfrentar essa cruzada, a cantora juntou-se aos mais profícuos músicos e compositores de uma cena paulistana que vêm ressignificando a canção e descaretando o compasso, como os integrantes de bandas como Passo Torto e Metá Metá. O disco, que foi produzido por Guilherme Kastrup, tem a direção artística de Romulo Fróes e Celso Sim e ainda Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, entre outros, completando o núcleo criativo.

O encontro entre a cantora e esse grupo de autores ocorreu durante o show de lançamento do disco EslavoSamba (2011), de Cacá Machado, onde dividiram o mesmo palco e surgiu o embrião do projeto. Foi um trabalho muito específico, pensado exclusivamente para a cantora, em torno de temáticas como negritude e sexo, da maneira que ela pediu. Ao todo foram 50 canções compostas e 11 escolhidas para compor o álbum. Apesar de ser intérprete, o disco soa personalíssimo, mostrando como a produção teve o cuidado de traduzir em canções sua vida tortuosa e sua persona ousada.

Dessa forma, a música “Solto/Comigo” é exemplar ao falar sobre perdas – já se foram cinco dos seus nove filhos – e um corpo negro e torto, pois devido a um problema de coluna ela é obrigada a se apresentar sentada. Acompanhada de um arranjo de cordas, Elza Soares entoa seus versos com a voz mais rouca do que antigamente e cansada pela idade, transformando isso em uma qualidade e ajudando a transmitir o sentido da letra mais intensamente.

Assim, o álbum carrega uma novidade e uma potência raras na nossa cansada música popular, ajudando a abrir espaços para escoar algumas das produções mais interessantes de uma nova geração de autores e trazendo de volta à vida grandes intérpretes que por ventura tenham se perdido no caminho. Apresentando uma grande relevância estética e política, o novo disco de Elza Soares pode ser o prenúncio de uma nova era na música brasileira.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #10 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa: Stėphane Munnier

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Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

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