Diálogo I com Daaniel Araújo: para ser um artista revolucionário é preciso deixar de ser artista?

Diálogos é uma série de conversas realizadas com personalidades pensantes. O texto de abertura é um papo que eu tive com o artista plástico, músico e designer, Daaniel Araújo. A ideia central do projeto é subverter os posicionamentos estabelecidos nas entrevistas usuais, em que o entrevistador faz as perguntas, mas não responde, e em que o entrevistado responde às perguntas roteirizadas pelo entrevistador, mas não pergunta. Dessa maneira, uma questão é lançada no início do debate para direcionar a conversação, mas depois, os rumos que se seguem variam a partir das deixas dos debatedores. O primeiro questionamento foi inspirado num dos diálogos do filme de Godard, One Plus One: para ser um artista revolucionário é preciso deixar de ser artista? Através dessa interrogação é possível começar a contextualizar o debate proposto. Enfim, aproveitem o bate-papo que segue abaixo, entre mim e Daaniel Araújo:

Daaniel Araújo

Eu acho que é importante tentar passar uma imagem direta, porque você vai ter que se aproximar das pessoas para conseguir ser revolucionário. Ser revolucionário, eu acho que mexe com essa questão de estar fazendo uma coisa que as pessoas percebem que tem novidade ali. E elas entendem. Conseguem assimilar. Seria como estar em uma fronteira. É muito difícil você estar em uma fronteira se as pessoas não entendem o que você está fazendo. Simplesmente vão achar que é mais uma loucura. Uma coisa qualquer que apareceu. E não vão entender que é uma coisa revolucionária. Eu acho que você precisa sim, deixar um pouco de ser artista e escutar opiniões, ver o que o momento está pedindo, o que é que passa na TV, o que é que está fazendo a mente das pessoas. Deixar, um pouco, dessa história de ser só suas ideias, suas coisas, para tentar ter uma postura mais coletiva. Nesse sentido, precisa deixar de ser artista.

Ricardo Maia Jr.

Eu acho uma ligação bem problemática, ser revolucionário e ser artista, ao mesmo tempo, porque estamos presos ao mercado, a essa questão da sobrevivência. Como é que um artista sobrevive, hoje em dia? Antigamente, existiam os marchands e, bem antes, o artista estava atrelado à corte, à religião, sempre próximo a alguém que financie isto, que dê dinheiro para o artista produzir um produto que não tem retorno financeiro seguro… Não que a indústria cultural não tenha retorno, mas a arte quando se torna revolucionária, ela traz outro tipo de benefício. Um benefício mais no sentido da educação, de transformação da criticidade. São outras formas criativas e outras possibilidades estéticas.

Daaniel Araújo

Em Recife, tem pessoas que fazem uma crítica massa. Paulinho do Amparo mesmo sempre está fazendo críticas interessantes. Outro bom exemplo foi aquela exposição de Gil Vicente que retratou o Governador, a Rainha, em imagens de violência e assassinato. Aquilo mexe forte com a política. E essas pessoas nunca pararam. Acho que tem tudo a ver a pessoa tentar fazer isso mesmo, porque é uma maneira muito próxima de conectar ideias. Porque a política todo mundo vive, entende, vê na TV, pelo meio que seja, jornal, livro, revista. Em Recife, muita gente está fazendo isso. Umas menos, outras mais. E eu me interessei por fazer isso também, da minha maneira. Estar engajado com essas coisas é interessante, tanto no sentido de saber que é uma causa que você concorda e acha importante e, ao mesmo tempo, é uma vontade de se mostrar como uma pessoa que tem voz ativa. Eu espero que as pessoas entendam e que no futuro elas me chamem para tomar partido dessas coisas, porque eu me interesso por esse contexto da política. Não acho que é uma coisa, simplesmente, crítica ou anarquista, não é. São levantamentos que eu gostaria de fazer para levantar bandeiras de novas possibilidades interessantes. Por isso que eu acho importante para o artista ter uma proposta, pois se você quer estar próximo das pessoas de verdade, você vai ter que ir atrás e tomar partido.

Daaniel Araújo

A concepção mais clássica que eu tenho de um artista é de uma pessoa que trabalha com as próprias ideias, aquele que não está tão ligado ao que outras pessoas vão pensar. Simplesmente, ele vai fazer isso. É uma coisa muito da arte moderna de você expor uma ideia, um pensamento seu, e não saber se as pessoas vão estar preparadas para entender exatamente o que você quis dizer. Mas, outras pessoas escolhem métodos mais certeiros e têm a preocupação em mostrar clareza, independente da linguagem que você gostaria de usar para retratar aquilo. Eu procuro fazer com que as pessoas entendam. Eu tento ter essa preocupação. Vai além do que eu quero desenhar. Pois, eu penso sobre o que é importante para eu desenhar também. Eu tomo essa postura. Tem que ter essa ideia que aproxima das pessoas. Nesse momento, eu vivo isso muito. Eu tenho que estar próximo das pessoas. E isso reflete, um pouco, no que eu estou desenhando agora (Daaniel está fazendo uma série de pinturas a partir das fotografias dos perfis de amigos dele no facebook).

Ricardo Maia Jr.

Essa aproximação entre a política e a arte fica muito ligada às vanguardas. Atualmente, as pessoas utilizam as vanguardas muito mais num sentido de ruptura puramente estética e acabam esquecendo, muitas vezes, essa potência política das artes. E foi durante esse período de vanguarda que muita gente percebeu essa relação. Hoje em dia, não há uma corrente como antigamente, pois cada um se basta em si. O indivíduo é um estilo, uma tendência. Então, eu acho que perdemos a coisa da revolução, naquele sentido de mobilizar mais pessoas, porque fica uma coisa muito individualizada, muito fragmentada em pequenos grupos. E a arte que poderia ser revolucionária acaba perdendo pela falta de agregação. Atualmente, os artistas têm uma busca muito mais estética, numa tentativa de separar a estética da política. Caminhando para uma coisa muito mais de consenso. De procurar editais e tentar agradar. E, assim, esquecem que a arte, acima de tudo, está para produzir discordâncias.

Daaniel Araújo

Gerar questionamento é uma coisa que eu acho importante. Assim, como você falou. Essa é uma discussão bem ampla com gente grande da crítica falando sobre o bitolamento cultural que acontece em função do artista viver atrás desses editais. Por conta desses patrocínios e desses modelos de financiamento, as pessoas que vivem atrás de pegar dinheiro do Governo, certamente, vão ter que agradar o Governo, de alguma maneira. Ou seja, talvez, você escolha que aquele não é o partido que você acredita, mas em função de fazer a sua coisa acontecer, você toma aquela direção. Inevitavelmente, vai esquecendo razões políticas e questionando menos. E aprendendo a questionar menos em função de conseguir realizar produções através desses editais. Outra coisa é o artista que produz, realmente, com intenções de estar fora desse contexto. Também tem o seu valor. Nesse momento, talvez, o cara seja muito mais artista do que qualquer outro. Ele pode estar imerso na ideia dele, em seu pensamento, numa fuga da realidade, talvez. Mas não são todos, né?! Agora, normalmente, num edital, eu acho que você vai acabar tendo coisas desse universo. Quem aprova por um edital, questiona menos. É mais difícil questionar!

por Ricardo Maia Jr. 

Imagem de capa por Daaniel Araújo.

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Pesquisador, professor e músico da Ex-Exus.

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