Devotos 20 anos on-line e gratuito

 

Em 2010, o jornalista e crítico musical Hugo Montarroyos lançava o livro Devotos 20 anosque faz parte da Coleção Tramas Urbanas (Literatura da Periferia Brasil), com curadoria de Heloisa Buarque de Hollanda, e patrocínio da Petrobras. O livro foi lançado pela editora Aeroplano e está disponível para leitura on-line e download gratuito. Além do livro de Montarroyos, a editora também disponibilizou gratuitamente diversos outros títulos  no endereço: http://issuu.com/tramas.urbanas

Recentemente, o jornalista voltou a escrever para o site RecifeRock!. Aproveito o momento para publicar novamente uma entrevista que fizemos com ele no período do lançamento do livro.

por Carlos Gomes.

 

O livro Devotos – 20 anos, que você acaba de lançar, nasceu em qual circunstância? Era algo que você já vinha elaborando antes mesmo de tê-lo como “projeto de trabalho”? E em que medida podemos ver esse livro como uma conquista da música brasileira?

Foi um sonho antigo que literalmente caiu no meu colo. Eu frequento o Alto José do Pinho desde 1995. Sou amigo dos caras da banda Devotos há quase dez anos. Fui a terceira opção para escrever o livro. A primeira foi Renato L, que desistiu no meio do processo. A segunda, André Dib, que também desistiu. Uma semana antes do carnaval de 2008, fiz uma entrevista gigante com o Devotos na casa de Cannibal, e eles tiveram oportunidade de falar coisas que nunca tinham falado antes para a imprensa. Neste dia, Neilton falou que Heloísa Buarque de Hollanda precisava de alguém para escrever um livro sobre o Alto José do Pinho, e perguntou se eu topava escrever. Falei que era um sonho antigo meu, mas duvidei que a Heloísa fosse me procurar. E ela me procurou e fez o convite! A princípio, escrevi um livro sobre a geração roqueira dos anos 1990 que mudou a realidade cultural do bairro. Quando entreguei a primeira prova do texto, Heloísa disse que, no fundo, aquilo era uma biografia do Devotos. Pedi mais tempo e literalmente trabalhei junto com a banda, com eles acompanhando passo a passo todo o processo.

Eu só me dei conta da importância deste livro para a música brasileira quando descobri, durante as pesquisas, que praticamente não há bibliografia sobre punk e o Devotos no mercado, os títulos são muito escassos. Enfim, era algo que almejava fazer desde os tempos em que frequentava as rodas de pogo dos shows do Devotos, e é um sonho realizado.

O site RecifeRock! existe há algum tempo; gostaria de saber quais as mudanças mais substanciais do ponto de vista do mercado Pernambucano que ocorreram desde o surgimento do site até hoje. Podemos falar que hoje há realmente um mercado de música em Pernambuco?

O Recife Rock nasceu de um inconformismo nosso, da falta de informação e referência, tanto na mídia tradicional quanto na internet, sobre o atual rock pernambucano. Não se sabia o que estava acontecendo na nossa cidade, ninguém noticiava, então fomos atrás. E demos sorte de nascer no mesmo momento em que surgia uma geração muito rica de bandas no recife, que ia do Mombojó ao Mellotrons, do Volver ao Johnny Hooker. Em relação à mídia, o espaço foi ampliado. O mercado também melhorou, pois foi formado um público consumidor, shows e festivais foram produzidos, concursos de bandas, estúdios de ensaio e de gravação foram montados, discos passaram a ser produzidos aqui. Isso tudo era muito mais tímido na década de 1990. Evidente que ainda não há sustentabilidade, mas já existem pessoas capacitadas trabalhando em todas as áreas do processo de produção musical. Isso é uma riqueza e uma conquista que, às vezes, não enxergamos, e que não damos a devida importância.

Há sempre uma discussão sobre ‘a cena pernambucana (ou recifense)’ de música. Como algo que pudesse ser homogêneo, ou seja, de que houvesse traços em comum entre as bandas daqui. É possível pensar assim?

Talvez na época do Manguebeat, porque eles nasceram do nada, e criaram uma identidade muito forte, ainda que as bandas fossem diferentes entre si. Acho que há aqui, mais do que nas outras regiões do país, uma necessidade de se fazer música muito latente, quase que física. Chegamos a contabilizar 300 bandas na época em que o Recife Rock tinha o Guia do Rock. Acho que o Vamoz! foi a primeira banda a romper com essa coisa de “identidade pernambucana” ao fazer um som calcado em Crazy Horse, cantado em inglês e com influência zero das tradições locais. É o mesmo que acontece com a River Raid, Sweet Fanny Adams e The Keith. E acho isso extremamente saudável, acabar com aquela ditadura da macaxeira do Ariano Suassuna. Eu vejo a música pernambucana como música global, que dialoga com o mundo, e não apenas com o próprio umbigo, que seja obrigada a usar o tempo todo alfaia e rabeca. Que gosto muito também, por sinal.

Ainda existe uma função para a crítica musical? Já que no cenário atual temos mais a ideia de ‘resenhas de lançamentos’ do que propriamente uma crítica relevante. Ainda há espaço para debruçar-se sobre uma obra ou artista?

Espaço é o que mais existe no momento, graças à internet. Na mídia impressa, a coisa é mais complicada, já que o espaço é limitado e o jornal depende da publicidade para sobreviver. Já tive matérias cortadas pela metade na época em que trabalhava em jornal. Com a internet, o espaço deixou de ser um problema. Existe, isso sim, certa preguiça de fazer algo mais aprofundado e que fuja do arroz com feijão, do jornalismo de agenda, e isso acontece na internet também. Não há mais desculpa para ser superficial, e, muitas vezes, ainda somos.

Qual a relação que você vê entre os jornalistas/editores de cultura (lotados nos jornais e imprensa de um modo geral) e os blogs ou sites como o seu (o nosso)? É ainda cada macaco no seu galho?

Acho que existe uma troca. Fazemos muita coisa que tem como fonte os jornais impressos, e sei que ocorre o inverso. Pessoalmente, conheço e sou amigo de boa parte dos editores e jornalistas de impresso que cobrem música, e sei que eles acompanham blogs como o meu e o seu. Acho que os dois lados ganham e saem fortalecidos. Seria burrice das duas partes fingir que uma delas não existe. Não dá para desprezar o que a mídia tradicional publica. E, graças a Deus, a mídia tradicional hoje precisa dos blogs como fonte de consulta.

Você é conhecido por ser um assíduo frequentador de shows. O seu olhar – principalmente sobre as bandas novas – é especialmente crítico? E escrever sobre música é de certo modo um exercício de cautela? E o quanto você consegue enxergar de vaidade nessa tarefa?

Por partes: acho que fui o primeiro cara daqui a bater nas bandas locais, sobretudo nas novas. Até então, percebia certo corporativismo, uma brodagem demasiada entre músicos e jornalistas.

Cautela, na hora de escrever sobre música, é uma coisa que ainda estou aprendendo a fazer, até porque escrevo com o coração na ponta dos dedos. Ou seja, muitas vezes dá merda. Preciso aprender a ser mais frio, mais cauteloso.

A melhor pergunta de todas é sobre vaidade. Eu passei um ano escrevendo sobre música na Folha de Pernambuco, e me causava muita angústia não ter ideia de para quem estava escrevendo. Com dois meses de Recife Rock, recebi uma enxurrada de críticas tão furiosas de bandas – tudo publicado na net – que não segurei a onda e pedi demissão online. No dia seguinte, quando abro o site, tem um banner gigante no Recife Rock escrito CAMAPANHA FICA HUGO MONTARROYOS. O site deu visibilidade ao meu trabalho, me projetou, me levou até a televisão, me abriu portas para escrever em outros sites e revistas, fez com que meu nome fosse um dos mais lembrados quando se fala em música no Recife. Evidentemente que isso mexe com a vaidade, e muito. A minha sorte é que não sou um sujeito vaidoso, quem me conhece sabe disso. Mas é algo perigoso, porque você corre o risco de achar que é uma celebridade, quando na verdade você é apenas uma peça da engrenagem que funciona nos bastidores. Crítico não é artista, não é músico, não é escritor. É um cara que escreve sobre música, e é assim que procuro me ver. Agora, é evidente que me sinto extremamente lisonjeado com o reconhecimento do meu trabalho, pois sempre foi algo que fiz com um puta carinho.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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