Devendra e as suas línguas expostas

A turnê brasileira do disco Ape in Pink Marble, de Devendra Banhart, passou pelo Recife em sete de setembro, no espaço Catamarã, e segue para Salvador (8), São Paulo (12), Curitiba (13), BH (10) e Porto Alegre (14). A turnê acontece com shows produzidos pelo Popload Gig e pela plataforma Queremos.

1. devendra ouviu tom zé no corpo e no som. a canção “complexo de épico”, sobretudo o que está exposto na letra, é justamente o contrário do que é o músico americano ao lidar com a canção brasileira e os seus cânones.

2. seu comportamento artístico faz dele um estrangeiro destinado a percorrer caminhos indistintos e a não se fixar propriamente em nenhum gênero musical.

3. há uma dança, uma rítmica, um sotaque, uma dicção, um jeito de corpo que faz com que a identificação como indie, folk – ou nos inúmeros subgêneros amarrados a ele desde seu começo de trajetória – pouco acrescentem a quem deseja destrinchar as suas canções e discos.

4. sua dança não é só do corpo; ou melhor, sua dança é menos do corpo e mais da voz; como separa as sílabas, sua prosódia, como disseca as palavras, distende a melodia, interrompe palavras, diz, cala, volta, cala novamente e volta a cantar. “baby” e “mi negrita” são exemplos dessa prosódia mastigada. ao vivo essa percepção fica ainda mais clara, já que devendra é daqueles artistas em que a presença, muito mais que a execução fiel de uma gravação em disco, importa mais.

5. carmem miranda dada.

6. ape in pink marble é um show conciso que a toda hora é deslocado pelas canções-dinâmicas de outros álbuns. esse movimento é uma das graças do show, e faz com que o encadeamento de músicas do setlist seja sempre uma descoberta. “carmensita”, por exemplo, surge como um susto.

7. as letras e seu canto em inglês e espanhol também são recobertos por movimentos. a passagem de uma língua para a outra é feita sem danos. visto que o estrangeiro está sempre em trânsito.

8. a sessão solo é quando o músico quebra as fronteiras que separam o palco da plateia. entoa uma série de pedidos. mesmo as cantadas em pedaços, interrompidas abruptamente, tem todo o sentido de serem assim. solo é um show dentro do show. a ponto de devendra sair do palco para uma mulher da plateia subir e tocar uma música de autoria dela com a guitarra em punho.

9. o despojamento como performance vai quebrando aos poucos a distância que normalmente se constrói entre esses lugares – o do palco e o da plateia. além disso, devendra é atento a cada movimento das primeiras fileiras, o que torna tudo mais íntimo, não importando o tamanho do público ou mesmo o local do show. tive a mesma sensação vendo apresentações recentes de aninha martins (edf. texas), negro leo (audio rebel) e, o mais intenso nesse sentido, o de isadora melo (sexto andar) sem nenhum instrumento plugado, nem mesmo microfones.

10. cada canção existe como uma performance que dura em torno de três a quatro minutos e nunca mais irá se repetir. cantar é intuir essa transitoriedade. ontem à noite ouvi dessas canções que escapam. devendra, línguas expostas, em trânsito.

Foto: Instagram de beatrizapereira.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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