Derivem, babies. E leiam Michel de Certeau

Antonio Cícero agora é acadêmico. Será bom? Não importa. Bom é o poema Desejo:

Só o desejo não passa

e só deseja o que passa

e passo meu tempo inteiro

enfrentando um só problema:

ao menos no meu poema

agarrar o passageiro.

Corta. Exterior. Dia.

A missa de despedida de Michel de Certeau foi comovente, na fria manhã de inverno de 9 de janeiro de 1986. Na época, eu preparava meu doutorado. Durante a cerimônia de adeus, a pedido dele, se escutou uma velha gravação de Edith Piaf, interpretando Non, je ne regrette rien. Geneton Moraes Neto, meu amigo, odiava a dramaticidade exagerada de Piaf – e ele tinha razão, claro. Mas naquela missa parecia caber. Que sentidos pretendeu produzir Certeau, depois de morto, com aquela canção? Que trajetória teria sido esta, que não deixava lugar para o remorso? Primeiro, o óbvio: tinha enfrentado de peito aberto o destino que lhe coube. A vida clara, na acepção pasoliniana, constituída também pelos episódios mesquinhos ou grandiosos que a existência reserva a todos, guardadas as devidas proporções. Sem arrependimentos, portanto. Mas, e talvez aqui tenhamos um segundo sentido: não sem pecados, na medida em que os erros fazem parte do trajeto. Havia, então, na voz de Edith Piaf uma dupla visão das coisas da vida: o gesto de ouvir, na nave de uma igreja, as palavras de certo ser impuro, incerto; e a mensagem que a letra da canção afirmava: apesar de tudo, teria sido assim: o arco do possível se estendendo por sobre o chão da utopia. Então, naquele instante, Michel de Certeau, defunto, revivia a metodologia que desenvolveu durante décadas, pacientemente: ouvir a voz dos que não têm voz; e deslocar o sentido das coisas, ao transtornar os espaços usuais de circulação dos homens e dos objetos.

Corta. Interior. Noite.

Waly Salomão não entrou para a Academia. Seria bom. Importa o seguinte:

Não choro

meu segredo é que sou rapaz esforçado

fico parado calado quieto

não corro não choro não converso

massacro meu medo

mascaro minha dor

já sei sofrer

não preciso de gente que me oriente

Corta. Interior. Amanhecer.

Dedicado inicialmente ao estudo do século 18, Michel de Certeau foi um historiador que tomou consciência de que não se pode escapar do tempo presente e de suas derivas: não se foge dos desvios, do estranho, do surpreendente que nos habita no instante mesmo em que somos. O acesso para o arrebatamento do inusitado só está realmente aberto para quem sabe olhar para as dimensões do tempo presente. A história, então, é uma permanente reinvenção do passado, a partir da vida que vivemos hoje. Para de Certeau, isso tudo era claro, sobretudo quando ele olhava para as bruxas, os possessos, os místicos ensandecidos. Mas também quando prestava atenção nas pequenas coisas, nas “artes de fazer”, nos “jeitinhos” (como, afinal, traduzir o francês ruses?). “Astúcias”, ele vai dizer, mas também “trampolinagem”. Táticas e estratégias do viver simples, do modo de ser do humano “comum”. Gambiarras… “Não tome as pessoas por idiotas”. Nunca suponha que a vida cotidiana, dos que aparentemente não têm poder, dos que muitas vezes se perdem na multidão, seja apenas essa homogeneidade aparente, essa passiva adesão a algo que seria um avassalador poder institucional. Sobretudo: não pensem que conseguem falar em seu nome.

Corta. Exterior. Noite.

Cacaso também não. E daí. Seria o seguinte:

Eu matei minha saudade mas depois veio outra.

Corta. Exterior. Madrugada.

De Certeau foi um antídoto para os que acham que a vida da maioria das pessoas não tem graça alguma, dos que operam com noções como “massa”, “burguesia” ou “proletariado” – esquecendo que há mais diferenças táticas entre os “iguais” do que pensa certa sociologia. Ali, onde parece haver apenas o conformismo, ou a força incontrolável do mercado, ou a submissão absoluta aos cânones estabelecidos, se esconde a invenção. A multidão tem olhos. Age. Pensa. Resiste. O poder do mercado existe, evidentemente, e os bens culturais, e não apenas os materiais, são de fato também objetos de consumo. No entanto, algo sempre foge do controle. Algo escapa. O conjunto de forças que frequenta a multidão retoma, reinventa, apropria-se, ressignifica. Leva a vida para longe de toda previsibilidade, do que havia sido programado. “Indisciplina”. E as desobediências são vistas como focos de resistência ao homogêneo, ao que parecia fazer a vida inevitavelmente linear. A esperança singela de Michel de Certeau é a seguinte: não existe uniformização, mas uma contínua e luminosa tensão entre campos de poder.

Corta. Exterior. Noite profunda.

Alberto da Cunha Melo, então, nem pensar. E portanto:

Poema nenhum, nunca mais, 

será um acontecimento: 

escrevemos cada vez mais 

para um mundo cada vez menos,


para esse público dos ermos 

composto apenas de nós mesmos,


uns joões batistas a pregar 

para as dobras de suas túnicas,

seu deserto particular,


ou cães latindo, noite e dia, 
dentro de uma casa vazia.

Corta. Interior. Dia.

O desafio é, portanto, articular a observação das práticas e dos usos das representações na condição de “criações anônimas”, presentes na vida cotidiana, mas igualmente das representações dessas mesmas práticas e usos em objetos culturais “assinados”, vinculados à grande produção industrial e, nessa perspectiva, verificar nesses objetos de segunda ordem, reconhecidamente “artísticas” os traços das artimanhas do cotidiano. Afinal, essa produção “de mercado”, “erudita”, também poderia ser revisitada enquanto território de transformação, um lugar em que as práticas de consumo eliminariam o fechamento do objeto, permitindo que o observador (o consumidor) reinventasse-o, produzisse novos sentidos. O que importa é definir um conjunto de “microresistências”, pequenas utopias que reintegram aquilo que é, de fato, vivenciado nas representações. Nosso olhar, assim, é o mesmo da gente “simples”, “ordinária”, aquele que necessariamente está longe dos centros do poder. Por isso são tão ridículas as “especialidades” curatoriais, ou as fofas “razões” da cinefilia, ou as “distinções” de qualquer tipo. Ainda mais na nossa condição de brasileiros. São as nossas circunstâncias que explicam: melhor assumir que estamos, conscientemente ou não, na periferia da periferia, como acadêmicos e como consumidores ou produtores culturais. E essa, longe de ser nossa fraqueza, é nossa potência. Resistências, táticas complexas e sutis, fazem face aos projetos dos sistemas dominantes. O conceito de cotidiano em de Certeau parte do princípio de que os indivíduos e os grupos sociais são capazes de se confrontar com os modelos disciplinares, com a ordem, construindo movimentos de defesa e de antagonismo que vão além dos padrões mais reconhecíveis de contestação. É no cotidiano que se dá, dessa forma, este conjunto de curiosas formulações contra toda sorte de vontade imposta pelos centros hegemônicos de poder. Devemos reler um texto crucial de Michel de Certeau, A Invenção do Cotidiano, em que trata de “uma ‘arte’ brasileira” e explora os campos estratificados dos camponeses nordestinos e as missões do místico Frei Damião de Bozzano, o capuchinho italiano que percorreu o Nordeste, tornando-se um dos homens mais venerados na região. Tratava-se, na visão de Michel de Certeau, de um espaço bipolar, capaz de fazer coexistir um campo “polemológico” (sócio-econômico, clivado pela ancestral disputa entre poderosos e pobres, e no qual estes são sempre os derrotados) e um espaço “utópico”, no qual se afirma o milagre, a redenção onde os pobres encontram uma dimensão que lhes é mais favorável. Nesse texto magnífico, de Certeau estabelece uma ponte entre o discurso místico do capuchinho Frei Damião de Bozzano, constituído pelos relatos de milagres, e o filme La Cecilia, de Jean-Louis Comolli, com seus belos cantos anarquistas. Descobrimos ali o desdobramento que importa: o espaço “real” e bipolar do Nordeste e o espaço simbólico da experiência cinematográfica e do seu dispositivo. Estava, portanto, na própria “metodologia” certaliana uma ponte entre o ordinário cotidiano, essa arte dos não artistas, e a produção das imagens técnicas, tomada como espaço em si  ̶  representando outros espaços “reais” nos quais situam-se outras “artimanhas”, outras ressignificações passíveis de interpretação.

Ler de Certeau. E Alberto da Cunha Melo. É o que precisamos para tentar algo novo.

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Nasceu no Recife, em 1956. Ainda estudante secundarista, participou, a partir de 1973, do ciclo de cinema super-8 do Recife, realizando curtas experimentais. É graduado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco e foi repórter, crítico de cinema e editor, entre outros, no Jornal da Cidade, Jornal da Tarde [SP], O Estado de S. Paulo e Jornal do Commercio. Também foi editor de criação na Rede Globo de Televisão. Tem Doutorado em Artes na Universidade de Paris I – Panthéon-Sorbonne. Professor na Universidade Federal de Pernambuco, ensina no Bacharelado em Cinema e Audiovisual e no Programa de Pós-graduação em Design. Publicou “A Aventura do Baile Perfumado: vinte anos depois” (2016, com Amanda Mansur), “A Imagem e seus Labirintos: o cinema clandestino do Recife, 1930-1964” (2014) e “A Utopia Provinciana: Recife, Cinema, Melancolia” (2010).

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