Delírio, Meu, Delírio

Uma série de ações, que incluem desde show, debates e oficinas, fazem parte do “Ciclo de Literatura Afetiva, Expandida, Contemporânea – De Clarice ao pontocom”, idealizado pela produtora Izadora Fernandes e com realização da Formata Cultural. O ciclo começou ontem à noite, com apresentação musical do cantor, compositor e pesquisador Luiz Tatit, de São Paulo. A programação completa pode ser conferida no site formata cultural.

  1. tatit e a canção ordinária, quase palavra ao pé do ouvido sobre afetos que se expandem. decerto, cantam o mínimo, o instante presente que se despercebido pelo cotidiano veloz, em sua canção-prosódia comove. ilumina a história que às vezes sucumbe na importância das horas.
  2. o dado narrativo das canções não está presente apenas nas letras, nas personagens e na própria contação de histórias de várias das canções, mas na própria estrutura musical, no modo como tatit encadeia acordes, ritmos e, sobretudo, na sua dicção que bambeia entre acelerações diversas.
  3. muitas das canções apresentadas eu conhecia pela voz de ná ozzetti, ou mesmo na construção imagética e repleta de nuances do grupo rumo. ouvi-las na natureza artística de tatit provocou um efeito especial na minha escuta. a dimensão do palco, a fronteira entre palco e plateia, ainda que existisse fisicamente no pequeno teatro, parecia se liquefazer diante do canto. tatit parecia cantar como quem conversa de prosa em prosa com a plateia.
  4. num debate de 2015 no recife, com o sugestivo tema “a canção depois do fim”, romulo fróes provocava no debate que discutir sobre o ‘fim da canção’ era de interesse apenas do brasil, que em outros países – acho que ele se referiu aos estados unidos – essa discussão nunca havia tomado a dimensão que aqui se tomou. tatit, como pesquisador, autor de livros, professor, e, principalmente, compositor, tomou para si essa discussão, de modo irônico, quase nonsense, como se apresentam muitas de suas canções. aqui, duas mulheres são as personas a carregar essa canção que pode um dia acabar.
  5. canções sobre canções; desdobramentos de gêneros e ritmos que são tomados como tema e como desconstrução de seus arquétipos; ritmo e poesia (ou ritmo e proesia); literatura onde cabe a palavra deslocada, a palavra que flutua.
  6. corri depois que acabou, mas quase que não acabava o show. o bairro do recife continua cada vez mais novíssimo, novissíssimo, contemporâneo.
  7. eu gostaria de fazer uma canção de protestos de estima e consideração, mas essa língua portuguesa me deixa rouco/louco.
  8. eu gostaria de escrever uma resenha só com os vídeos de luiz tatit máquina de prosa desvio,
  9. essa é pra acabar
  10. (o tópico 10 deveria vir em branco, mas eu gostaria de mencionar a canção “dodói”, feita em parceira com itamar assumpção: a canção do corpo que resiste na canção.)

Foto: “Luiz Tatit na Caixa Cultural Recife” por Joanna Sultanum.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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