David Toop e os sons do século XXI

A pedido do jornal argentino La Nación, David Toop elencou 10 sons que definem a vida contemporânea.

  1. Periquito-de-colar

“Nos últimos anos um bando de periquitos-de-colar foi se estabelecendo em um parque ao norte de Londres. Ouvir o seu grasnado tem algo de perturbador, como se de repente tivéssemos sido transportados para algum lugar do sudeste asiático. Trata-se de uma espécie exótica, como os pássaros carpinteiros, do tipo que expulsa as aves nativas e faz subir a pressão arterial dos amantes das aves. É um debate que ecoa a controvérsia tóxica sobre a imigração, que vem ocupando o centro da opinião pública desde o Brexit. As aves nos enfrentam com a lembrança de que as ideias conservadoras sobre a natureza podem se desdobrar na intolerância e na falta de compaixão frente ao drama das migrações na sociedade humana.”

2) O aviso sonoro do ônibus

“O ônibus que costumo utilizar emite um som toda vez que as portas abrem ou fecham. Trata-se de um pulso de uma única nota que me parece um pouco estridente para uma situação trivial. Ainda que eletrônico, o timbre dessa nota está muito próximo ao de uma trombeta e suas repetições me lembram a abertura da ópera Guillaume Tell, do compositor italiano Rossini, que por sua vez me remete ao Cavaleiro Solitário, que tinha como tema o final dessa mesma obra. Então eu mergulho em devaneios sobre as tardes de sábado na casa dos meus avós, onde eu assistia programas de luta livre na televisão, esperando com ansiedade a hora do Cavaleiro Solitário e o resultado das partidas de futebol, enquanto o meu avô inundava o ambiente com o fumo de seu cachimbo.”

3) Raposas urbanas

“Londres está repleta de raposas urbanas, assunto que divide as opiniões. Alguns adoram a sua beleza selvagem e dizem que traz para a cidade um elemento da natureza indomável. Outros pensam que são uma praga e que deveriam ser exterminadas. A maioria dessas raposas são tímidas e evitam cuidadosamente o contato humano, mas suas vocalizações não têm timidez alguma. Seus latidos ásperos podem ser ouvidos a noite, enquanto correm pelas ruas em busca de lixo.”

4) Vozes e linguagens

“Londres é uma polifonia de vozes de inúmeros países, etnias e regiões linguísticas. Antes eu podia me vangloriar de reconhecer qualquer idioma, mas atualmente devo reconhecer a minha crescente ignorância. Londres é uma cidade em estado permanente de mudança, marcada por divisões profundas entre ricos e pobres, de maneira que sua composição demográfica também se altera drasticamente, onde diferentes grupos étnicos se instalam em áreas específicas mas em pouco tempo se mudam ou se misturam com outras etnias. Quando vou passear com a minha neta na praça, por exemplo, escuto muitas vozes em espanhol, algumas em português e um homem que fala inglês com sotaque da África do Sul, mas que fala com a sua filha em alemão. É comum ouvir pessoas reclamando de escutar tantos idiomas estrangeiros, mas a vida do século XXI se enriquece incomensuravelmente com esta polifonia de idiomas. Ainda que eu não reconheça todos eles, isso aumenta a minha consciência de que o mundo é um lugar de uma complexidade incognoscível.”

5) Tecnologia doméstica

“Muitos dos sons domésticos que aceitamos como parte do estado de silêncio são muito baixos, um somatório de todos os dispositivos que trabalham dentro de casa. Poderíamos descrevê-lo como o canto de uma sereia: o clique da TV digital quando é ligada, a geladeira que desperta e volta a dormir, o aquecedor e o boiler que se ativam, o exaustor de ar do banheiro que vibra até que o seu ciclo chegue ao fim. A mensagem dessa canção é que temos mais sorte que nossos avós, mas ao mesmo tempo somos cúmplices, por mais que a gente não queira, da crise ambiental do planeta. Toleramos esses sons, ou até mesmo comemoramos o alívio de tanto silêncio, porque de fato tornou-se impossível viver sem a praticidade das coisas que inventam para que nossa vida seja mais cômoda.”

6) Tanque

“No jardim da minha casa nova havia uma parte bem feia. Então eu mandei construir um tanque que rapidamente foi povoado por rãs e toda sorte de criaturas aquáticas. Em meu último disco como solista, gravei um tema sobre a tradição de colocar pedras seguindo as instruções de um manual de jardinagem japonês do século XI. Na minha cabeça existe um paralelismo entre colocar pedras e compor música. Naquela época eu passava muito tempo sentado escutando os sons do meu tanque. Então eu fiz uma gravação com um hidrófano submarino que se converteu no tema básico do disco. Esses sons intermitentes e borbulhantes eram estranhos, quase música eletrônica. Quando há silêncio eu sento ao lado do tanque e chego a ouvir esses sons sem a necessidade do hidrófano. O tanque é uma entidade viva e complexa que expressa sua energia através do som.”

7) Aviões

“Em 2010 eu estava a caminho da Áustria quando todos os voos foram suspensos devido a uma nuvem de cinzas proveniente de um vulcão em erupção na Islândia. Então eu voltei pra casa e me sentei no jardim para ler um livro. Impressionou-me a total ausência de tráfego aéreo e de repente fui inundado por uma sensação incomum de tranquilidade. Eu não vivia próximo a nenhum aeroporto, mas eu sempre via aviões passando em intervalos regulares e seus sons produziam um ruído quase subliminar na região. Aquele final de semana foi quase um experimento de laboratório, com intuito de descobrir os efeitos fisiológicos do ruído ambiental gerado pelos aviões. A sensação de relaxamento que eu senti me diz que afeta, e muito.”

8) Alarmes e sopradores de folha

“Sou bastante tolerante com os sons urbanos e gosto da maioria deles. Se você optou por viver em uma cidade grande, ou não teve outro jeito, é preciso aceitar que muitos desses sons são subprodutos da infraestrutura, da energia e do movimento que são precisamente as razões porque queremos viver em uma cidade grande. Mas os efeitos nocivos da poluição sonora estão bem documentados. Na rua aonde vivo se ouve com muita frequência os alarmes das casas ou dos carros disparando, e isso torna impossível trabalhar, pensar e até existir. Existe um ruído particularmente agudo e estridente que parece calar até os meus ossos. As pessoas também costumam utilizar sopradores de folhas, que no meu entender não são mais do que uma mostra da preguiça derramando toda essa energia acumulada sobre o bairro.”

9) Chuva

“Quando eu me mudei tive que gastar muito dinheiro para consertar as goteiras do teto. Assim que o problema foi solucionado pude voltar a escutar a chuva com a mesma sensação profunda de prazer e bem estar de antes. Uma das minhas experiências auditivas favoritas é acordar de manhã com o som de uma chuva suave, ler um pouco ou talvez sonhar acordado com esse som de fundo. Ir para o centro da cidade quando chove muito costuma ser uma experiência lamentável, mas isso não muda o enorme prazer de escutar os detalhes sonoros infinitos dos diferentes tipos de chuva. Estar conectado com o clima é uma exigência fundamental da vida.”

10) Autotune

“A música alta dos carros não era tão comum em Londres. Há uns dias ouvi uma canção pop-R&B que vinha de um carro estacionado com a porta aberta. Como de praxe, no pop contemporâneo ou na dance music, as vozes tinham sido corrigidas digitalmente com autotune. Este som tem algo de irritante e é difícil dizer exatamente o porquê, mas define o nosso tempo na medida em que muita gente vive em um espaço inédito que está entre a vida física e a rede digital, que pode ser acessada através de celulares, tablets e computadores. O autotune, metade androide e metade humano, nos fala desse estado de suspensão. Gostemos ou não é um dos sons mais importantes do século XXI.”

Tradução: Ivan LP

Texto original:  http://www.lanacion.com.ar/2036074-david-toop-como-suena-el-siglo-xxi

Imagem de capa: ‘David Toop’ por Fabio Lugaro.

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Ivan LP Por:

Produtor cultural, editor de conteúdo e consultor em projetos de arte, tecnologia e inovação, com especialização na HKU University of the Arts Utrecht. Curador do Festival de Arte Digital (FAD-BH), criador do festival SESI Cultura Digital e sócio do selo musical colaborativo Fazedores de Som.

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