curadoria em artes visuais: Por uma arte radical

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Obra de Ion Bitzan.

Depois de celebrados: a morte do autor, o fim da história e das utopias, é possível que, de uma vez por todas, estejamos caminhando para o auge da Era Finus latu sensu em que o fim de todos os parâmetros nos parece ser uma finalidade em si mesmo. E ainda que, finalmente, as agendas sociais estejam inflamadas nas ruas de todo país, nada nos assegura uma mudança de fato. Temos combatido o terror com vinagre. Os atos ainda são reativos e não propositivos. O fin ainda é um radical desejante de desinências verbais.

Diante disso, me parece que tecer quaisquer considerações sobre os modos de fazer, hoje, só é possível se também for possível estabelecer um parâmetro prospectivo, ou autocrítico para o início de uma prospecção. De outro modo, recairemos num exercício retórico, ou, o que é pior, um jogo pueril de culpas e acusações entre comadres. Não há dúvidas da urgência em se criar outros conceitos que deem conta de abrir caminho para os atos profanos (e vice-versa) que, de uma só vez, destruam mitos e instaurem novos ritos de passagens.

Naquilo que diz respeito à arte, há muito, me sobrou muito pouco a dizer. Explico: embora seja possível perceber que existam trajetórias artísticas de relevância estética, não me é possível ver nessas uma relevância política. Embora exista um esforço em se diluir, e até mesmo anular, o parâmetro de direita e esquerda na vida política, esse é ainda o único em que consigo encontrar respiro e pulsação para os modos de ser e estar no mundo. E para deixar claro do que estou falando, tomo a liberdade de parafrasear Deleuze. Ora, ser de esquerda é vislumbrar o horizonte, antes de a si mesmo. É um pensar-agir consciente de que o coletivo vem antes do individual, de que o público vem antes do privado. E isso não passa por uma questão moral, ou uma jornada espiritual altruísta, é uma questão de percepção.

Sob esse olhar, me sobra muito pouco a dizer sobre o campo da arte, hoje, porque não há qualquer contribuição de largo alcance em que o coletivo exista antes do interesse privado. Muito pelo contrário, o que se vê é cada vez mais a legitimação de um sistema de privatização da experiência coletiva. O campo da arte foi construído, nos últimos tempos, de maneira que a arte paulatinamente foi perdendo seu valor simbólico, sua importância enquanto imaginário coletivo, para se tornar valor de troca, valor de mercado. Não à toa é que prevalecem as grandes feiras e exposições espetaculares que pouco atentam para as experiências estéticas: a fruição pelo corpo que produz diálogos. O que temos é a volta de uma experiência retiniana, quando muito, uma experiência corporal automática, de resposta imediatas, sobretudo, quando os trabalhos requerem interatividade. No lugar da fruição, o consumo.

A pergunta que me ocorre é: as questões da curadoria são apenas sintomas do modo capitalista em que a arte se deixou engolfar? Notadamente, em nome da profissionalização do campo, o fenômeno da produção artística deixou de ser algo que diz respeito apenas ao artista em seu ateliê. Ao que parece, a produção artística não mais existe sem a mediação institucional-mercadológica que cumpre a dupla função de nomear (legitimar) e demandar. De modo que, dentro dessa lógica, o curador é menos um agente, mais um articulador nessa grande engrenagem.

A estrutura pela qual a arte se deixou sucumbir é tão esquizofrênica que a obra a priori movia e era ela mesma produção de conhecimento, nos moldes atuais, tornou-se apenas alvo do manejo retórico laudatório com a finalidade última de especulação do seu valor de mercado. Em outras palavras, o artista era o produtor simbólico que gerava, em torno de si, a produção de conhecimento, e não o contrário. A curadoria, a crítica de arte e o público, diante da produção artística, flexionava as desinências de acordo com os radicais produzidos pelos artistas. De modo que o vocabulário estético era também político, porque se tratava de uma construção dialética dos agentes culturais (artista, crítico, público, curador etc). Nas condições atuais, o mercado especializou-se em criar demandas de produções artísticas adjetivadas (arte digital, arte política, arte performática, arte vida etc), de tal maneira que as curadorias/editais culturais passaram a impor o vocabulário estético a ser usado pelo artista.

Ao que os fatos indicam, não é só minha a dificuldade de ter o que dizer sobre arte. Há muito não se vê circular qualquer tipo de debate gerado pela arte que fosse de relevância coletiva. Muito pelo contrário, o que se tem visto é o foco voltado para curadores cada vez mais tratados como celebridades. Em suma, o que se vê nos jornais é um excesso de listas de curadores legitimados por um mercado que estimula quantidade no lugar da qualidade dos projetos realizados por esses.

Se as atuais produções curatoriais são apenas sintomas do modo de ser e estar no mundo ditados pelo capital, outra coisa é certa: o caminho que a arte segue também é um sintoma desse modo de fazer curadoria . O que se pode dizer disso é que a produção artística encurralada nesse jogo de legitimação e demanda tem se deixado repetir em procedimentos e visualidades. Tais repetições dão lugar a um formalismo vulgar em que se torna irrelevante querer flexionar as desinências dos mesmos radicais.

por Ana Luisa Lima.

Publicada originalmente na revista pq? – ed. 05

Imagem de capa: Barbara Kruger

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Crítica de arte e pesquisadora.

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