Crônicas que viraram canções

Quatro anos depois de Crônicas da Cidade Cinza (2011), o rapper Rodrigo Ogi lança seu segundo álbum, RÁ! (2015) que vem para consagrá-lo como um dos grandes do rap nacional. As temáticas e os elementos estéticos que já o identificavam anteriormente continuam e parecem cada vez mais maduros, ajudando a solidificar sua atual posição.

Nas primeiras, ainda estão presentes as constantes referências ao universo da cultura pop, como videogame, quadrinhos e cinema; e as “histórias das quebradas do mundaréu” e o povão, “da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre”, como nas palavras de Plínio Marcos, sampleadas no disco anterior.

Nos segundos, ótimos beats e samplers continuam embalando seu flow singular e, arrisco dizer, superiores às rimas. Aqui, porém, nota-se um quê de sofisticação em relação ao álbum de 2011: por um lado há o trabalho de produção de um dos melhores beatmakers nacionais, Nave, e, por outro, a participação de músicos fora do contexto do rap, como Carlos Café, Mao (ex-Garotos Podres) e a tríade do Metá Metá, ajudando na construção de uma sonoridade mais plural.

Acredito ser a narrativa um elemento chave para se destrinchar o universo de Ogi e ele se utiliza disso como ninguém. Anteriormente, um cronista de São Paulo e agora um cronista do eu e todos os seus medos, desejos e angústias. Ele começa o disco sugerindo uma ida a uma sessão de psicanálise e essa conversa com o outro sobre si entrecorta todo o álbum. “Fale mais sobre isso”, pede o interlocutor. Há realidade, sonho, pesadelo, assim como as memórias de infância. Claro que em RÁ! ainda existe São Paulo, como em Crônicas existiam letras autobiográficas, mas há uma clara diferenciação na escolha dos protagonistas.

Então, com essa maestria na construção de uma história mais ou menos fechada, com início, meio e fim, mesmo que possa soar esquizofrênica em alguns momentos – fazendo todo sentido, já que o jogo se passa na batalha do consciente e inconsciente –, Ogi joga muito bem com o conceito de “álbum”, um dos cânones da crítica cultural na música popular.  E essa percepção por parte dos rappers de levar a ideia de álbum ao seu extremo, mostra como esse gênero tem até um potencial maior que o rock no seu uso.

Digo isso pelo rap ser mais dinâmico em todos os sentidos: na linguagem, referências e na sua própria constituição sonora-histórica de uso de batidas, melodias, vozes e sons de outros meios (discos, filmes, discursos etc.). Isso permite uma facilidade técnica e estética para criar um plot que associado ao ápice da “canção”, ou seja, melodia e letra passando a mesma mensagem, e a um bom flow, criam um caldeirão de possibilidades para a exploração desses conceitos. No fim parece que estamos num filme de Tarantino, com todas as suas referências à música black e a filmes de porrada, com um tom onírico e angustiante de Lynch.

Em “Estação da Luz”, fala sobre o medo que habita o inconsciente das classes mais altas quando deparados com ‘o outro’, aquele que vivendo à margem, está exposto a todos os tipos de situação de risco. Aqui, esse cidadão de bem foge do viciado em crack, quanto mais longe melhor para evitar a reflexão, evitar a verdade.

Já em “Hahaha”, pensei, na primeira escuta, que estaria diante de mais uma letra machista de rap, coisa bem comum, infelizmente, no gênero. Mas aqui ele descreve um sonho em que era um garanhão, mas ao longo da narrativa vemos que se trata de um pesadelo. Ogi usa a ironia para fazer uma crítica à posição do rapper macho alfa, que ainda é uma posição hegemônica no estilo.

Na sequência temos uma grande música, com participação de Juçara Marçal. “Correspondente de Guerra” narra o terror que foi a desocupação de Pinheirinhos em São Paulo. Aqui ele usa Gil Scott Heron, para dizer que a revolução não será televisionada, através de seu testemunho, memória e devaneio.

Aqui começa “Trindade” uma canção que é dividida em três partes. Em cada uma ele faz uma voz diferente, representando diferentes personagens em uma história de estilo fantástica. Seu potencial como contador de histórias e criador de personagens, que mistura memória, sonho e realidade, chega ao ápice com essa sacada.

“Virou Canção” pode não ter essa sacada estética da predecessora, mas é uma das mais belas músicas que o rap nacional já produziu. Ogi remonta à sua infância, à inocência, aos amigos que teve e que já não estão mais nesse plano, pois foram perdidos para o crime. Longe de ser uma canção piegas, a sinceridade e verdade que o rapper passa conseguiu transformá-la em uma das melhores músicas de 2015.

Ainda há outras músicas que fazem o disco todo valer a pena, colocando esse artista em destaque na cena do rap nacional e da música brasileira como um todo. Ogi tem um talento pro crossover assim como Emicida e Criolo já mostraram, podendo expandir e agregar, assim como divulgar para um número maior de ouvintes o que se vem produzindo de melhor neste gênero.

Publicado originalmente na edição #11 da revista Outros Críticos.

Foto: Filipe Borba

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Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

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