Crítica de boteco

 

“A crítica e a criação podem andar juntas” [1]

(Lourival Holanda)

 

A vontade de organizar em livro[2] os ensaios que Ricardo Maia Jr. escreveu durante seis meses no blogue Outros Críticos, nasceu não pela escrita, mas pela oralidade do debate. Refiro-me ao primeiro encontro do projeto “Outros Críticos convidam”, que tinha como tema: “Retoques da Tradição na Canção Popular”, com participação de Ricardo e do cantor e compositor Zé Manoel. Como se tratava da 1ª edição de um projeto fora da internet, resolvi assumir a mediação do debate crítico. No entanto, a discussão não se pautou à proposta do evento; em parte, por falha minha, já que não conseguia traduzir em palavras algumas das questões sobre o tema que havia previamente escrito no roteiro. Ademais à minha tímida atuação, ainda consegui tropeçar algumas contestações sobre o tema, mas logo notei que o maior interesse da plateia estava tão somente em ouvir Zé Manoel cantar, do que também participar do debate que tentávamos estabelecer. Mesmo existindo um Édipo[3] entre eles, tentando provocar e aguçar o espírito tranquilo dos que estavam presentes. Mas logo percebi que não arrancaria questionamentos do público. A música acontecia, sua execução; a crítica, segunda criação, permanecia adormecida debaixo de nossas pretensões. Ricardo parecia não se incomodar com a apatia dos presentes, suas provocações e críticas eram feitas a par de tudo isso.

Para o lançamento do e-book, não houve um debate oficial, com hora, lugar, convidados, mas um Empório[4] no caminho dos que quisessem participar. Não houve nenhuma banda ou música, propriamente dita, mas uma espécie de crítica espontânea, coloquial, calcada pelo calor das horas, mais preocupada em rebater com a mesmice que permeia os segundos cadernos, as curadorias, os debates, os blogues, sites, comentários sobre música. Era uma crítica informal, concebida nas rodas de amigos.

O e-book de Ricardo é uma tentativa errática de mover com essas forças. Dois pequenos trechos chamam a minha atenção nesse momento, justamente o final do prefácio de Rodrigo Édipo e do livro, são eles: “O debate está aberto” e “o momento urge revoluções”. As provocações sobre o pós-mangue não são um fechar de portas, nem possibilidades; são aberturas, mais que fendas, mais que ruídos, são tudo, menos silêncio. O que nasceu como “mera” postagem na seção “Crônica” do blogue, transformou-se numa voz destoante do silêncio crítico que predomina sobre a música contemporânea de Pernambuco. Há mais exemplos que confirmam a regra. São diários. Basta abrir a seção de Cultura e perceber a apatia. Não faltam críticos, acredito. Mas uma postura mais agressiva dos segundos cadernos, uma atitude essencialmente política sobre o papel da cultura, dos eventos e produções culturais. O problema, a meu ver, parece muito maior e mais difícil de ter solução. Publicações alternativas, como revistas especializadas ou mesmo sites, devem estar escrevendo fragmentos dispersos da crítica que poderíamos ter na imprensa tradicional.

Foi engraçado perceber que tanto no lançamento do “Outros Críticos convidam” quanto do e-book, matérias com a foto de Ricardo estampada no jornal impresso suscitaram muito mais atenção do que qualquer tentativa nossa de provocar um debate com o público. Seja organizando coletâneas, sugerindo músicas, selecionando trechos de ensaios, postando vídeos, artigos, resenhas. Nada estimulava o público a questionar a cena musical pernambucana (com exceção de alguns artistas, infelizmente, reduzidos a se tornarem públicos da própria obra). Aquela moldura, diagramação e tipografia típica dos jornais, quase que sagradas aos olhos dos leitores, parecia dar uma aura de real importância para o evento cultural. De forma geral, os leitores ainda precisam que os jornais tradicionais ratifiquem a relevância dos produtos artísticos que são lançados. Já os cadernos culturais, muitos deles, se limitam a publicar trechos de releases, quando não releases inteiros, ou enchem a página com fotos, pequenas descrições e fragmentos de entrevistas. Assim, a crítica sobre música é frequentemente feita de hora, local e preço.

O que Ricardo falou no debate sobre música, escreveu em seus ensaios e beliscou, bebeu e sorriu no Empório, são partes fundamentais de uma mesma tentativa de fomentar a crítica e a criação ao mesmo tempo, seja na extinta banda Comuna, no projeto JMB em Comuna, no Ex-exus ou nas entrevistas que ele escreve na Revista Mi, todas essas produções são atitudes críticas e de criação, a favor da provocação como arma de ataque (não de defesa). Esse é o seu temperamento. Há outras vozes destoantes na imprensa, menos provocadoras, decerto, mas ainda vozes. Nunca imaginei que o meu silêncio no Empório fosse provocar um texto como esse, talvez seja verdade, “quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”[5].

por Carlos Gomes.

 

 

[1] Trecho de depoimento do escritor e professor Lourival Holanda no “Encontro de Interrogações” do Itaú Cultural, realizado em novembro de 2012.
[2] O livro Entrelugares: notas críticas sobre o pós-mangue (2012) reúne os ensaios que Ricardo escreveu, durante o primeiro semestre de 2012, para o blogue Outros Críticos.
[3] Rodrigo Édipo é editor da Mi – Música Independente em Pernambuco, e estava presente na plateia. Foi um dos poucos a tentar elaborar perguntas e provocar o debate.
[4] Por ocasião do lançamento do e-book, Ricardo Maia Jr., Rodrigo Édipo, Jarmeson de Lima (Coquetel Molotov), Diego Albuquerque (Mi e Hominis Canidae), Zeca Viana (músico) e eu, marcamos um encontro pela internet no Empório Sertanejo para conversarmos sobre música.
[5] Trecho do conto “O espelho”, de Guimarães Rosa.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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