crítica de boteco: Joana Liberal e Aida Carneiro

A seção Crítica de Boteco promove a cada encontro um debate sobre temas abordados na revista. Com o tema “Corpo, gênero e deslocamentos”, esta edição foi fotografada por Úrsula Freire e gravada no Edifício Texas, no Largo de Santa Cruz, em Recife-PE, com a artista visual Joana Liberal e com a mestranda em psicologia da UFPE, Aida Carneiro, que é integrante do Gema (núcleo de pesquisas em gênero e masculinidades).

A mediação foi feita por Karol Pacheco e Fernanda Maia, ambas integrantes da equipe principal da revista Outros Críticos.

Educações sexuais

Joana: O sexo tem que estar presente desde pequeno pra todo mundo, para quando acontecer um abuso sexual as crianças estarem cientes do que está acontecendo. A exposição individual “Toca”, que estou fazendo, provavelmente vai ter uma faixa etária. Eu não queria isso. O meu trabalho quer abranger todas as idades. São coisas que vão remeter a órgãos sexuais, ao sexo, mas não quer dizer que seja tão explícito assim.

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“[…] dando aula para a 5ª e 6ª séries, eu percebo o quanto eles precisam de Educação Sexual. A gente percebe que os pais querem inibir, restringir, não querem falar do assunto com eles.” – Fernanda Maia
Fernanda: É interessante isso. Eu lembro que quando pequena ganhei do meu pai um livro sobre Educação Sexual, mas não era amplo, só ensinando sobre reprodução sexual. E explicando coisas relacionadas à DST. Era destinando a crianças de 8 a 12 anos. Era uma coisa que eu não tinha visto, até então. E hoje, eu dando aula para a 5ª e 6ª séries, eu percebo o quanto eles precisam de Educação Sexual. A gente percebe que os pais querem inibir, restringir, não querem falar do assunto com eles. Eles ficam aprendendo com os próprios colegas. O WhatsApp é a maior fonte de compartilhamento. Às vezes eles comentam entre eles e a gente ouve. A gente vê que eles estão aprendendo da forma incorreta sobre sexualidade sem uma boa orientação sobre isso, e tem um tabu na escola sobre o assunto.

Joana: Tem tabu pra gente. Pra expor o Delas, Sheila (d’A Casa do Cachorro Preto) ficou: “Acho que vai ter que ser uma sala só pra você”. Por quê? Por que tem uma rola e uma periquita? E várias pessoas, Jeims Duarte, que é um artista foda daqui, ele fez duas rolas enormes como torres de prédio. Foi fabuloso. Nunca teve isso. E como era uma escultura que tinha volume, ela ficou meio assim. E pra essa exposição (nova) ela tá com o cu na mão (risos), tipo: “O que é que essa menina vai aprontar?”.

Karol: Sobre a infância, eu estive pensando, mas não só pensando, vivendo também. E não só eu, mas meu filho, primos, sobrinhos. O que se ensina aos meninos quando eles estão no momento de pureza? Dizem: “Fale feito homem. Não dance”. E eles vão se travando… E as meninas por outro caminho. Como vocês veem isso? Numa questão de gênero mesmo.

Aida: A sensação que eu tenho, falando de Educação Sexual. É muito discrepante desde o início. Às mulheres sempre reservado o lugar da casa. E o homem é sempre incentivado a estarem fora disso. São coisas muito sutis. “Feche as pernas, menina!”. Quem nunca ouviu isso? Só que o menino é incentivado há uma outra vivência. Uma coisa bem clichê: meninos se encontrarem para ficarem se masturbando juntos. Mas pras mulheres isso é um tabu até mesmo quando você é mais velha. A sexualidade do homem é incentivada desde cedo, até mesmo corporalmente a ser vivenciada isso em coletivo, em grupo. Essa conversa chega muito depois pras mulheres. Eu estava conversando com uma amiga minha como a gente é muito desinformada sobre a sexualidade e sobre o corpo. Estou passando por um momento especial porque eu estava em Porto Alegre e conheci muitas feministas. Nessa época, ia ter um curso sobre ginecologia natural só pra mulheres. E você não sabe nada sobre o seu corpo. É tudo muito estranho. E é uma forma pra você se empoderar. No momento em que você conhece sobre si, você se apropria desse corpo. Quando você é levada para um ginecologista pela primeira vez, sempre é um saber imposto. Você nunca passa por essa descoberta.

Joana: Isso se reflete também nos brinquedos. Eu estava em Belo Horizonte e fui comprar um presente para a minha sobrinha. O cara estava vendendo presentes educativos. Aí perguntou qual a idade e se era menino ou menina. Mas isso não deveria ser a pergunta, já que é uma coisa educativa. E ele: “Eu não vou vender um caminhão para uma menina”. “Por que não?”. “Vai que ela vira caminhoneira e você vem descontar em mim”. “Ah, então que se der uma boneca para um menino ele pode ser gay?”. “Não! Eu não quis dizer isso”. E acabei não comprando nada. A afetividade parece que é negada aos homens. Eles vão desde pequenos aprendendo a não ser afetivos, porque quer dizer homossexual, quer dizer frágil. E homem não pode ser frágil. Isso é muito foda. Eu sou uma mulher grande, eu tenho uma força que acabo quebrando muitas coisas e aí monto exposição, faço escultura, coisas que são geralmente rodeadas de homens e aí me acho realizada. E eu estava fazendo uma cadeira na faculdade de ateliê de escultura. O tempo todo os homens ficavam tentando me ajudar. E eu falava que não precisava de ajuda, que se precisasse eu iria chamar.

Aida: Mesmo se fosse determinante. Que problemas teria, o que é que tem? Uma mulher caminhoneira ou ser gay? Qual o problema as mulheres estarem se apropriando desse espaço?

Joana: A mulher tem uma força muito grande. Isso acaba amedrontando os homens. Acaba criando esse empoderamento dos homens. Porque acho que é tão forte que eles se sentem coagidos e ao mesmo tempo querem mostrar a força, enfim. E está rolando esse movimento da mulher dizer que é forte, sim. Isso está rolando um tremor nos homens, e vai de muito tempo.

Aida: A nossa sociedade é machista. De certa forma é um sistema todo organizado para isso. É muito comum, eu já reproduzi esse discurso, e vi muitas mulheres ao meu redor também falando isso. Quando a mulher nasce tem todo um arcabouço esperando por ela. Mas e se ela não quiser? Toda vez que alguém fala que está grávida, a primeira pergunta que se faz é se é menino ou menina, como se fosse a coisa mais importante nesse sistema. Porque vai dizer até onde ele/ela pode ir ou não.

Feminismos e sociedade

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“Está mais gritante a discussão de que não precisa ser mulher para ser feminista” – Aida carneiro

Karol: Existe o feminismo e dentro do feminismo tem o feminismo negro. De onde vem a necessidade dessas separações? Eu já ouvi que nós, mulheres negras, temos pautas diferentes. Como vocês veem isso?

Aida: O movimento feminista negro vem mostrar que o que se estava defendendo na categoria mulher não era tão universal assim. Na época a pauta era: “nós queremos trabalhar”. As mulheres negras já tinham que trabalhar. “Nós não queremos ter a obrigação de ser mãe”. Já as mulheres negras queriam ter esse direito. Que era um direito violado. Enfim, o genocídio negro. O movimento negro vem dizer que a categoria mulher que se estava defendendo não era universal. Foi aí que começou o feminismo lésbico também, que vem nesse mesmo momento histórico, pra mostrar que existem demandas específicas. E é quando a categoria mulher é questionada.

O transfeminismo é uma coisa mais recente, anos 1990 pra cá. Isso tudo faz parte de uma coisa, do feminismo se reinventando, renovando, repensando. Hoje, temos uma pauta crescente sobre a transexualidade e elas e eles estão mostrando como sofreram muito preconceito dentro do próprio movimento. Por exemplo, o que se denomina feminismo radical não aceitava mulheres trans. E é claro, não é toda feminista que defende isso. Existem ainda pessoas que dizem que mulheres trans não podem estar no movimento feminista. Mas o movimento transfeminista é muito mais amplo e está num contexto contemporâneo que vai questionar diversas coisas. Está mais gritante a discussão de que não precisa ser mulher para ser feminista. Tem gente que vai chamar de outros nomes, mas o que pegou foi o de transfeminismo.

Pra mim, não é um rompimento com o feminismo, mas ele se repensando. É uma demanda que está muito forte. Maria Clara puxa muito isso. E ela se diz afrodescendente transfeminista. Acho genial. Ela vai questionar várias coisas. Até o marcador de classe. Ela também se identifica como travesti, e aí já é uma outra discussão.

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“A gente já chegou nessa lucidez, nesse cristalino de perceber bastante coisa, que a maioria, a massa ainda não se ligou.” – Karol Pacheco

Karol: Eu nunca me debrucei sobre o feminismo, mas são estalos que deram em mim naturalmente, com as pessoas que eu convivo. Embora todo o meu contexto de nascimento e de família seja outro. Imagina uma família totalmente matriarcal que vive em prol dos seus filhos homens… É outra coisa. Uma coisa que eu queria saber é sobre algumas pessoas serem privilegiadas de informação. A gente já chegou nessa lucidez, nesse cristalino de perceber bastante coisa, que a maioria, a massa ainda não se ligou. Qual o contato que se tem com as pessoas que não tem relação com o tema? A minha preocupação é com essas pessoas, pois é inconcebível pra elas essas coisas que nós estamos pensando.

Aida: Eu não sei se é uma falta de lucidez. Mas tem uma questão do privilégio. Por exemplo, o feminismo chegou pra mim na graduação como um tema a ser estudado. Até então eu não tinha acesso a isso. Mas eu fico pensando que as pessoas encontram formas de lidar com isso, mesmo que não deem nome pra isso. Enquanto Núcleo de Pesquisa nós trabalhamos pensando no composto: pesquisa, ensino e extensão. E isso envolve uma relação da universidade com a população, de levar isso pras pessoas. E existem vários tipos de ações, campanhas que acontecem o ano inteiro. Desde ir ao Mercado da Boa Vista e ficar lá o dia inteiro conversando com as pessoas, divulgando campanhas, leis que são favoráveis. Passando material educativo, mas não só sobre o feminismo, mas sobre várias causas. Paternidade, licença maternidade, violência contra a mulher, leis sobre homofobia. Algumas atividades em escolas. Mas ainda acho que carece muito desse contato.

Exposições e violências

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“Quando uma mulher é abusada, ela esconde, Porque não quer se expor mais ainda” – Joana Liberal

Aida: Em Porto Alegre eu fui para um evento e conheci uma prostituta que se diz uma feminista autônoma. E acompanhando ela pelo Facebook, eu acho genial. Primeiro, que ela questiona: eu posso ser puta e posso ser feminista. Ao mesmo tempo ela fala como é difícil ser aceita no feminismo e no movimento das putas. Parece uma contradição, de que você não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Ela consegue problematizar isso e pensar em vários recursos. Por exemplo, quando ela passa por uma situação constrangedora no trabalho com algum cara escroto, ela pega e divulga publicamente. Ela usa um pseudônimo, mas conseguiu achar uma forma de…

Joana: Mas ela expõe os atos?

Karol: Faz que nem Joana Gatis fez com Ortinho, por exemplo.

Aida: Ortinho?

Karol: Ele é um músico… Num FIG há alguns anos falou no palco: “Ah, pode meter dedada que elas gostam mesmo. Eu só respeito as grávidas, porque todas outras querem isso mesmo”. Essa declaração deu a maior repercussão e ele pediu desculpas, disse que sempre quando bebe, toma umas e outras, acaba dizendo essas coisas. Mas nesse ano voltou a acontecer um episódio em relação a ele. Em que ele se meteu numa postagem de Catarina Dee Jah. Onde Joana Gatis também tinha se manifestado, brincado. E ele se sentiu ofendido e mandou mensagem privada (inbox) pra ela dizendo que x, y e z comeu ela e falou várias coisas. Ela deu um print daquilo e mostrou pra várias pessoas que se mostraram solidarizadas com ela, e teve alguma repercussão. No dia seguinte ele veio mais uma vez com a história de que tinha bebido e que precisava se tratar… Por aí. E aí entra na cena cultural daqui que tem muitos homens famosos que tem essa postura. Vez em quando você se depara com alguém assim.

Joana: Quando uma mulher é abusada, ela esconde, porque não quer se expor mais ainda. Não rola uma cumplicidade de você mostrar para as outras mulheres se tocarem. Eu parti do princípio de que agora eu vou ficar divulgando. Eu não faço publicamente no Facebook, mas estou falando para as pessoas.

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Foto: Úrsula Freire

Aida: Em Porto Alegre as mulheres são muito organizadas. Claro, na bolha em que eu caí. Eu estava numa bolha de feministas, enfim. Não que represente Porto Alegre. Eu fique sabendo de histórias muito doidas, de que quando rolava um caso de abuso ou de um cara escroto, ele era banido. Elas se organizavam de tal forma que os caras não entravam mais em festas, em canto nenhum. Eu fiquei pensando: caralho, que foda isso. Imagina você passar uma situação de violência, e no geral é a mulher que se isola.

Fernanda: Eu como trabalho com Educação, penso muito nesse lado. Não estou vitimando o homem, mas muitas das atitudes vêm da educação, do aprendizado deles, até de forma inconsciente. Eu fico imaginando até que ponto a atitude de banir pode ser ruim. Um homem ou um menino, alguém de 17 anos de idade. Como esse banimento vai ser ruim, se não teríamos uma forma de conscientizá-los.

Aida: A questão é muito mais, pensando em como provocar a mudança no outro. De ter esse tipo de resposta ou levar uma discussão para a pessoa que fez isso, seja o que for… Só que eu acho que depende muito da situação, do contexto, que é muito específico de cada caso. É muito comum em eventos. Por exemplo, num em que eu estava participando teve um abuso num alojamento. E imagine isso num evento sobre temas sobre sexualidade… E é muito comum. E o que fizeram? Criaram uma comissão de mulheres pra discutir o caso e resolveram banir o cara. Mas resumindo: a mulher nunca voltou e o cara foi banido do evento. A gente se questionou até que ponto isso vai mudar a atitude desse cara, a sua postura, e também como é foda a mulher deixar de ir por conta disso.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #8 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Desde 2008 atuam desenvolvendo projetos de crítica cultural na internet e em Pernambuco. Produziram livros e publicações, como a revista Outros Críticos, além de coletâneas musicais e debates, como os do festival Outros Críticos Convidam.

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