Cosmograma e Cosmo Grão

Acredito que Cosmograma, primeiro disco da banda pernambucana Cosmo Grão, sinaliza a consolidação de uma forma de enxergar o rock n’ roll ascendida na década de 2000: guitarras afinadas em ré ou dó, inúmeros pedais de fuzz, variações bruscas de dinâmica e andamento e intervalos melódicos de quinta diminuta, nona e cromatismos. Além disso, a estreia do quarteto instrumental formado por bateria, baixo e duas guitarras evoca alguns sentimentos e sensações perdidas durante a transição da etapa de composição e ensaio para a de gravação e finalização do áudio.

Não hesitaria em apostar que a Cosmo Grão tem um processo criativo que faz uso de jams como elemento catalisador da união entre composição e estruturação dos seus temas instrumentais. Liderado pela guitarra, o som da banda ecoa como algo feito à base da informalidade inerente a um ensaio com os amigos ou da curiosidade comum de querer sempre experimentar algo novo que existe entre os músicos. Também me ocorre que o quarteto responsável por Cosmograma talvez esteja mais preocupado em colocar a mão na massa e tocar seus instrumentos de fato, que sentar para uma reflexão acerca de sonoridades, conceitos, arte contemporânea etc. Dessa forma, quando me deparo com os nomes de algumas músicas como, por exemplo, “Mg” e “Mabombe”, só posso desconfiar que elas se referem ao estúdio de ensaios MG, no Poço da Panela, e à conterrânea banda instrumental Mabombe. Esse tipo de coisa, embora nada acrescente à composição, nos atinge como um brinde, como uma surpresa de ovo de páscoa, algo que não tem muita utilidade além da diversão descompromissada.

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A banda é formada por Chico Rocha (Guitarra), Thiago Menezes (Guitarra), Rafael Gadelha (Baixo) e Cássio Sales (Bateria/Samples). Gravado no Estúdio Casona, Candeias (PE), entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Arte de capa: Mariana Nascimento. Design: acasográfico.

Mixado e masterizado por Arthur “Dossa” Soares, um dos caras que mais tira som de guitarra que já conheci nessa vida, Cosmograma tem seu esqueleto gerado a partir das seis cordas. Apesar de enxergar uma clara influência de Tony Iommi em muitos dos riffs do disco, acredito que o interessante mesmo é perceber as pontuais inserções de arranjos e dobras de guitarra, um alinhamento estético que foi quase reinventado e popularizado na última década por Josh Homme e seu Queens Of Stone Age. Adotando escolhas melódicas e harmônicas sombrias, o grupo cria uma zona de conforto que sustenta todo o álbum até ser quebrada definitivamente na última faixa do trabalho, “Noite Soberba”, quando, a meu ver, o Cosmo Grão atinge seu auge. Tocada na que é uma das únicas ou mesmo a única guitarra limpa do disco, a composição captura a tensão das dissonâncias de sua harmonia e tira de evidência a distorção para realçar a criação de uma atmosfera mais cativante e menos gratuitamente agressiva. Apesar disso, para os interessados em timbre de guitarra de rock, Cosmograma é um passeio agradável por pedais de efeito, modelos de amplificador e demais deleites do universo guitarrístico.

Gravado no estúdio Casona, em Candeias, o trabalho de estreia do Cosmo Grão chegou a ser lançado pelo selo paulista Sinewave, direcionado aos amantes da música estranha, do noise, do post rock e de quaisquer tipos de experimentações sonoras das mais ruidosas e malucas. E aí acho que vale salientar que, mesmo sendo filho de uma época dominada pelas tags “stoner” e “rock”, Cosmograma também possui um pezinho enfiado no mundo da barulheira de bandas tipo o Sonic Youth e Nirvana. Em “Villa Verde”, sétima faixa do álbum, vale a pena observar como o solo de guitarra é gradualmente destituído de sua função melódica e se torna uma textura à medida que se aproxima do fim. Além disso, em vários momentos de baixa dinâmica do disco é possível notar a presença de arranjos e fraseados enterrados em reverb e alocados no fundo da mixagem, criando aquela sensação de paisagem sonora e de tridimensionalidade. Graças às quintas diminutas, sextas, nonas e demais intervalos soturnos do álbum, tive a sensação de estar penetrando no covil do satanás várias vezes ao longo desta resenha.

E aí, apesar de toda essa análise técnica acerca da composição e produção do disco, penso que tão importante quanto isso é tentar entender o contexto em que Cosmograma foi concebido – tentar elencar de forma pragmática algumas das características inerentes ao período histórico e à mentalidade vigente na cabeça dos roqueiros recifenses que andam por aí lotando estúdios pelas madrugadas da Florença dos Trópicos. Em primeiro lugar, todos nós músicos desta cidade convivemos com a frequente aparição do deus Môpa, ou, para os não-iniciados, com a aparição da entidade cósmica que surge em todos os shows recifenses e faz pararem de funcionar os amplificadores, microfones, mesas de som, retornos, pedais etc. Em segundo lugar, existe a ressaca mercadológica dos últimos seis, sete anos, quando os instrumentos musicais de ponta chegaram à cidade e se tornaram financeiramente acessíveis, gerando um hype incontrolável por adquirir mais e mais equipamento. Em terceira e última instância, eu citaria ainda a popularização das festas de rock e dos grandes festivais, que enfiaram goela abaixo das pessoas várias bandas “pesadas, mas com classe”, tipo o próprio Queens of Stone Age, o Royal Blood ou outras atrações que com certeza já tocaram ou ainda tocarão no Lollapalooza/Rock in Rio.

Assim, eu enxergo o surgimento do Cosmo Grão como um reflexo dessa época. O pé no noise eles têm porque depois de tanta môpa, todo mundo no Recife tem infelizmente. Os timbres e as texturas de guitarras eu vejo como algo contemporâneo a várias bandas da cidade, já que há uma década não era tão fácil conseguir uma Gibson Les Paul ou um pedal de distorção da Electro-Harmonix. E, por fim, o aspecto soturno e pesado de Cosmograma eu acredito que tenha vindo da união entre o repertório pessoal dos integrantes e essa incrustação do rock n’ roll stoner, do rock de festival grande, na mentalidade geral do jovem recifense de classe média. Para todos os efeitos, a estreia do quarteto pernambucano é um trabalho digno de audição, pois, embora não soe tão proeminente e artisticamente pensado quanto um Stoner Witch, do Melvins, ou mesmo um Pharmako Dinamica, da conterrânea banda AMP, Cosmograma é um álbum capaz de instigar uma reflexão sobre a cultura e os hábitos de um grupo e de um período histórico.

Foto: Aline Mariz

Publicado originalmente na ed. 12 da revista Outros Críticos.

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Músico e jornalista. Edita o site Neurose.

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