Contragolpe, contraporto

A 8ª edição do Porto Musical ocorreu no bairro do Recife, em Recife-PE, de 1 a 3 de fevereiro, com seminários, conferências, oficinas, debates, rodadas de negócio e apresentações musicais nos espaços do Teatro Apolo, Hermilo Borba Filho, Paço do Frevo e Praça do Arsenal

  1. “Tocar, tocar, tocar.”, Kiko Dinucci na conferência CONTRAPORTO: Mainstream pra quê?
  2. Durante os três dias em que passei no Porto, senti uma espécie de ruído intermitente instalado sobre o espaço.
  3. Golpe-ruído; mercado-ruído; política-ruído; cultura-ruído; música-ruído; corpo-ruído; memória-ruído; tradição-ruído; brega-ruído; canção-ruído; som-ruído.
  4. Eu prefiro ouvir as histórias de fracasso do que os cases de sucesso. Explico.
  5. A memória que Alexandre L’Omi L’Odò desperta é uma ação contínua; quer tomar toda a potência do gesto criativo para si – um ‘si’ que se revela nos séculos de exclusão e silenciamento de formas de produção e criação que não cabem (não cabem?) nos meios e mídias. Uma memória que salta os buracos das estradas do interior de Pernambuco e volta por uma estrada-vanguarda: a poesia-música de Anderson Miguel; a quebra sistêmica das narrativas de exclusão, a música que respira na mata, depois das horas de agonia e silêncio; barulho, baile solto, centro cultural bongar de pé; sumos da conversa Gestão Cultural em Contextos Tradicionais, com Alexandre, Anderson, Siba e mediação de Marileide Alves, produtora do Bongar.
  6. Ano passado, no Alto José Bonifácio, depois da exibição do filme Estás vendo coisas, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, num debate mediado pelos próprios estudantes de uma escola pública, as falas e questionamentos deles mesmos sobre o brega, os músicos, MCs, as letras etc. se desenvolviam com profundidade, sem o ranço preconceituoso de quem só vê machismo e misoginia num determinado gênero musical. Eles próprios questionavam e cantavam o brega. Sim, é possível viver a música ao mesmo tempo com afeto e crítica.
  7. Mediar é pôr-se criticamente, é ouvir outras vozes e deixar o som-crítica se propagar. Quando um fã media, temos, no máximo, o som opaco de suas próprias convicções no ar.
  8. As plateias estão cada vez mais diversas, os temas e discussões estão se ampliando e atingindo mais profundamente a questões que, antigamente, ficariam em segundo plano. O músico Mauricio Pereira pôs em conta a desigualdade social. Juçara Marçal falou num tempo de transição – a música é o contragolpe.
  9. Festivais de música, assim como Editais de fomento à cultura, são veios, não são fins em si mesmos. Sozinhos, não suportariam sustentar um mercado diverso e complexo de música. Por mais horizontal e variado que sejam, sempre que houver um recorte, haverá algum nível de exclusão. Curadorias como aríetes – essa palavra perigosa.
  10. No Porto a dinâmica mais funcional, necessária, expôs os caminhos que circundam o mercado da música. No Contraporto mais cortes e contundências. Na Praça e no Paço a música na rua, o condor que sobrevoa a baía, o cais – o mar periférico que também é mar.

Foto: José de Holanda

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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