Caetano e seus precursores


“O fato é que cada escritor cria seus precursores.
Seu trabalho modifica nossa concepção do passado,
como há de modificar o futuro.”

(Jorge Luis Borges)

 

A canção “A Bossa Nova é foda”, que abre o novo disco de Caetano Veloso com a BandaCê, Abraçaço (2012), formando uma trilogia com os álbuns Cê (2006) e Zii e Zie (2009), retoma criticamente o movimento musical que revelou Tom, Vinicus, Lyra, entre outros, mas, sobretudo, João Gilberto. A música impõe uma outra leitura do passado. Não se trata da Bossa Nova doce, lírica, contemplativa e amorosa; mas da agressividade do “homem cruel, destruidor, de brilho intenso, monumental”, representado, ironicamente, no momento em que a BandaCê troca a guitarra pelo teclado, e Caetano, o canto urgente pela voz doce, calma. Pista falsa. Logo retoma a trilha e cita nominalmente lutadores que tornaram famoso o MMA no Brasil. A intenção em citá-los, parte já de uma tradição de compositor, presente desde o Tropicalismo, em unir elementos aparentemente opostos para criar um efeito novo, por vezes, surpreendente. A Tropicália é composta por um mosaico de citações, referências, pastiches, mas não é só isso. Caetano consegue, em Abraçaço, como nas canções tropicalistas, unir o comentário crítico, evocado nas letras, com a canção pop, e permite uma assimilação entre texto e som, que pode ser cantada, decorada, repetida. No entanto, o desgaste natural da reprodução que a canção menos experimental nos impõe, em Caetano, é o que nos incita a reouvir a música, não para cantá-la, dessa vez, mas com a intenção de decifrá-la. Procurar compreender a tese que Caetano defende sobre a agressividade presente na Bossa Nova não deve ser tarefa fácil. É preciso reler o tempo, mudá-lo. João Gilberto, o “bruxo”, Bob Dylan, o “bardo” e Carlos Lyra, o “magno”, são as primeiras chaves dadas por Caetano na letra da música para decifrarmos a canção.

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João é a síntese da Bossa Nova, principal referência estética, responsável pelo que há de experimento, bruxaria, recombinação e transformação na música. Ele, mais que os outros, com a sua tradução particular do samba, foi o primeiro fulgor para o que conhecemos como Bossa Nova. Caetano canta e traduz a sua música a par dessas lições. A Tropicália foi um retrato possível da Bossa Nova. Anárquico, irônico e crítico. Carlos Lyra também pensou criticamente a Bossa Nova, mas ao contrário dos tropicalistas, sua visão era pautada por uma visão tradicional da canção brasileira. O caldo tropicalista não significou muita coisa para ele. “A intenção era maravilhosa, mas não chegou a ser o que eles queriam. Qual é a filosofia, o que é a música? Ninguém sabe o que ficou, a Bossa Nova é clara. Sobraram as cabeças de Caetano e Gil. A Tropicália não foi definitiva e aceito que me convençam do contrário”[1]. Já Bob Dylan empresta a Caetano a verborragia poética, a metáfora indecifrável, o enigma da canção, a poesia das letras, o intertexto e suas máscaras. Tanto Caetano quanto Dylan modelaram – com sua criatividade – uma tradição, sempre muito imposta na canção popular. Caetano precisou revirar a Bossa Nova do avesso com os álbuns tropicalistas, e Dylan incorporou o folk de Woody Guthrie, até também revirá-lo. Ambas atitudes agressivas em face de uma tradição que não deseja ser destruída, mas traduzida criticamente.

É esse o papel que Caetano vem exercendo durante todo esse tempo. Pôr o passado criticamente em xeque. A BandaCê põe em pauta todas as outras bandas que ele montou. Abraçaço (2012) impõe uma nova leitura de Cê (2006) e Zii e Zie (2009). Temas possíveis para um próximo texto.

por Carlos Gomes.

 

P.S.: O título é uma alusão a “Kafka e seus precursores”, de Borges, e aparece como epígrafe do texto.

[1] Entrevista de Carlos Lyra na Folha da Bahia, edição de 02/09/2005, disponível em
http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=193>

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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