Avante ao vivo, Siba

por Bernardo Oliveira*.

Finalmente assisti ontem ao show do Siba, relativo ao disco Avante, de 2012. Difícil descrever o tamanho do acontecimento. Avante representa um terceiro momento na carreira de Siba — considerando sua trajetória desde o Mestre Ambrósio até a fuga para a Zona da Mata, momento que rendeu a obra-prima Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar (2008).

Repleto de sutilezas e sacações, Avante ainda não foi devidamente decodificado e interpretado pela crítica musical brasileira. Em termos musicais, Siba e sua banda realizam uma operação original, tanto do ponto de vista da composição quanto dos arranjos. No show, toda essa originalidade se converte em acontecimento. Na composição, ritmos e temas confinados nas gaiolas do folclore midiático e acadêmico, como o coco e a ciranda, são mestiçados com guitarras e baterias do hardcore, do funk, da balada brasileira (também conhecida como “brega”). Não são “atualizados”, como esperamos quando ouvimos esse papo de “mistura”, geralmente atribuindo a pecha do folclore aos ritmos nordestinos, e a “modernidade” ao rock e ao hip hop (ora, não é bem assim).

Como “poeta” e “compositor”, Siba não para separa a poesia cantada da poesia escrita, mas ressalta que é possível assimilar seus textos de muitas formas, inclusive “sonoras”. Ironia fina, senso de observação, rimas invulgares, gosto pelo delírio e pela justaposição de imagens são características observadas. Nos arranjos, o decantado “complexo de harmonia” de grande parte da música brasileira é substituído por uma concepção climática, econômica e por vezes intrincada, na qual os instrumentos produzem trançado rítmicos. Vale citar a contribuição da bateria de Antônio Loureiro, da percussão elegante de Mestre Nico, do grave inédito da tuba de Léo Gervásio, e das guitarras de Rodrigo Caçapa, que com Siba produz um diálogo com influência perceptíveis da guitarra africana congolesa, malinesa, etc.

Siba é um dos “poetas sambadores” mais fundamentais e representativos desse Brasil contemporâneo, rico, complexo e em conflito. Abaixo uma das músicas que mais gosto do Avante, mas que infelizmente não tocou ontem.

* Texto escrito sobre show realizado no dia 18 de julho no SESI Cultural Rio de Janeiro.

Share Button

Professor de filosofia da Faculdade de Educação/UFRJ, crítico musical e pesquisador.

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *