Almir Guineto: sambista completo

“Ioiô moleque maneiro
vem lá do Salgueiro
e tem seu valor.
Ele toca cavaco, pandeiro
e no partido alto
é bom versador.”

Os versos de Cesar Veneno, apesar de elogiosos, não dão conta do gênio de Almir Guineto. Vale a pena acompanhá-lo na “segunda” (como nos referimos à estrofe nos meios pagodeiros):

“Foi num samba pra frente
que eu vi um valente
versar pra Ioiô
Mas ele estava indecente
deixando o malandro
de pomba rolô.”

Almir Guineto (derivação do apelido magnata, que evoluiu para magneto e, então, Guineto) não era somente um mestre do Partido Alto, desta forma de samba calcada na arte de fazer versos de improviso. Tampouco se resumia a um compositor versátil, que alcançou sucesso de público investindo na renovação do samba. Suas capacidades excediam também o grande instrumentista, pois além de tocar cavaquinho, violão e percussão com maestria, reinventou um instrumento outrora associado à música norte-americana, o banjo.

Almir era mais do que um “sambista” ou um “artista completo”. Como postulava um célebre filósofo antigo, estamos diante de uma força demiúrgica, um “artesão divino” capaz de parir o novo e dar outra forma à matéria existente. Almir Guineto era, antes de mais nada, um “demiurgo” que redefiniu os paradigmas do samba. Após a revolução do Estácio nos anos 1930, Guineto e seus comparsas do Cacique de Ramos constituíram-se no final dos anos 70 como os grandes arquitetos, renovadores e experimentadores do samba e da música brasileira no “século do progresso”.

Almir de Souza Serra nasceu na Rua dos Junquilhos (ou simplesmente Junquilho), “a 500 metros da quadra da Acadêmicos do Salgueiro”, praticamente dentro da Escola, que fora fundada em 1953 a partir da reunião de duas agremiações locais, a “Azul e Branco” e a “Depois Eu Digo”. Seu pai, Iracy Serra, grande violonista e integrante da ala dos compositores do Salgueiro, participava do espetáculo “A Fina Flor do Samba” que ocupou as segundas-feiras do Teatro Opinião em 1966. Podemos vê-lo em ação sob a direção de José Ramos Tinhorão no Programa Resgate com a Velha Guarda do Salgueiro.

Sua mãe, Nair de Souza, a célebre “Dona Fia”, era compositora, costureira da Escola e uma das personagens principais da Acadêmicos do Salgueiro. Seu irmão Francisco de Souza Serra, conhecido como Chiquinho Serra, foi um dos fundadores do grupo Originais do Samba, do qual Mussum fazia parte. Almir se tornou amigo de Mussum, que o convidou a viajar com o Originais ao redor do país. Outro irmão, Lourival Serra, mais conhecido como Mestre Louro, o maior Diretor de Bateria da história do Salgueiro.

A comunidade portava algumas características particulares, justificando em parte seu lema informal: “Nem melhor, nem pior, apenas diferente”. Nesta época, o Salgueiro abrigava crenças e manifestações culturais diversas do samba, toda uma diversidade de matizes musicais e culturais que se fixaram na região a partir de finais do século XIX com a decadência das plantações de café do Vale do Paraíba, do Sul de Minas e do Norte Fluminense: o Jongo do Seu Castorino, o Caxambu, o Calango, a Macumba etc. O caldeamento cultural promovido pelo êxodo de negros Bantos trouxe para o Salgueiro a gama de danças e ritmos que circunscreviam essas comunidades, influenciando decisivamente o estilo de Almir enquanto compositor e instrumentista. Quando criança, percorria becos e vielas do Salgueiro batucando lata e angariando fundos para a realização da Folia de Reis, enquanto Sua Tia Estefânia comandava a roda de Jongo em seu terreiro no cume do Morro.

Na virada da década de 1960 para os anos 1970, é notória a profunda influência que Almir exercia nos rumos da Escola, ao lado de grandes compositores como Djalma Sabiá (hoje com 91 anos), Noel Rosa de Oliveira, Geraldo Babão, Anescar Rodrigues, Zuzuca do Salgueiro, entre outros. Não obstante, conta que Almir e seus irmãos, ainda jovens, se dedicavam a bolar um “som elétrico” com guitarra do pai e bateria improvisada, executando alguns hits dos Beatles e de Roberto Carlos. Alguns amigos próximos contam que, interessado nas melodias e harmonias, Almir conhecia e admirava a música dos Beatles.

Originais do Samba.

Em meados dos anos 70, Almir mudou-se para a cidade de São Paulo para acompanhar o Originais do Samba como cavaquinista. Nesta época, destacava-se como instrumentista, mas a partir de 1975 passa a emplacar suas composições em discos de grandes grupos e intérpretes. A primeira delas, “É Ouro só”, composta em parceria com Mussum, integrava o disco Alegria de Sambar, lançado pelos Originais em 1975. Beth Carvalho emplacou sucessos como “Coisinha do Pai”, “É, pois é” e ”Pedi ao Céu”. Participou do disco Tendinha de Martinho da Vila com Neoci, Jorge Aragão, entre outros, realizando shows memoráveis por todo o país. Até hoje o disco é considerado como um dos melhores gravados por Martinho.

Participou da fundação do maior grupo de samba da história, o Fundo de Quintal, com alguns dos companheiros que frequentavam o pagode do Cacique de Ramos às quartas-feiras. O grupo lançou Samba é no Fundo de Quintal, seu primeiro disco, em 1980, apresentando outras maneiras de compor aliadas às sonoridades trazidas pelos instrumentos inventados. No ano seguinte, como intérprete de “Mordomia”, samba composto por Ary do Cavaco e Gracinha, ficou em terceiro lugar no prêmio MPB Shell. Com seu trabalho solo não foi diferente: seu legado compreende treze discos e mais de trezentas composições gravadas. Por onde passou, Almir catalisou com vigor e precisão uma série de inovações que, não obstante, atraíram a atenção do público.

Inovações

A invenção do Banjo é causa de controvérsia, mas em nenhum momento se questiona a autenticidade inovadora da sua maneira de tocá-lo. Para alguns, este instrumento que já circulava no samba a partir d’Os Oito Batutas, foi aplicado ao pagode por sugestão de seu amigo Mussum. Almir teria adotado o instrumento por razões acústicas, já que, ao contrário do cavaquinho, o volume do banjo era capaz de soar em pé de igualdade com as percussões. Porém, destacou-se também pelo modo original com o qual passou a executar o instrumento, afinando-o à moda das últimas cordas do violão (D G B E) e palhetando as cordas velozmente, fazendo-as tremular conforme o suingue de outros dois instrumentos gestados na quadra do Cacique, o repique de mão e o tantan. O efeito bombástico dessa combinação, calcada na justaposição de síncopes e fremidos velozes, criou a sonoridades do Cacique.

Diretor de bateria da escola de 1968 a 1970 (os dois últimos anos com Gavilan) e com Louro entre 1972 e 1973, Almir teve a ideia de assimilar o toque da caixa do Salgueiro, supostamente criado por Mestre Denis, ao toque do banjo. A bateria do Salgueiro teria sido forjada a partir da batida do Alujá, o toque sagrado de Xangô, o orixá padroeiro do Salgueiro. Há versões que contestam essa influência, afirmando que o toque de caixa do Salgueiro se assemelha ao toque para Oxóssi. Em todo caso, Almir absorve criativamente esta influência, associando-a também ao telecoteco do tamborim. A síncope específica do toque de caixa do Salgueiro produz um efeito de “rufo” através do qual a baqueta repica sobre a pele, cortando o ritmo antes de retomar a cabeça. Segundo Nei Lopes, a diferença reside na forma como Almir empregou o banjo nas rodas de pagode do Cacique de Ramos, fazendo-o soar como uma espécie de “reco-reco harmônico”. Um instrumento que se somava à sonoridade peculiar do Cacique, capaz de dialogar de igual para igual com as percussões e com a harmonia.

Sua vida de compositor gravado e cantado começa com uma faixa lançada pelos Originais do Samba em 1975, “É ouro só”, parceria com Mussum, uma homenagem à Bahia. Em 1979 cai na boca do povo com gravações em discos do Originais do Samba e Beth Carvalho. No álbum No Pagode, Beth gravou “Coisinha do Pai”, samba de embalo composto para o Cacique de Ramos em parceria com Jorge Aragão e Luiz Carlos Chuchu. Como intérprete o sucesso veio com “Caxambu”, parceria a oito mãos protagonizada por quatro compositores do Morro do Tuiuti, Élcio do Pagode, Jorge Neguinho, Zé Lobo e Bidubi. Gravado em 1986 no disco Almir Guineto, “Caxambu” fez com que Almir viajasse o Brasil inteiro. Curioso é que Jongo e Caxambu não eram o seu forte, de modo que a composição era um samba mesmo, inspirando no batuque da umbanda.

Compunha com maestria as canções pungentes e os partidos fulgurantes, artesão de releituras arrojadas do samba de roda, do partido alto, das valsas, pontos de umbanda, de músicas românticas e religiosas, cantou a solidão, a superação (“tem que lutar!”) e o amor com irreverência (“aquela boca sem dente que eu beijava, já está de dentadura…”). Com dois de seus parceiros assíduos, o paulistano Luverci Ernesto e o salgueirense Luiz Carlos Chuchu, compôs uma das mais belas canções da música popular brasileira, ignorada por nossos críticos, “É, pois é”. A melodia exprime a intenção do lamento, da súplica, servindo de fio condutor para uma trama tingida por imagens bíblicas, rancor, arrependimento e traição. Os temas e elementos bíblicos são retomados dois anos depois em outra parceria com Luverci, “Pedi ao Céu”: “Pedi ao céu um remédio que possa curar…”

Como compositor, Almir sempre soube fazer das parcerias um terreno fértil. Por exemplo, Caprí, seu primeiro parceiro. Adalto Magalha, co-autor de “Rendição”, foi outro colaborador constante e fundamental, um dos que mais dividiram sucessos com Almir. As canções com seu amigo e parceiro Guará da Empresa renderam uma homenagem: “Dalila, cadê Guará?!”, primeiro de muitos sambas com Arlindo Cruz. Compôs verdadeiros petardos com Beto Sem Braço, Zeca Pagodinho, Sombrinha, Carlos Senna, J. Laureano e, mais recentemente, passou a trabalhar com aquele que era seu maior discípulo, o salgueirense Fred Camacho. Compositor refinado e exímio instrumentista, Camacho leva adiante a amplitude do pensamento harmônico e das melodias sinuosas de Guineto.

Suas melodias exprimiam combinações imprevisíveis, através das quais se poderia entrever a valsa romântica brasileira dos anos 1930 e a percussão proeminente do pagode caciqueano, em clássicos como “Lama nas Ruas” (letra de Zeca pagodinho, melodia de Almir) e “Sá Janaína”, delírio trans-religioso, parceria com Luverci e Wilder (Dedé Paraíso). “Não quero saber mais dela” assemelha-se a um samba antigo da Portela; “De Lurdes” é um samba-rock repleto de convenções de arranjo; “Bombaim” opera a partir da aceleração do andamento característico do samba de roda baiano. No que diz respeito às letras, Almir fazia uma utilização inteligente do “português quebrado”, como na homenagem ao irmão Louro, “Gari Padrão”: “Louro, segundo eu sube, tu foste eleito gari padrão lá da Comlurb…”

Intérprete generoso que fez sucesso com a canção de amigos, como “Insensato Destino”, “Mel na Boca” e “Conselho”. Gravou uma composição de sua mãe, “Saco Cheio” (em parceria com Marcos Antônio), que apregoava versos de advertência divina com humor cortante: “Os habitantes da Terra estão abusando, ao nosso supremo divino sobrecarregando…” Contam que o Arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Dom Eugênio Sales, não gostou e protestou contra a música.

Seu canto também era uma síntese de muitas vozes: podemos escutar o manejo preciso da eloquência de Orlando Silva, a divisão sincopada de Ciro Monteiro, o timbre áspero e potente de Clementina de Jesus, e até mesmo a influência do scat singing norte-americano. Certa vez, numa entrevista, definiu sua voz como “voz de crioulo americano do jazz”, possivelmente em referência ao timbre rouco de Louis Armstrong.

Reconhecimento popular e racismo

Responsável por transformações na música de sua época, Guineto obteve pleno reconhecimento de seu público e dos maiores sambistas do Brasil. Por seu trabalho inovador, poderia ser considerado um “designer de linguagem”, renovador das formas do samba. Seus sambas eram verdadeiros dispositivos de delírio, prazer e comunhão, e dificilmente se vai a um pagode ou a uma festa popular em que as músicas de Almir Guineto não sejam tocadas. Lançou discos de sucesso enquanto suas composições ganharam mundo na voz de intérpretes como Beth Carvalho e Zeca Pagodinho, tornando-o ainda mais conhecido e respeitado entre o povão, mas não pela academia ou pela crítica especializada. Muito menos pela grande imprensa, que sempre o tratou como um nome restrito ao gênero “pagode”, quando ele deveria ocupar as primeiras posições de qualquer um desses rankings. Basta conferir nas listas de “melhores de todos os tempos” das principais revistas e jornais do Brasil e dificilmente se encontrará o nome de Guineto ou de qualquer outro artista ligado ao Cacique de Ramos. Interpreto este flagrante descaso sob a dupla insígnia da nossa conhecida discriminação social e, sobretudo, racial.

Mas Almir foi além e foi maior, bamba e “artesão divino”. Seu jeito próprio de tocar o banjo alçou este instrumento, até então secundário, à mesma importância do cavaquinho no conjunto de samba. A riqueza nos modos de compor e cantar engendrou uma série inesgotável e variada de sínteses entre sonoridades e influências que combinavam aspectos tradicionais com novidades que cativaram o público de imediato. Por todo o tempo em que esteve em atividade, apostou no seu próprio estilo, transitando com liberdade por muitas tradições. Suas canções operam com uma diversidade assombrosa de perfis e aspectos, mas seu grande diferencial era o elemento timbrístico: a sonoridade potente e a divisão suingada da voz aliada ao banjo original diferiam de tudo o que se conhecia em termos de música no Brasil. Sua presença exalava o calor dos pagodes feitos na raça com todos os participantes cantando e batendo na palma da mão.

Como Arlindo Cruz costuma dizer: “Se o samba tivesse uma imagem, esta seria a de Almir Guineto”.

Este texto é uma ampliação de artigo publicado pelo autor na Folha de S. Paulo.

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Professor de filosofia da Faculdade de Educação/UFRJ, crítico musical e pesquisador.

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