Adeus à pessoa

Por Karol Pacheco.

PAPANGUS…

Postes mascarados, muros mascarados, fachadas mascaradas, camisetas mascaradas etc: retratos decorados da tradição carnavalesca dos papangus, velada no município agrestino de Bezerros, a 106 quilômetros do Recife. Apesar da decoração municipal e da euforia hospitaleira dos moradores da região nos dias de Momo, o que se percebe – a cada passo em direção ao foco da festa, onde as ladeiras e o sol mais parecem olindenses – são figuras e imagens diferentes daquelas propagadas nos outdoors e comerciais do Carnaval de Pernambuco.

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Bernardo Soares/Secult-PE Bumba-Meu-Boi e Papangus de Bezerros na praça São Sebastião.

Conta-se que o gosto pela brincadeira dos papangus começou há mais de 100 anos, a partir de um grupo de mascarados que visitavam as festas em Bezerros e – no mistério de não se saber quem eram – comiam e bebiam à vontade, parecidos como faziam os Irmãos Eventos recifenses, só que sem revelar as suas respectivas identidades. Como reza a lenda em torno da origem dos papangus, contada geração após geração de bezerrenses, o único modo da identidade deles ser revelada não seria facilitado por eles; teriam de descobrir.

No polo central dos festejos municipais, Carnaval de 2012, mais precisamente na cabine de apoio da Secretaria de Turismo da Cidade ouvia-se, hora ou outra, as mesmas perguntas dos mais variados sotaques: “onde estão os papangus?”, “os papangus chegam que horas?”. Eram turistas que compraram a imagem do carnaval tradicional da cidade e se sentiam insatisfeitos com a aquisição. Onde estariam os papangus, cartões postais coloridos e misteriosos da Terra dos papangus?

Chapeuzinhos Vermelhos. palhacinhos, indiozinhos, odaliscazinhas. Papai Noel! A sociedade globalizada na qual vivemos estabelece dinâmicas repetitivas, cada vez mais presentes na cultura do Interior – outrora dita “simplória” e “primitiva”, como se virgindade de vícios sociais fosse defeito. Os padrões globais se espelham nos foliões bezerrenses nativos, através das representações de signos de outras culturas – a exemplo da francesa, da literatura mundial, e até do Ciclo Natalino. As crianças que são as portadoras do bastião. O ser humano é muito; mas nos ensinam a sermos preguiçosos e negligentes com a nossa própria criatividade – e identidade – desde a mais tenra infância.

Os meses que antecedem os quatro dias de Carnaval inspiram a conspiração em torno da fantasia, que no seu formato mais tradicional é composta pela máscara e kafta (as roupas coloridas). Confeccionar o próprio figurino garante ao brincante a detenção do sigilo acerca de sua identidade e, por conseguinte, a administração do anonimato do Sábado de Zé Pereira à Quarta-Feira de Cinzas. O adeus à pessoa acontece no ínfimo momento em que a magia prevalece sobre a couraça do ego herdado pela sociedade.

A ideia do papangu sopra a nossa identidade social. Não passa nada, pois tudo o que nos define como um ser social, a partir das características estéticas, passa batido: rosto, cabeça, ombros, braços, mãos e seus dedos; tronco, coxas, pernas, pés e seus dedos. Nem uma unha sequer, nem um fio de cabelo é distraidamente revelado. A voz ainda menos: para preservar a identidade, a voz do papangu é distorcida para os tons grave ou estridente.

Michel de Montaigne, em ensaio de Virginia Woolf, afirma que a sua alma se reveza entre “acanhado, insolente, casto, luxurioso, falador, taciturno, laborioso, delicado, engenhoso, estúpido, melancólico, bonachão, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, e liberal e avaro e pródigo”, sendo ela tão indefinida e tão complexa que pouco corresponde à versão apresentada em público. A ensaísta continua dizendo que o homem pode passar toda uma vida tentando localizar a sua alma. Este prazer pela perseguição constrói, no mês de fevereiro, pequenas biografias de Carnaval, tão verdadeiras quanto efêmeras; como a alma, “instável como galo de catavento”.

CARETAS E VEINHAS…

Os gostos e contragostos – as verdades – que as curvas do rosto explicitam até para os interlocutores menos atentos, sobretudo quando elas estão expostas e iluminadas pelo brilho do sal suado, talvez escapem escassos pelos orifícios oculares de uma máscara. Não se sabe quais os vícios e virtudes da pessoa por trás dos tradicionais Caretas e Veinhas, figuras tradicionais do Carnaval de Triunfo, sertão do Estado de Pernambuco. “Começou com um grupo de reisado, e no reisado tem uma figura mascarada que se chama Mateus”, conta uma moradora. “E o Mateus bebeu e foi expulso dos grupos. Aí saiu pelas ruas ladeirosas de Triunfo, sozinho mascarado. Aí daí nasceu o Careta, mas só que durante, vamos dizer, cem anos, já mudou bastante.”

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Foto: Ricardo Moura

“Botar a cara no sol” é aceder à exposição; ser definido por contextos; ser impostado a estereótipos. A magia da máscara, pelo contrário, consiste num ínfimo talvez: é o dito pelo não-dito. É como se os foliões deixassem seus RGs em casa e se resetassem feito jogo de videogame, iniciando nova partida. Viram, então, uma tela em branco, embora colorida – ou um computador formatado: limpar o Disco Local (C:); limpar dados de navegação; excluir histórico de pesquisa. Nos demais 361 dias do ano, na contramão do Carnaval, se torna cada vez mais raro e difícil manter o anonimato com tantas fotos de perfil e a busca viciada pelo “visualizado às”. É como diz, sampleada com áudios de nova mensagem em chat, a música-título do álbum Computador de Ciço, um coco de roda: “Ô, Ciço, computador mandou te chamar.”

Em face da onipresença, onipotência e onisciência que redes sociais como o Facebook detêm, sendo inclusive a plataforma um dos principais meios de difusão da música independente, fica difícil manter o anonimato com tanta “marcação de pessoas”, “com quem você estava?” etc. Neste contexto, transitam os músicos ______________________________ do duo Radiola Serra Alta, que, mascarados no palco, assumem as personas do Careta e da Veinha, figuras conterrâneas e centenárias.

RADIOLA SERRA ALTA

Não nos identificamos. Um se chama Careta e o outro Veinha (velhinha). É uma característica da brincadeira, o anonimato; isso desperta a curiosidade das pessoas tanto pra ouvir a nossa música quanto pra assistir nossos shows. É importante manter as identidades anônimas. Por isso, posso ser a Veinha ou o Careta. No imaginário do público, é claro, mas aqui nessa conversa assino como Careta e não como ___________________. São figuras do Carnaval daqui de Triunfo. É um êxtase louco, a brincadeira do careta. Brincava na infância, adolescência.

Imagine uma cidade onde todos se conhecem. E durante três dias você ter o benefício de brincar com as pessoas, se despojar de sua imagem pré-concebida. É essa a essência que tentamos capturar. Nossos rostos não importam, nem as nossas identidades. O que importa é o som, nosso batuque binário. É com as máscaras que realmente mostramos quem somos em essência. Pode soar contraditório, mas é dessa forma que faz sentido o Radiola Serra Alta.

Somos de uma geração que foi bombardeada de cultura pop norte-americana. Isso minou e desmantelou a identidade cultural de nossa geração, nos desconectou de nossas raízes. Lemos e ouvimos a Tropicália, mas presenciar o Manguebit nos abriu portas e possibilidades. Possibilidades de diálogos entre culturas e estéticas. Somos resultado desse processo.

Saindo do Recife, do mangue, e chegando no Sertão… Como foi esse contato com o Manguebit? O que seria esse “batuque binário”?

Crescemos ouvindo cutilada, coco, aboio, baião, trupé. Aos poucos íamos deixando de ser só testemunhas e nos tornamos protagonistas desse momento pós-mangue, se pode ser chamado assim. O batuque é nossa essência. Só o que fazemos é utilizar as ferramentas da música eletroacústica e reprocessá-la.

Nesse disco, ‘Computador de Ciço’ (2014), tem muito mesmo dessa conversa mídia mais raíz, tecnologia a serviço dos caboclos…

Computadores, samplers, sintetizadores: se os nossos antepassados tivessem esses equipamentos em mãos, ele também não usariam em suas sambadas? Acho que sim. Pode ser a partir de qualquer ponto: um sample pode ser um mote como também um mote pode virar sample. O melhor de tudo nesse processo é que nada é pré-definido. Sempre dialogamos com a inspiração, com o que temos em nossas vivências, como entendemos o mundo.

Juntando esse som com a história do careta e da veinha, das máscaras, como é a instiga tocando ao vivo e mascarado? O jogo, enfim?

Tocar fantasiado é tão divertido quanto sair no Carnaval, pois essa história de ocultar identidade é o que faz a magia na rua ou nos palcos – porque as duas figuras são bastante performáticas, então a gente fica muito à vontade pra operar os aparelhos e ao mesmo tempo nos divertir. É um êxtase, um ritual. Será que somos nós mesmos que subimos no palco ou somos só os mensageiros?

 

MÁSCARA COMO LUPA

“Por causa desse uso da máscara do Mestre Ambrósio na banda, as pessoas adotaram como se fosse a do Mestre Ambrósio; mas essa foi uma que Siba pintou e a gente escolheu ela pra colocar o meu Ambrósio (o personagem que aparecia no palco, como se fosse o personagem da banda). Além da banda se chamar, tinha o personagem, que aparecia nos shows”.

São muitos os personagens de Cavalo Marinho; uns 70 varando a madrugada. A brincadeira é uma espécie de teatro de rua da Mata Norte de Pernambuco, em municípios como Aliança, Condado e Goiana, conduzido por música e dança. Máscaras, chapéus, paletós, penas, golas ou armações de bichos – que podem, inclusive, surgir em perna de pau ou cuspir fogo – caracterizam as dezenas de figuras em cena. Figuras que improvisam, dialogam e interagem com o público.

“O Mestre Ambrósio é uma figura que negocia figuras; então o Capitão Marinho manda chamar ele pro baile porque quer comprar e negociar algumas figuras pro Cavalo Marinho”, explica o músico Helder Vasconcelos, acrescentando que, para o Seu Ambrósio (como também é chamado o vendedor-personagem) conseguir vender, ele acaba mostrando as especificidades de várias figuras. “Ele acaba sendo uma síntese. Ele apresenta todos os personagens do Cavalo Marinho. Ele carrega o que quiser na mala dele; também tínhamos uma bagagem muito grande, com tradições, rock, pop… era uma mescla grande, apresentando muitas coisas, e foi esse o paralelo que a gente traçou”. Apresentando os movimentos como uma síntese do Cavalo Marinho, o Mestre Ambrósio que Helder botava vendia a banda Mestre Ambrósio e todas as figuras culturais e sonoras que ela compreendia.

De acordo com ele, os personagens dançarinos foram com os quais ele mais se identificou; talvez porque a principal virtude da máscara – na contramão daqueles que buscam nelas outras vidas – é, na realidade, acentuar os próprios traços morais e corporais de cada indivíduo que a usa; em vez de encará-la como algo que anule somente, percebê-la como um artefato que sublima a essência daquela pessoa e de sua alma, na honestidade do anonimato. “A Veia tem uma dança muito forte. Você vai identificando as suas características próprias, com algumas naturezas de personagem. Tem personagem que é muito mais com o texto, que você acaba se afinando mais com a figura; mas no meu caso é a dança. A minha velha nasceu primeiro no palco do Mestre Ambrósio. Demorei pra colocar no terreiro do Cavalo Marinho, mas não tinha experiência e chamei a minha velha de Veia do Bambu”, conta o músico, que depois de um tempo percebeu que sua personagem guardava diferenças da figura do Cavalo Marinho, brincadeira que começou a frequentar ao passo que o grupo Mestre Ambrósio dava os primeiros passos.

Mestre Salustiano também chamou sua atenção: “ele falou que parecia com outra velha que nem conhecia e fui entendendo”. Qual seria, então, o nome daquela senhorinha desinibida que interagia com os Ambrósios no palco? No aniversário da Duas Companhias, ele resolveu levar a velha consigo, para fazer surpresa as amigas Lívia Falcão e Fabiana Pirro. E, no evento, reconheceu a personagem: essa velha é a Veia da Usina – a da música Usina. “E nesse dia eu rebatizei, e hoje chamo de Veia da Usina”, diz Helder.

“Isso está intrínseco no teatro como um todo. Não acho que é só na máscara, embora a máscara tenha a sua magia própria. No teatro, a gente empresta e coloca a serviço do personagem, enquanto energia. O Helder fica ali presente mas inteiramente a serviço daquela energia que o personagem está solicitando, mas não tem incorporação. A gente não perde a consciência. Essa é a diferença do teatro para outros tipos de manifestação onde figuras aparecem. Nesses transes (que estou falando sem nenhuma pretensão de explicar) as pessoas não tem consciência do que está acontecendo. No teatro, a pessoa que está botando a figura não perde. Está presente emprestando a energia, o corpo e toda a sua existência para fazer emergir”.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #9 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Arte: Ganjarts

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Jornalista e repórter da revista Outros Críticos. Diretora da Fundação de Cultura de Camaragibe. Roteirista e performer.

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