A Teoria é uma ficção do pensamento

Difícil principiar esta escrita, já tantas vezes enunciada e materializada em fala nas tantas situações de sala de aula, de elucubrações de boteco; nas discussões após apresentações de trabalhos em congressos acadêmicos e bate-papos após espetáculos teatrais. E me delongo neste introito justamente para ganhar tempo e, quem sabe, alguma maior disposição do leitor (Afinal: “palavras sedutoras/ são caminho/ de cativeiro”, Pimentel, Renata. 2015: pg84. In: Denso e leve como o voo das árvores). Já me anima fundamentar um argumento com poesia e me desdobrando nos tão óbvios e inevitáveis desdobramentos de mim mesma (aqui teorizadora – me legitimaria ter diploma de doutora em teoria da literatura? – Pausa para um riso irônico, e também poeta, algumas de minhas personas e performatividades).

Esta escrita que poderá parecer caótica (como se o caos não nos ensinasse tão-somente uma outra forma de ordem) nasce da reflexão primeira de como nos preocupamos em apresentar as fontes de nossas fundamentações teórico-discursivas, e vem o ‘argumento de autoridade’: cito fulanX (para não limitar o gênero e sinalizar sua pluralização ou fluidez me valho do X) de tal, e vêm os escolhidos traços para apresentação e “legitimação”. Por exemplo: filósofa, lésbica, ativista, pós-colonial, negra… Mas esses adjetivos não deixam de ser, também, reduções! Tento explicar, ou confundir um pouco mais, para ver se “perdidos como cegos em tiroteio” conseguimos acionar outras camadas de nossas percepções… Defendemos tanto a pluralidade da identidade de todo e qualquer sujeito, mais complexa do que qualquer forma redutora de o definir/ aprisionar/ reduzir, mas seguimos necessitando perversamente do mesmo expediente, porque entendemos ainda como estratégia política. E aqui, ainda, nem exatamente discordo de que haja alguma eficácia neste procedimento, apenas o aponto para que tentemos ficar atentos e especular potências e limitações nesta práxis… Aqui, admitimos que usamos politicamente a arma que é usada para nos atacar (a própria língua).

 

(espaço para fomentar o cuidado e a respiração necessários a reações inflamadas imediatas e a eventual possibilidade de elas passarem e cederem lugar à possibilidade de pensarmos mais serenamente nas potências e limitações insinuadas há pouco).

 

Dou outro ‘salto’ e sigo em minha colcha de retalhos de ideias. Lembro quando me dei conta de o quanto meu raciocínio funciona de modo digressivo: vou elaborando o que tenho a dizer, escolhendo palavras e sentenças e vão surgindo analogias e desvios (ser desviante por reconhecimento e convicção) e não consigo não os abrigar em minhas enunciações…

Penso por analogia e, por vezes, irrito audiência (ou leitorXs) mais ansiosXs ou impaciente/S (se não suficientemente suscetíveis à sedutibilidade). E penso por imagens (mal da poesia?)… Se um texto é, e lá vêm as fontes a serem citadas (ou seduzidas e comidas/ servidas no banquete de degustações), um concerto polifônico, uma teia intertextual (Bakthin e Kristeva e todos que se desdobram a estudar o hipertexto – não que creiamos haver algo novo aqui, apenas nomeado diversamente ou identificado tardiamente), haverá como não citar? Mas citar é antropofagizar – diríamos nestas plagas onde aceitamos comodamente não haver pecado, pois ao sul do Equador – e isso novamente é praticar a incorporação/ citação de uma ficção do pensar…

 

(outro intervalo, porque contraio os hábitos e rituais – sem julgamentos de bons ou maus – dos terrenos de hibridia nos quais me (de)formo e (des)vi(v)o – outro golpe de teatro, outra natureza de poética).

 

Esclarecendo a expressão ‘golpe de teatro’ – que me chega a partir da obra do argentino-parisiense Raul Botana, que se assinava sob o pseudônimo de Copi, ator, dramaturgo, ficcionista e desenhista de comics[1]: quando uma ação irrompe na cena e se desvela um imprevisto desdobramento ao que parecia apontar o desenrolar prévio. No caso de Copi, a uma morte pode suceder uma ressurreição da personagem, basta que se estabeleça o sonho ou o delírio como procedimento. Não se trata de uma justificativa (nada se quer explicado, teorizado ou – menos ainda – comprovável), mas da experiência e de uma concepção e compreensão do modus operandi de instauração de um real possível: matéria da arte.

Intervalo, outro agora, para uma dedicatória que me parece dever caber mesmo é quando a inspiradora criatura se constitui presença inevitável[2]: “escrevo a partir da feiúra e para as feias, as caminhoneiras, as mal comidas, as incomíveis, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado da boa moça. E começo assim para que tudo fique bem claro: não me desculpo de nada, não vim aqui para reclamar. Não trocaria de lugar com ninguém, porque ser [Renata Pimentel] me parece um assunto muito mais interessante do que qualquer outro.”[3]. Escrevo, antes de por e para qualquer outro ente, para e por mim mesma. E definitivamente provocada por Wilton Garcia: gracias, querido, pelo beliscão necessário num dark room acadêmico para que eu parisse este texto!

Inter-calo-me e a nós todos um pouco para mudar de novo a prosa e seu rumo, indo ao mesmo intento: quem seria uma autoridade “legítima” ou legitimante para constituir bastante fundamentação teórica? Alguém legitimado em alguma determinada instância (de poder, ou dos mesmos com pouco poder e que se desejam converter em porta-vozes de um todo grupo?)? Me sinto apta a falar apenas do exato minúsculo e expansível rincão de ser humano, cheiA de demandas; aqui por hora e nomenclatura transitiva em voga, aparentemente CISgênera, mas em lugar borrado. E trago uma fala potente, para a partir dela pensar/ confundir mais este terreno de “autoridades/ representações” e tentar, mais que qualquer outro intento, desvelar como se ficcionalizam pensamentos e lugares de falas. E também me parece que esvaziar essa potência da ficcionalização seria ceder ao enfraquecimento da pretensão generalizante/ totalizante (olha o possível fascismo se insinuando) da teorização segundo a herdamos da nossa impositiva ‘herança’ civilizatória europeizante segundo o modelo imperialista…

Eis a fala:

“Sou uma das mulheres em Aleppo que em breve serão violadas. Não há mais armas ou homens que possam ficar entre nós e os animais que estão prestes a vir, o chamado Exército do país. Eu não quero nada de você. Nem mesmo suas orações. Ainda sou capaz de falar e acho que a minhas orações são mais verdadeiras do que as suas. Tudo o que peço é que não assuma o lugar de Deus e me julgue quando eu me matar. Eu vou me matar e não me importo se você me condenar ao inferno! Estou cometendo suicídio porque não quero que meu corpo seja alguma fonte de prazer para aqueles que sequer ousavam mencionar o nome de Aleppo dias atrás. E quando você ler isso saiba que eu morri pura apesar de toda essa gente.”

Se a fonte pode ser citada? Esbarramos aqui em uma obviedade: não! E isso a invalida como fonte? Novamente não. O pior é nos termos deixado tão inocente/ perversamente impregnar pelas supostas certezas da tal coisa-ciência/ saber-ciência e até o dito jornalismo e sua falácia da imparcialidade, e o historiador durante tanto tempo escondido sob a mesma pele… A arte sempre trans-via, para além de engajamentos e políticas específicas ou militâncias: evoé!

Tentemos um pouco de cenário contextualizante, pois que no teatro ele muito vale para nos preencher de imagens e densidade. Moradores do leste da cidade síria de Aleppo estão pedindo permissão a seus líderes religiosos para que pais possam matar as filhas, mulheres e irmãs antes que elas sejam capturadas e estupradas pelas forças do regime de Bashar al-Assad, da milícia libanesa do Hezbollah ou do Irã; isso segundo “relatos que circulam”. Como atestá-los? Será assim tão necessário, ou basta refletir um pouco sobre o tanto que já se destrançou sobre imperialismos?

Basta lembrarmos de Prudêncio, o menino escravo em que montava o menino-burguês Brás Cubas, inútil e mimado defunto-autor, veículo da ironia demolidora e ácida de Machado de Assis, aquele mulato, gago e epilético nascido no Rio de Janeiro de um certo país chamado Brasil em um certo século XIX… Machado se ficcionalizou, usou estratégias mil para ser aceito, embranquecido, institucionalizado, canonizado. Foi amigo até do mais conservador e censor escritor-protótipo da Tradição-Família-e-Propriedade burguesa: José de Alencar. Prudêncio, aquele escravo citado, quando consegue alguma posse, que faz? Compra um escravo e o chicoteia em público, revelando sua “ascensão” ao mundo opressor! (Outras provocações instauradas aqui).

Voltando a Aleppo: as histórias voltam e revoltam e ganharam força com a reprodução nas redes sociais (aquário e tribunal superficial, tantas vezes, de nossos tempos de sensibilidades epidérmicas e velozes retrocessos) da carta que transcrevemos, de uma enfermeira da área cercada da cidade explicando por que havia escolhido o suicídio ante a possibilidade de “cair nas mãos de animais do Exército sírio”. E vários outros sujeitos postam mensagens desesperadas, à medida que as tropas do governo se aproximam. Fazem isso, suponho, na tentativa de aproximar o mundo do drama vivido na área rebelde da cidade síria. Cartas em garrafas lançadas ao mar das virtualidades, talvez na única esperança de apaziguar a consciência (ao se estar ao menos denunciando) e de uma eventual futura melhor escrita, menos ÚNICA, da(s) história(s): este discurso oficial e ficcionalizado segundo a visão e interesses dos vencedores, tão bem denunciada em suas estratégias, por exemplo, pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie em sua palestra ao canal TED intitulada O Perigo de uma história única.

E não ser História Única produtora de estereótipos é pulverizar ao mais, ao além dos além (como dizia Estamira[4], em sua estória sendo a beira do mundo), pulverizar de vozes e relatos e sujeitos capazes de se irmanar em alteridade e humanização e solidariedade. Por isso, o desejo de pensar as diferenças a partir do que nos une: o medo, a dor, o amor… E que o tal “lugar de fala” incorpore a consciência do poder e da fragilidade e das limitações de cada enunciador em suas ficções pessoais: e disso se possa construir autoridade o bastante para o respeito ao diverso, porque tão humano quanto seja lá quem enuncie. E isso é UTOPIA, sim. Que a doença, o páthos e a flagrante falência da humanidade na terra nos acordem! Por isso, reivindico: meu lugar de fala é o cu! Este que nos irmana, que nos enfraquece e nos deixa potentes; este que é fonte de excremento e de prazer; este que é “demolidor de vaidades” (no dizer de Hilda Hilst, escritora paulista e filósofa universal/ pessoal do humano).

A arte se agigante em sua potência de micropolítica, de minar de dentro qualquer absolutismo, qualquer ismo, até a vanguarda. A representação ganha outra dimensão, como palavra, como termo mesmo. De uma certa maneira, na arte, paira sempre a ideia da representação. A representação do personagem, do evento histórico, da situação. Mesmo que alegórica, metafórica, metonímica, essa arte faz uma representação. Agora, começa a haver uma representação no campo de uma micropolítica, entendida mais literalmente e numa chave de reivindicação de um discurso e de um lugar de fala. Aí, ela fica ainda mais confusa. É interessante essa confusão, sim. É interessante porque é justamente aí que a Babel começa a pegar fogo.

Um artista como o auto-ironicamente denominado ‘argentino-parisiense’ Copi que diz: ‘para aí! Esses movimentos de reinvindicação, de representação de gay e lésbica… Eu não quero nada disso. Isso tudo é um saco, eu quero outra coisa. Eu quero a possibilidade de transitar, de ser isso, depois ser aquilo’. Assim, ele faz brincadeiras como uma representação que pode até ser lida pelo sujeito como um panfleto mesmo, por que depende aí da leitura, do lugar de leitura, das limitações e desejos e palavras de ordem até a que quer servir o sujeito leitor com sua apropriação de leitura… E perde-se da potência de atrito e desautomatização desta arte…

Então, o que eu acho que é fundamental na forma política de a arte conseguir permanecer – e como ela consegue e a que consegue efetivamente, e que, pra mim, vai se constituir como arte – é essa: a que não se dobra em fazer das explicações, argumentaçõezinhas, dos panfletinhos. Quando, por exemplo, ao invés de dar lição de moral, estou realmente colocando a moralidade e a imoralidade… A gente está imerso num discurso de palavra de ordem, que é o perigo que eu falo da representação. Quando arte vira palavra de ordem, fodeu. A gente é julgado dessa maneira: quem é você para me representar? Pronto, comecei a falar em primeira pessoa do singular: nada mais contrário ao ‘rigor impessoalizante e supostamente generalizante que instaura verdades teóricas’ (risos), mas seria eu legitimável como ‘lugar de fala’? (Dúvidas epistemológicas? – novos risos).

Vivemos um momento de patrulhamentos mútuos e múltiplos. Nos dividimos e criamos cercas e fronteiras e guetos de um modo que o outro, tão excluído e à beira quanto eu, torna-se adversário, inimigo até. E ficamos a medir quem é mais ou menos privilegiado… Em que momento isso acontece, exatamente? O policiamento passa a ser tão grande que a gente joga fora o bebê, a água e tudo mais. Arremessa e vai com tudo. E o artista atento se dá conta: tem esse lugar tênue. Tem essa coisa de a gente pensar, por exemplo, nesse momento de formação de um pensamento social brasileiro, que é essa viradinha do século XIX pra o XX… Ah, meu bem, todos eles  (artistas, escritores, intelectuais, “cientistas”) flertaram com aquela noção de ciência que a gente tem até hoje, que engendrou o naturalismo, a ideia do relatório, do título, de instituição e de institucionalização. Então, a gente ainda está lutando contra essa mesma lógica. A ideia é que essas vozes por tanto tempo caladas e desautorizadas precisam ser ouvidas, porque elas ainda não têm lugar, ou têm muito pouco. Falamos na dívida histórica. E ela existe, é real e inquestionável. Mas NUNCA será paga! Os únicos lugares de fala que ainda têm alguma reverberação parecem permanecer sendo esses das “autoridades” referendadas por instituições que galgaram seus quinhões de poder e convertem tais fontes em apropriadas Fundamentações teóricas, ou ficções do pensamento com status de verdade comprovada.

Implodamos isso, minemos de dentro, denunciemos o quanto de invenção há no pensamento desta ciência produtora de estereotipia. Não criando novos fundamentalismos de minorias; não nos convertendo em apontadores de dedo em riste, em inimigos do vizinho de infortúnio; não sejamos cabos eleitorais de um policiamento estéril. Criemos uma arte que atrita; uma arte que ARTrita; provoquemos riso nervoso; choque; agonia; indignação… Afinal, ainda com Copi: “não é a língua, é o cu”, e por ele nos humanizamos.

E no exercício de descortinar o quanto de ‘verdades falidas’ foram produzidas em nome e em decorrência dos métodos da ciência, lembro aqui o Cesare Lombroso: psiquiatra, cirurgião, higienista, criminologista, antropólogo e cientista italiano que desenvolveu, no auge do cientificismo do século XIX, uma extensa pesquisa empírica de traços físicos e mentais com indivíduos encarcerados, doentes mentais e soldados, denominada Antropologia Criminal. Sua pesquisa, tida como cientificamente rigorosa nos padrões da época, se restringiu à caracterização e dedução de tendências criminosas em conformidade à figura do delinquente; o foco da análise (repito, empírica) eram fatores como: composição física (fisionomia, sensibilidade, agilidade, sexualidade, peso e idade), “anomalias” cranianas, composição biológica (hereditariedade, reação etílica) e psicológica (senso moral, inteligência, vaidade, preguiça e astúcia). Baseado nisso, estabelecia os estigmas e as condenações físicas e psíquicas para a definição do ‘delinquente nato’.

Neste contexto, era objeto de atenção de Lombroso para a determinação do criminoso nato, por exemplo, a tatuagem, a qual era um indício de insensibilidade e selvageria, como fatores intrínsecos ao atavismo. Logo, o desenho, a região do corpo em que ela se situava, o número de tatuagens presentes no indivíduo revelaria muito de sua vida e personalidade e permitiria traçar o seu potencial delitivo. Incontestável teoria, não? (risos e aguardo meu primeiro crime, baseada em meu gênero, minha sexualidade, minhas tatuagens…).

As fantasias, os conceitos prévios, os padrões morais de uma sociedade (ou dos representantes da elite econômico-discursiva) estabelecem leis, delírios de ‘ordem e progresso’ (lema positivista de nossa bandeira nacional)… Em A Preparação do diretor, Anne Bogart nos invoca o filósofo Richard Rorty, a propósito da importância da memória, sobretudo, no processo artístico, estendendo-a, no esteio do filósofo em que se baseia, ao discurso da assim chamada ciência (ou dos que a fazem, os cientistas). Vejamos:

Os seres humanos são estimulados a contar histórias a partir da experiência de lembrar de um incidente ou de uma pessoa. O ato de expressar o que é lembrado constitui, de fato, segundo o filósofo Richard Rorty, um ato de redescrição. Ao redescrever alguma coisa, novas verdades são criadas. Rorty sugere que não existe realidade objetiva, não existe ideal platônico. Nós criamos verdades descrevendo, ou redescrevendo, nossas convicções e observações. Nossa tarefa, e a tarefa de cada artista e cientista, é redescrever as hipóteses que herdamos e inventar ficções para criar novos paradigmas para o futuro. (2011: 36)

E das palavras do próprio Rorty, Anne Bogart transcreve:

A verdade não pode estar lá fora – não pode existir independente da mente humana… O mundo está lá fora, mas as descrições do mundo não estão. Só as descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo em si – sem a ajuda das atividades descritivas dos seres humanos – não pode. (apud 2011: 36)

E a ciência é, inquestionavelmente, uma das atividades descritivas e conceituadoras dos seres humanos. A partir dessa premissa, Teresa de Lauretis desenvolveu seu conceito de tecnologias de gênero; afinal, da mesma forma que a sexualidade, as tecnologias sociais produtoras dos discursos em torno do gênero acabam por atestar uma visão homogeneizante. Mas Lauretis considera que estas mesmas tecnologias podem agir na contramão e desautorizar tais discursos, porque tecnologias de gênero são quaisquer espaços nos quais os discursos sobre gênero são produzidos.

A construção do gênero ocorre hoje através de várias tecnologias de gênero (p.ex. o cinema) e discursos institucionais (p.ex. a teoria) com o poder de controlar o campo do significado social e assim produzir, promover e implantar representações de gênero. (LAURETIS, 1994, p. 228)

E mais ainda, para engrossar o caldo desse afluente em nossas especulações, em seu livro inaugural Black feminism thought [1948] (2002), Patrícia Hill Collins contesta o próprio modo de se fazer teoria, quando denuncia um elitismo do ambiente acadêmico e a recorrente linguagem hermética e excludente dos textos teóricos aí circulam e legitimam disputas de poder e instauram verdades. Collins afirma que a teoria e a academia também poderiam ser instrumentos de opressão na medida em que silenciam vozes e sustentam hierarquias e privilégios:

Eu não poderia escrever um livro sobre as ideias das mulheres negras que a grande maioria das mulheres Africanas-Americanas não podia ler e compreender. Teoria de todos os tipos é frequentemente apresentada como sendo tão abstrata que pode ser apreciada somente por um grupo seleto. Embora muitas vezes altamente satisfatória para acadêmicos, essa definição exclui aqueles que não falam a linguagem das elites e, portanto, reforça as relações sociais de dominação. As elites educadas tipicamente alegam que só elas são qualificadas para produzir teoria e acreditam que só elas podem interpretar experiências, não só a sua própria, mas todas as outras pessoas. (COLLINS, 2002, p.vii)[5]

Se quisermos trazer à cena a voz de uma brasileira (imperativos das geografias), Lélia Gonzalez foi uma das defensoras desse pensamento. Escrevia no que chamou de “pretuguês” (GONZALEZ, 1984, p.225), ou seja, um português traduzido na cor do povo ao qual se identificava, um academiquês todo seu e que julgava compreensível a ‘sua gente’. Eis uma opção que, se atenta a não se reivindicar verdade, pode engendrar um método mais integrador por possibilitar uma relação de troca e não apenas pretender a hierarquização de um conhecimento legitimado tão-somente por ser produzido na academia. Nesse sentido, não só a linguagem deve ser reinventada, mas também os próprios modelos de investigação da teoria e os meios em que eles são produzidos e divulgados:

O fato é que, enquanto mulher negra, sentimos a necessidade de aprofundar nessa reflexão, ao invés de continuarmos na reprodução e repetição dos modelos que nos eram oferecidos pelo esforço de investigação das ciências sociais. Os textos só nos falavam da mulher negra numa perspectiva sócio-econômica que elucidava uma série de problemas propostos pelas relações raciais. Mas ficava (e ficará) sempre um resto que desafiava as explicações.  (GONZALES, 1984, p.225).

Interligamos essas vozes no intuito de criar terreno aberto à voz de um eu que sabe ter o que dizer, que relaciona subjetividade sua e relação com o mundo, mas sem destituir as contribuições anteriores previamente, por não serem das mesmas exatas ‘identidades’ (como já dissemos, esta louca abstração multifacetada e em eterno devir). Para nos encaminharmos a um ponto final neste texto cheio de “veredas que se bifurcam” (e por isso, concluímos o infindável), provocamos: o conhecimento cientificista ocidental despreza a experiência como categoria válida de saber, no entanto, as criações artísticas apontam a experiência como ponto de partida para representações e criações de mundos, aos quais a pretensa ciência se ‘dobra’ tentando explicar…

Encerramos, pois, fazendo nossas as sábias palavras de Susan Sontag (2015, na contracapa do Entrevista completa para a revista Rolling Stone por Jonathan Cott):

Sinto que estou mudando o tempo inteiro, algo difícil de explicar porque as pessoas costumam acreditar que a atividade do escritor está ou ligada à expressão de si ou à criação de uma obra que convença ou mude as pessoas de acordo com as visões do escritor. Não acho que nenhum dos dois modelos faz sentido para mim. Quer dizer, escrevo em parte para mudar a mim mesma (…). (grifo meu)

[1] Já escrevemos sobre ele em texto anterior nesta coluna.
[2] E deliberadamente, por coerência interna à proposição transgressora, não sigo a ABNT, como quem guia um carro inglês, em mão inglesa, no Brasil. Como um sketch do Monty Python (dos meus diletos, o Ministério das Caminhadas Tolas, por exemplo).
[3] DESPENTES, Virginie. 2016: 7. Seria o nome dela mesma, autora original do trecho do qual me aproprio, no lugar onde inseri meu próprio nome: a primeira das ficções.
[4] Catadora que viveu no lixão do Gramacho – RJ e virou fonte e voz para livro com sua fala, filme, espetáculo de teatro…
[5] I could not write a book about Black women’s ideas that the vast majority of African-American women could not read and understand. Theory of all types is often presented as being so abstract that it can be appreciated only by a select few. Though often highly satisfying to academics, this definition excludes those who do not speak the language of elites and thus reinforces social relations of domination. Educated elites typically claim that only they are qualified to produce theory and believe that only they can interpret not only their own but everyone else’s experiences.

Foto de capa: Camila van der Linden

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Bacharel em Letras, com Mestrado e Doutorado em Teoria Literária pela UFPE. Desde 2010 é professora adjunta de literatura na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Publicou "Uma lavoura de insuspeitos frutos" (ed. Annablumme, São Paulo, 2002); "Copi: transgressão e escrita transformista" (ed. Confraria do Vento, 2011); "Da arte de untar besouros" (poesia, ed. Confraria do Vento, 2012) e "Denso e leve como o voo das árvores" (poesia, ed. Confraria do Vento, 2012); além de diversos artigos em vários periódicos e capítulos de livros. Tem formação também em dança clássica e atua nas áreas criativas da dramaturgia em dança contemporânea e teatro e com curadoria e pesquisa em artes visuais. Foi colunista do JC on-line e, atualmente, da Outros Críticos.

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