A narrativa de uma jornada

Kitsch. Clement Greenberg preconizava que esta pequena palavra imbuída de significados desastrosos para a sensibilidade humana se alastraria pela Cultura com o aprofundamento da sociedade de consumo de massa. De fato. O domínio do tacanho com aparência de sublime, do eterno deslocamento ante a autenticidade e o conteúdo, alimentado pela sistemática industrial da produção em série de objetos padronizados, amparado pela democratização consumista do prazer estético e potencializado pela explosão do mundo em infinitas constelações de apreensão do real, contaminou a lógica da criação artística. Assim, a obra de arte enquanto a objetivação do universo interior do artista em busca de comunicação no território imaterial da experiência estética tornou-se ultrapassada, demodê. Em seu lugar, surge uma arte domesticada, em perfeita sintonia com os valores de seu microcosmo sociocultural, que, mais do que promover epifanias, referenda tão somente estilos de vida e padrões de consumo. Neste sentido, a produção artística se apresenta como uma espécie de broche ou insígnia de distinção social qualquer que insere o indivíduo contemporâneo, destradicionalizado e paradoxalmente perdido no deserto de sua individualidade, numa diminuta comunidade na qual ele se reconheça membro. Via de regra, o que se conhece hoje por jazz no coração do establishment cultural vem reiterando toda essa perspectiva. No entanto, existem ainda os que se valem dos anacrônicos preceitos da Arte para apresentar sua visão de mundo, como atesta o segundo trabalho do guitarrista e compositor pernambucano Dom Angelo Mongiovi intitulado Porto (2015).

Desdobramento natural de sua tese de doutoramento em performance jazzística na Universidade de Aveiro, o álbum traz sete composições do instrumentista escritas quando de sua temporada em Portugal e documenta o amadurecimento estético do jovem Mongiovi na sua jornada pelo desabrochar de sua artisticidade. Neste trabalho, é possível identificar a caminhada que levou o menino que se aventurava timidamente pela alternância de modos de “My Favorite Things” nas terças de jazz do falecido Café Porteño no longínquo ano de 2006 ao músico que vivenciou o estilo não como pano de fundo sonoro para ambientes pequeno-burgueses, mas, isto sim, enquanto linguagem viva e fértil terreno para mentes imaginativas. Por isso, suas composições vão além da tradicional forma chorus, na qual os músicos apresentam a melodia principal, alternam-se na improvisação girando sobre o encadeamento harmônico estabelecido, fazem “chamada e resposta” com a bateria e finalizam reexpondo o material temático. Buscando por um estilo próprio, Angelo ultrapassa as contingências da tradição jazzística agregando elementos de sua raiz cultural e um pouco do rigor formalista da música erudita, para a cada composição contar uma história, escrever uma crônica que se vale da improvisação individual e coletiva para dar profundidade emocional às narrativas. Por conseguinte, o resultado é um álbum coeso que foge às conveniências do artificial, atacando o modus operandi da estética kitsch no âmago em sua exigência por uma “reação controlada”, que “já contém as reações do leitor ou espectador, dispensando maiores esforços perceptivos e interpretativos.”1

Destaque para “Porto”, balada que abre e dá nome ao disco enaltecendo os espaços para criar uma ambiência suspensa, flutuante, como se um Angelo contemplativo diante do novo submergisse no encantamento que nasce das infinitas possibilidades do desconhecido; a emblemática construção narrativa de “Baião D’Aveiro”, a qual expõe um baião estilizado para desconstruí-lo numa sessão de improvisação livre e o recompor purificado sob a égide da liberdade criativa, uma clara alegoria ao entendimento do compositor sobre a música e si mesmo após o tempo em Portugal; o straight ahead de “Awareness” que além das reminiscências da escola guitarrística de Grant Green evidencia a firme base que os instrumentistas angariaram no hard bop; os voicings de Angelo e sua inclinação aos acordes híbridos; o belo trabalho do saxofonista João Mortágua nas improvisações; o vibrafone reativo de Marcel Pascual Royo.

Recomendado.

1 MERQUIOR, José Guilherme; Formalismo e Tradição Moderna: O Problema da Arte na Crise da Cultura, É Realizações Editora, 2ª edição ampliada, São Paulo, 2015, págs. 49-50.

Publicado originalmente na edição #11 da revista Outros Críticos.

Foto: Catarina Thomaz

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Compositor, baixista e colunista do blog Variações para 4.

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